História cultural do humor mostra que rir não é só “melhor remédio”

Para historiador, humor não é só um mecanismo da “boa saúde”, mas também “um índice de como as sociedades se representam”

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Segundo estudioso, as ciências humanas vêm fornecendo respostas importantes para a questão de considerar-se o humor como produto cultural que muda ao longo do tempo – Foto: Beeki via Pixabay / Public Domain / CC0

A recente publicação Encyclopedia of Humor Studies, organizada por Salvattore Attardo, é um marco na história dos estudos sobre o tema, rompendo a barreira que o meio acadêmico mantinha erguida perante o assunto. A participação dos historiadores na Enciclopédia, porém,  é pequena, restringindo-se a uma perspectiva de “olhar para o passado”. Artigo recém-publicado na Revista de História, questiona: “o humor é parte essencial da natureza humana, instrumento a serviço da perpetuação da espécie, ou um produto cultural mutável no tempo, fluido e historicamente gerado?” O texto aborda, resumidamente, as contribuições de diferentes áreas do conhecimento nos estudos e pesquisas sobre o universo humorístico nas áreas da neurologia, das ciências cognitivas e da primatologia.

Nesse artigo, Elias Thomé Saliba afirma que, para o historiador, “o humor não é definido só em termos de piadas, mas, sim, como um mecanismo de enfrentamento psicológico”. Além das explicações científicas que tratam o humor como “recompensa química do cérebro”, as ciências humanas vêm fornecendo respostas importantes para a questão de considerar-se o humor como produto cultural que muda ao longo do tempo. Ressalta-se a presença de historiadores em eventos organizados por associações e instituições relacionadas ao humor, que, apesar de ainda pequena, tem sido bastante significativa.

“o humor é social da mesma forma que nossas amizades são sociais […] rimos mais quando estamos com outras pessoas do que quando estamos sozinhos” – Foto: terimakasih0 via Pixabay / CC0
O artigo discute as principais teorias formais do humor, citando o neurocientista Robert Provine, para quem a função do humor seria, em outras palavras, criar laços sociais. Para o pesquisador Frans De Waal, “corremos quando os outros correm, rimos quando os outros riem” afirmando que “não é nossa mente que penetra na de outra pessoa, é o nosso corpo que mapeia o do outro”.

Observa-se que “o humor é social da mesma forma que nossas amizades são sociais […] rimos mais quando estamos com outras pessoas do que quando estamos sozinhos”. Recentes pesquisas defendem que o humor, o riso, é um mecanismo de enfrentamento psicológico, um estratagema do cérebro humano para a resolução de conflitos, já que às vezes é a única forma de lidar com o turbilhão da vida.

Foto: Gellinger via Pixabay / CC0

Para o historiador, segundo Saliba, a maior parte dessas pesquisas sobre o tema é limitada, pois elas atentam só para “a reação fisiológica do riso e não propriamente o humor”; o humor não é só um mecanismo da “boa saúde” ou técnica para produzir o riso, não faz parte da natureza das coisas e dos homens “é um índice de como as sociedades se representam”. Dos autores da retórica antiga que abordaram o tema, ressalta-se Quintiliano, considerado como um precursor por levar em conta a associação do humor “às paixões, aos sentimentos e, no limite, a uma estética”. Segundo o filósofo La Rochefoucauld, “há pessoas que jamais teriam se apaixonado se não tivessem ouvido falar do amor”.

A atitude do historiador diante dos vários e diferentes olhares para o riso precisa ser reflexiva e crítica, mas não esmiuçar origens da cultura humorística. O mais importante é analisar seus usos, práticas e diálogos “em todos os planos da vida humana”, já que todas as disciplinas científicas estudam o humor, o qual, “entre todos os outros, talvez seja o mais formidável elemento de comunicação entre as sociedades”. Qual é o papel do riso na construção de um futuro político e social? Para um esboço de resposta, o autor recorrem ao crítico da linguagem Wittgenstein, o qual afirmava que a verdadeira tarefa do filósofo era “mostrar à mosca a saída do vidro”. O historiador da cultura humorística dá ressonância a essa ideia, acrescentando que “no cenário atual, é só pelo solavanco mental da anedota que se pode mostrar a saída à mosca”.

Elias Thomé Saliba é professor titular no Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. É membro da International Society of Luso-Hispanic Humor Studies e coordenador do Grupo de Pesquisa em História Cultural do Humor (certificado pelo CNPq).

SALIBA, Elias Thomé. História Cultural do Humor: balanço provisório e perspectivas de pesquisas. Revista de História, São Paulo, n. 176, p. 01-39, nov. 2017. ISSN: 2316-9141. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9141.rh.2017.127332. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/127332/135577>. Acesso em: 16 dez. 2017.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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