Livro resgata a trajetória política de Caio Prado Júnior

Filho de uma das famílias mais ricas e tradicionais da oligarquia agrário-industrial paulista, o historiador foi um comunista convicto. E combinou sua importante atividade intelectual com a ação prática

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Filho de uma das famílias mais ricas e tradicionais da oligarquia agrário-industrial paulista, o historiador foi um comunista convicto. E combinou sua importante atividade intelectual com a ação prática - Foto: Caio Prado Júnior, outubro de 1941 via Agência Fapesp
Filho de uma das famílias mais ricas e tradicionais da oligarquia agrário-industrial paulista, o historiador foi um comunista convicto. E combinou sua importante atividade intelectual com a ação prática – Foto: Caio Prado Júnior, outubro de 1941 via Agência Fapesp

Uma velha anedota do folclore comunista reporta conversa que teria ocorrido entre o então primeiro-ministro da União Soviética, Nikita Kruschev, e o então primeiro-ministro da China, Chu En-Lai. Para fustigar o interlocutor, no momento em que as divergências sino-soviéticas haviam chegado ao ponto da ruptura, o russo referiu-se à origem social de cada um, lembrando que ele, Kruschev, era filho de camponeses, ao passo que En-Lai era filho de aristocratas. Famoso por sua habilidade diplomática e frases espirituosas, o chinês não se deu por vencido. E retrucou: “Ambos traímos nossas classes de origem”.

Se tal conversa realmente ocorreu nesses termos é difícil saber. Mas a curiosa ideia de uma traição à classe de origem certamente se aplicaria à trajetória de um importante intelectual e político brasileiro, o historiador Caio Prado Júnior. Filho de uma das mais ricas e tradicionais famílias da oligarquia agrário-industrial paulista, o futuro autor do clássico Formação do Brasil Contemporâneo aderiu muito cedo ao Partido Comunista e dele jamais se afastou – uma escolha que motivou sua prisão no período da ditadura civil-militar.

Essa trajetória militante, muitas vezes omitida nos estudos sobre Caio Prado Júnior, que ressalta apenas sua fecunda atividade intelectual, foi reconstruída agora no livro Caio Prado Júnior: Uma Biografia Política, de Luiz Bernardo Pericás. Resultado em parte de uma pesquisa de pós-doutorado apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) o livro também contou com auxílio para publicação.

“O livro é fruto de uma pesquisa de seis anos, em arquivos públicos e privados. Recolhi depoimentos de mais de 70 pessoas e tive acesso a uma documentação vastíssima. Caio Prado Júnior era meu tio-bisavô e isso me ajudou a pesquisar nos arquivos de familiares, que fizeram a gentileza de abrir suas casas para que eu pudesse consultar documentos que não estão em nenhum outro lugar. Encontrei muito material inédito na casa de parentes meus: cartas, fotos, periódicos, documentos da polícia política etc.”, disse Pericás à Agência Fapesp.

Mas a maior parte da documentação utilizada pelo pesquisador, que é professor de História Contemporânea da USP, foi consultada no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP. “Maria Cecília Naclério Homem, que foi a última esposa de Prado Júnior, vendeu a biblioteca e os documentos dele para o IEB. Passei dois anos pesquisando somente nesse arquivo”, comentou.

Reconstruindo o caminho percorrido na preparação de seu livro, Pericás recordou as muitas contribuições que recebeu de amigos e parentes. Por exemplo, uma colega, que estava pesquisando sobre Jorge Amado em Moscou descobriu, nos arquivos da antiga União Soviética, material relativo a Caio Prado Júnior, e lhe enviou. Um primo, que estava arrumando a garagem de sua casa, encontrou, sem querer, uma pasta de documentos sobre a prisão de Caio Prado Júnior, com cartas do médico dele, petições do advogado, documentos da Anistia Internacional, recortes de jornal etc. “Era uma mina de ouro. Precisei atrasar a impressão do livro para poder incorporar esses dados”, enfatizou.

“Escrevi uma biografia eminentemente política. É claro que menciono a família. Danda, filha de Caio, era membro do Partido Comunista, bem como o seu marido, Paulo Alves Pinto, que, junto com o sogro e outros intelectuais, participou do comitê de redação da Revista Brasiliense. Então, eu não podia deixar de incluí-los. Também não podia deixar de fora Caio Graco, filho de Caio Prado Júnior, que assumiu a direção da Editora Brasiliense em meados dos anos 1970. Na medida em que esses parentes tiveram uma relação política ou profissional com Caio, eu os inclui. Mas evitei referências à vida íntima do biografado. Por mais que isso fosse importante, achei que desviaria o foco da intenção principal do livro, que era a de discutir sua trajetória política”, explicou o pesquisador.

Berço esplêndido

Caio Prado Júnior nasceu em São Paulo, no dia 11 de fevereiro de 1907. Filho de Caio da Silva Prado e Antonieta Penteado da Silva Prado, pertencia a uma família que ocupou posição central na cafeicultura paulista, em uma época em que o Estado de São Paulo respondia por quase a metade de todo o café comercializado no mundo. Entre seus muitos parentes ilustres, cujos nomes designam atualmente várias ruas paulistanas, destacou-se Antônio da Silva Prado (1840 – 1929), fazendeiro, empresário, banqueiro e político, fundador do Partido Conservador, por duas vezes ministro do Império e por quatro vezes prefeito de São Paulo na Primeira República.

O futuro militante comunista passou sua infância na famosa Vila Penteado, no bairro de Higienópolis, onde residiam seus avós maternos, Antônio Álvares Leite Penteado e Ana Franco de Lacerda Álvares Penteado. Foi educado por preceptoras e governantas alemãs, um costume da classe alta da época que forneceria a Mário de Andrade o material para seu livro Amar, Verbo Intransitivo.

Apelidado Caíto, praticou, na adolescência, futebol, natação, equitação e ciclismo; frequentou assiduamente os clubes Tietê e Atlético Paulistano, fundado por um parente seu, Antônio Prado Júnior; e conviveu com políticos, intelectuais e artistas. Paulo Prado, primo de seu pai, foi o grande patrocinador da Semana de Arte Moderna, de 1922. Em 1918, ingressou no Colégio São Luís; em 1920, estudou em uma escola no Reino Unido; em 1924, passou a cursar a tradicional Faculdade de Direito do Largo São Francisco, onde se formou, em 1928, aos 21 anos.

No ambiente acadêmico, Caio Prado Júnior se interessou por política e participou, por pouco tempo, do Partido Democrático de São Paulo (PD), fundado por Antônio da Silva Prado, em 1926, e integrado por notáveis da oligarquia descontentes com o Partido Republicano Paulista (PRP), do presidente Washington Luís (1869 – 1957). Mas logo ingressou no Partido Comunista do Brasil, mais tarde renomeado Partido Comunista Brasileiro (PCB), no qual permaneceu pelo resto da vida.

“Ao contrário de muitos militantes famosos, que, em algum momento, saíram ou foram expulsos do Partido Comunista, Caio Prado Júnior jamais se desligou do PCB. Perguntado por um correligionário, em 1946, sobre sua posição política, respondeu: ‘Continuo onde sempre estive desde que me conheço por gente. Sou comunista e membro do PCB. E isto diz tudo’”, destacou Pericás.

“A obra de Caio Prado Júnior em geral é estudada como um subsídio para a compreensão da história do Brasil. Não se buscou, contudo, entender o próprio Caio, e por que ele escreveu o que escreveu. Muitas vezes apresentam o marxismo de Caio Prado Júnior como algo apendicular, como se este fosse um mero acessório metodológico. O fato é que Caio era um comunista, um militante ativo e disciplinado do PCB por vários anos e com grande envolvimento nos debates e discussões teóricas e políticas que ocorriam no ‘mundo do socialismo’. Muitas pessoas que leram o meu livro comentaram que eu lhes havia mostrado um Caio que elas não conheciam, muito diferente do que imaginavam”, sublinhou Pericás.

Foto: Divulgação/Boitempo
Foto: Divulgação/Boitempo

“Caio Prado Júnior era um admirador da União Soviética. Esteve lá duas vezes. E, em cada uma dessas ocasiões, escreveu um livro exaltando o modelo soviético. Elogiou muito o que viu na Polônia, Tchecoslováquia e China. Também era um admirador da revolução cubana, embora acreditasse que a guerra de guerrilhas não se aplicava ao Brasil; ou seja, que a transformação da sociedade brasileira não se faria pelo caminho da luta armada. Mas foi a Cuba, recebeu homenagens, conheceu Fidel Castro e presidiu vários comitês de apoio à revolução cubana. Muitos desses aspectos haviam sido negligenciados. À medida que fui esquadrinhando a documentação, apareceu à minha frente um Caio bastante diferente do retrato usual”, acrescentou o pesquisador.

Pericás ressalvou que a admiração de Caio pela União Soviética não se traduziu em uma adesão incondicional. Prova disso foi que, em 1968, ele enviou carta ao embaixador soviético, repudiando a invasão da Tchecoslováquia pelas tropas do Pacto de Varsóvia – uma medida inócua em termos práticos, mas relevante do ponto de vista moral.

Um aspecto que se destaca no livro é o extenso rol de relações e amizades de Prado Júnior. A lista é enorme. No Brasil, inclui nomes como os de Mário Schenberg, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Cândido Portinari e Nelson Werneck Sodré, e, no exterior, Alejo Carpentier, Nicolás Guillén, Rodolfo Puiggrós e André Gunder Frank, para citar apenas alguns dos mais famosos. Um de seus maiores amigos foi o advogado argentino Norberto Frontini (1899 – 1985), representante jurídico do importante grupo editorial Fondo de Cultura Económica, com matriz na Cidade do México.

Outro aspecto desvelado pelo pesquisador, e que contrasta com a imagem de Caio Prado Júnior como um intelectual de gabinete, foi o seu perfil de viajante, um tanto aventureiro. “Ele viajou muito, tanto para o exterior, onde conheceu vários países, quanto no próprio Brasil, fazendo pesquisa de campo. Sempre teve carros velhos, muito malcuidados. Talvez o mais famoso deles tenha sido um fusca, apelidado de ‘perereca’, com o qual percorreu o Brasil, nas piores condições, para observar, fazer anotações, fotografar e desenhar mapas. Tudo com o intuito de ter um conhecimento direto, em primeira mão, da realidade brasileira”, afirmou.

Militante comunista

Em 1947, como deputado estadual, Caio Prado Júnior foi membro da Assembleia Constituinte Paulista e teve um papel relevante na aprovação do artigo 123, que incorporou à Carta a proposta de atribuir à pesquisa um porcentual não inferior a 0,5% da receita ordinária do Estado e estabeleceu que o amparo à pesquisa se faria por meio de uma fundação. Assim, foram lançadas as bases para a criação da Fapesp, em 1962.

Conforme o levantamento minucioso feito por Pericás, a militância comunista levou Prado Júnior várias vezes à prisão: em 1935, depois da malograda tentativa insurrecional da Aliança Nacional Libertadora (ANL); em 1948, após a cassação do registro legal do PCB e de seu mandato como deputado estadual; em 1964, logo depois do golpe civil-militar, quando,  com seu filho, Caio Graco, foi acusado de publicar livros subversivos; em 1970, quando, depois de alguns meses de exílio no Chile, foi condenado a quatro anos e meio de prisão – pena depois reduzida. Na prisão, concluiu, em 1971, a redação dos textos O estruturalismo de Lévi-Strauss e O marxismo de Louis Althusser.

Foto: Divulgação/Boitempo
Foto: Divulgação/Boitempo

“Se pudéssemos condensar um dos aspectos centrais da produção intelectual de Caio, poderíamos dizer que ele investigou o desenvolvimento desigual e combinado do Brasil e mostrou que esse desenvolvimento se inseriu, desde seus primórdios, na lógica do mercado internacional e, depois, do imperialismo. Ou seja, que os desígnios externos, vinculados a elementos de poder econômico e político internos, geraram uma dinâmica que, a despeito das várias mudanças, manteve inalterados traços básicos das relações sociais”, resumiu o pesquisador.

“Essa visão da realidade brasileira o levou a criticar a concentração de terras nas mãos dos latifundiários e a livre iniciativa privada, a rejeitar todo tipo de autoritarismo e a defender o aprofundamento de reformas democratizantes, a questionar a existência de uma burguesia nacional anti-imperialista e recusar a política ‘reboquista’ do PCB em relação às lideranças burguesas reformistas. Principalmente, motivou seu engajamento no sentido de integrar as classes com menor nível econômico e educacional no processo de construção da nação”, prosseguiu.

Após a saída da prisão, em 1971, a produção intelectual de Caio Prado Júnior se reduziu e sua militância política praticamente se encerrou. “Depois de lançar O Estruturalismo de Lévi-Strauss / O Marxismo de Louis Althusser em livro e sua tese História e Desenvolvimento, ele se limitou a revisar livros anteriores. Republicou A Revolução Brasileira (1966) com o acréscimo de um posfácio, em 1977. E reuniu e editou textos antigos, como aqueles que vieram a integrar o livro A Questão Agrária no Brasil, de 1979, assim como fragmentos de obras já editadas, que resultariam em pequenos trabalhos lançados em coleções de bolso, como a Primeiros Passos. Sua última ação política, já com a saúde abalada, foi uma discreta participação no início da campanha Diretas Já”, concluiu o pesquisador.

José Tadeu Arantes / Agência Fapesp

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