Lixo industrial gera renda quando manejo é feito em rede

Estudo mostra que boa gestão de resíduos da produção pode dar lucro, além de proteger o ambiente

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Resíduo industrial/Wikipédia
Brasil pode estar perdendo milhões de reais anualmente por não realizar reciclagem industrial adequada – Foto: Foto: Wikimedia Commons

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Resíduos de produção industrial geram lucros e novos empregos quando empresas trabalham em rede. Estudo realizado pelo administrador de empresas Rodrigo Villa Lobos D’Amico, na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto (Fearp) da USP, mostra que as vantagens dessas associações para o empresário brasileiro vão além de uma bem-sucedida gestão ambiental, impactam também num bom retorno financeiro.

Cerca de 183 mil toneladas de resíduos de produção industrial são descartadas por dia no Brasil. Esse número é de 2009 e segundo o pesquisador, aproximadamente 40% podem ser reciclados de acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Para as autoridades, apesar da evolução das técnicas de manejo do lixo urbano, a solução para o problema dos descartes está longe do ideal. Assim, as experiências de empresas que se organizam em redes de cooperação para o manejo sustentável de resíduos sólidos chamaram a atenção de D’Amico, que estudou dois casos de sucesso no Brasil.

O primeiro é o de empresas que se unem para aumentar a reciclagem de embalagens longa-vida. Se por um lado essas embalagens permitem transporte e armazenagem de produtos sem necessidade de refrigeração, por outro as tornam responsáveis por 1,18% de todos os resíduos sólidos urbanos e por aproximadamente 3% dos descartes recolhidos por programas de coleta seletiva.
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Foto: Divulgação/Tetra Pak
Foto: Divulgação/Tetra Pak

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Essa rede tem como membro principal a empresa responsável pela produção das embalagens, que buscou parcerias e apoios técnicos para o desenvolvimento e operação da tecnologia usada no processo. A rede envolve, além da empresa principal, cooperativas/organizações, que se responsabilizam pela coleta seletiva.

Conta D’Amico que a líder da operação oferece o conhecimento técnico para as empresas de coleta seletiva. Além disso, ela apoia as negociações e o desenvolvimento da logística a ser usada entre os recicladores e as indústrias transformadoras. Também corre por conta da líder um programa de educação ambiental que incentiva a coleta seletiva e a reciclagem de embalagens longa-vida.

Apesar do pesquisador garantir que não é possível fazer correlação direta com esse projeto, o Brasil registrou aumento de 215% no número de embalagens recicladas de 2002 a 2014.

Bolsa de resíduos da construção civil

Como segundo caso, D’Amico estudou uma rede de reciclagem de resíduos da construção civil, coordenada por uma construtora. O foco dessa rede é administrar os resíduos gerados, comuns à maior parte das obras edificadas pela empresa.

Criaram, inicialmente, uma plataforma virtual para a venda dos materiais que descarta, identificando as melhores formas de acesso para quem recicla. A estratégia da plataforma é garantir a melhor comunicação entre a oferta e a demanda pelos resíduos.

O funcionamento da Bolsa é simples, informa o pesquisador. Os resíduos gerados em cada obra executada pela empresa de construção civil, ao invés de virarem lixo, são cadastrados na plataforma virtual, chamada de Bolsa de Resíduos. Os recicladores, que estão na plataforma, veem o produto e fazem suas ofertas. A construtora avalia as propostas e realiza a venda para a melhor delas.

Um serviço de consultoria externa faz a gestão técnica da bolsa e também garante à empresa da construção civil que os resíduos terão o destino correto, evitando futuros problemas. Com esta rede, incrementada pela tecnologia da informação e intermediada pela consultoria, que garante qualidade, o setor financeiro da empresa diz ter aumentado em 54% seu faturamento, mesmo com o investimento, e esse retorno aconteceu em menos de um ano.

Em avaliação final, D’Amico diz que, apesar das dificuldades enfrentadas no processo de reciclagem, as empresas podem se beneficiar com as redes de cooperação para manejo sustentável de seus resíduos. Essas redes, sustenta o pesquisador, se mostraram muito viáveis ao minimizar a complexidade do processo com articulação e cooperação entre as organizações.

Benefícios da coleta, oportunidade de negócios

Após a revolução industrial houve considerável aumento do consumo de recursos naturais para a produção e geração de energia, alimentos e, por consequência, o aumento da geração de resíduos. Apesar disso, a preocupação com o descarte correto desses resíduos continua pequena.

O lixo urbano é jogado em aterros sanitários pela coleta, e em terrenos baldios por parte da população. Os resíduos sólidos urbanos cresceram 18,5% de 2008 até 2012, informa D’Amico. Houve também aumento de 13,7% na geração de resíduos urbanos, per capita, nesse mesmo período.
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Foto: Wikimedia Commons
Foto: Wikimedia Commons

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O pesquisador lembra que a coleta seletiva é importante, pois existem variados tipos de resíduos e cada um deve receber acondicionamento, manutenção do local gerador, forma de coleta, transporte, tratamento e destinação final de acordo com seu tipo. Por isso, também é importante a educação da população para caracterização e separação dos resíduos.

Pelo lado econômico, o estudo revelou que é possível, através do manejo correto, gerar renda com os resíduos, tanto no processo de sua captação quanto de tratamento ou reciclagem. Mas essa oportunidade ainda não é totalmente aproveitada.

O pesquisador mostra que, por não ter reciclado o lixo industrial, considerando toda a cadeia, os diferentes materiais e os benefícios econômicos e ambientais, o Brasil pode ter perdido em torno de R$ 8 milhões em 2009, segundo o Ipea.

Essas informações são parte da dissertação de mestrado de Rodrigo Villa Lobos D’Amico, com orientação do professor Rogério Ceravolo Calia, apresentada à Fearp, em agosto de 2015.

Lívia de Oliveira Furlan, de Ribeirão Preto

Mais informações: e-mail 070132@gmail.com

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