Estudo mostra reorganização econômica de jornalistas para sobreviver às tecnologias

O estudo foi baseado em experiência de jornalistas blogueiros que antes trabalhavam nos meios impresso, televisivo e radiofônico

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Foto: Lúcio Bernardo Jr./ Câmara dos Deputados
Foto: Lúcio Bernardo Jr./ Câmara dos Deputados

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Transformações tecnológicas que atingiram as redações de jornalismo, afetando principalmente a rotina de produção da notícia nas últimas décadas, levaram profissionais de comunicação a migrarem das tradicionais mídias (jornal, rádio e TV) para os blogs – os chamados diários online. Uma das principais causas dessa debandada foi a sobrevivência econômica ao novo modelo de jornalismo da era digital. A conclusão faz parte da tese de doutorado Jornalistas, blogueiros, migrantes da comunicação: em busca de novos arranjos econômicos para o trabalho jornalístico com maior autonomia e liberdade de expressão, defendida na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP por Claudia do Carmo Nonato Lima.

Cláudia do Carmo Nonato Lima - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Claudia do Carmo Nonato Lima – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Embora a profissão de jornalismo aparentemente se apresente em crise, Claudia se considera otimista e acredita que o jornalismo vai resistir ao processo de mudanças porque se reinventa a todo momento. Em meio à chegada da internet, às demissões, ao enxugamento de quadros nas redações e à participação do cidadão na produção da notícia, os profissionais, sobretudo os mais experientes, buscaram caminhos alternativos para continuar atuando: as novas mídias (blogs), o jornalismo de dados, o jornalismo de curadoria e o de mediação da informação.

Para a pesquisa, Claudia fechou seu recorte em dois grupos de blogueiros – os vinculados aos portais e os independentes – que buscaram as novas mídias como alternativa para exercerem seu ofício. Estes se enquadravam em duas categorias – os jornalistas experientes que já possuíam uma trajetória consolidada no meio tradicional (impresso, radiofônico ou televisivo) e outros profissionais que não eram tão conhecidos do grande público, mas marcavam presença por serem mais ativos, citados e compartilhados em redes sociais.

Blogs pesquisados

Blogs ligados a empresas de comunicação
Blogs ligados a empresas de comunicação

No total, foram quinze jornalistas que participaram do estudo: os que tinham ligação com portais de grandes grupos de comunicação: Josias de Souza (UOL), Juca Kfouri (UOL), Leonardo Sakamoto (UOL), Reinaldo Azevedo (Veja), Ricardo Kotsho (R7) e Ricardo Noblat (O Globo). Alguns jornalistas independentes e ligados a portais também independentes: Conceição Oliveira (Fórum), Renato Rovai (Fórum), Rodrigo Vianna (Fórum), Luis Nasssif (GGN), Luiz Carlos Azenha (Viomundo) e Paulo Henrique Amorim (Conversa Afiada). E, por fim, os independentes e sem ligação com portais: Altamiro Borges, Altino Machado e Miguel do Rosário.

Claudia queria saber como os jornalistas vinham enfrentando os desafios profissionais na sociedade contemporânea, tendo como contexto as relações de trabalho e a viabilidade econômica desse processo. Como um dos resultados, o estudo constatou que muitos dos profissionais que migraram para os blogs encontraram obstáculos de peso – financeiros e judiciais – que os impediram, em muitos casos, de exercerem a profissão no novo meio. Durante suas investigações, Claudia viu “muitos blogs serem desativados e se tornarem inviáveis, em virtude de processos judiciais abertos contra os blogueiros, que resultaram em pagamentos de quantias vultosas aos reclamantes”, relata a pesquisadora.

Blogs ligados a portais independentes ou sem portais
Blogs ligados a portais independentes ou sem portais

Para sobreviver e manter seus blogs, os jornalistas independentes, que não estavam vinculados e nem recebiam de grandes grupos de comunicação, recorriam ao “crowdfunding”, uma forma de financiamento virtual, em que as pessoas colaboram com doações para dar sustentabilidade financeira aos blogs. Foi o caso do blog Viomundo, de Luiz Carlos Azenha. Ele recebia doações via assinatura mensal de leitores e tinha o financiamento da produção de uma determinada reportagem que os internautas tinham interesse de ver veiculada no blog. Por outro lado, os jornalistas ligados aos portais de empresas de comunicação não apresentaram dificuldades financeiras. Eles tinham outras fontes de renda e ou mantinham relação contratual com as empresas jornalísticas e recebiam salários.

Em suas conclusões, a pesquisadora afirma que a internet trouxe novo fôlego à área e que o jornalismo ainda está pleno processo de transição, mas que permanecerá firme em sua missão social. No blog, a informação se democratizou e permitiu que a população tivesse mais acesso ao conhecimento. “O jornalismo morre, renasce e se reinventa para sobreviver aos novos tempos”, conclui.

A tese na íntegra está disponível neste link.

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