Escritora mais publicada da Primeira República foi vetada na ABL

Documento mostra que Júlia Lopes de Almeida foi apagada do quadro de fundadores da Academia Brasileira de Letras

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn1Print this pageEmail

Para historiadora, episódio praticamente desconhecido da história da Academia Brasileira de Letras tem enorme densidade simbólica – Foto: Wolfhardt via Wikimedia Commons / CC BY-SA 3.0

.

Retrato de Júlia Lopes de Almeida, pintado por Berthe Worms, em 1895, e oferecido pela retratista à escritora. Mantido por Claudio Lopes de Almeida, neto da escritora

Livro recém-lançado resgata obra da escritora mais publicada da Primeira República (1889-1930) e a única mulher a fazer parte do grupo de intelectuais que fundaria a Academia Brasileira de Letras (ABL). Em documento extraoficial, encontrado por pesquisa da USP, consta o registro do nome de Júlia Lopes de Almeida entre os cogitados que comporiam a lista de fundadores. O livro A (in)visibilidade de um legado – Seleta de textos dramatúrgicos inéditos de Júlia Lopes de Almeida mostra a importância da escritora e a redime de uma sociedade machista, cujas barreiras de gênero a relegaram ao ostracismo institucional.

O livro é de autoria de Michele Asmar Fanini e foi lançado em março de 2017 pela Editora Intermeios e coedição da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O trabalho é resultado de uma pesquisa de pós-doutorado feita no Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

A lista extraoficial onde constava o nome de Júlia foi encontrada por acaso. Em 2005, quando Michele dava início ao seu doutorado, cujo recorte de pesquisa era a investigação dos bastidores de ingresso das mulheres na ABL, se deparou com o documento que tinha sido elaborado por um dos idealizadores da academia, Lúcio de Mendonça. Na lista, apareciam elencados quarenta nomes daqueles que, segundo ele, deveriam figurar como seus membros fundadores. Seguindo o modelo da Academia Francesa, cujos ingressos consistiam em uma prerrogativa masculina, a ABL excluiu o nome de Júlia da listagem final, mesmo  ela tendo uma produção literária bastante variada. Escreveu romances, peças de teatro, crônicas, contos e poemas.   Por sua vez, o marido da escritora, Filinto de Almeida, que também integrava o grupo de idealizadores, se tornou um de seus fundadores.

Integrantes da “panelinha”, criada em 1901 para a realização de festivos ágapes e encontros de escritores e artistas. A fotografia é de um almoço no Hotel Rio Branco (1901), que ficava na Rua das Laranjeiras, 192. De pé, temos: Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Olavo Bilac, José Veríssimo, Sousa Bandeira, Filinto de Almeida, Guimarães Passos, Valentim Magalhães, Rodolfo Bernadelli, Rodrigo Octavio, Heitor Peixoto. Sentados: João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos – Foto: ABL via Wikimedia Commons

A partir da descoberta, Michele optou por redefinir o recorte cronológico da tese, de forma a contemplar os primeiros 80 anos de existência da ABL, período de total ausência feminina em seus quadros. Para a pesquisadora, “Júlia Lopes de Almeida foi o primeiro e mais emblemático vazio institucional produzido pela barreira do gênero”. Fundada em 1897, a ABL só admitiu uma mulher entre seus membros em 1977, quando elegeu Rachel de Queiroz para ocupar a cadeira de número 5. De lá para cá, apenas outras sete mulheres ingressaram na academia.

.

Júlia Lopes de Almeida foi o primeiro e mais emblemático vazio institucional produzido pela barreira de gênero

Michele Asmar Fanini 

A Abolição da Escravatura: quadro de 1849 de François-Auguste Biard

Segundo Michele, os achados documentais renderam-lhe novas questões e caminhos de pesquisa, alguns dos quais percorreu até o pós-doutorado, momento em que se dedicou à transcrição e análise de um conjunto de textos teatrais inéditos que deu origem ao livro A (in)visibilidade de um legado. A obra traz a público seis textos teatrais inéditos de Júlia, que viveu no Rio de Janeiro até 1834: O caminho do céu; A última entrevista; A senhora marquesa; O dinheiro dos outros; Vai raiar o sol; e Laura. “Os enredos são saturados de ingredientes cênicos alusivos aos hábitos e valores característicos da sociedade brasileira burguesa da época”, explica a pesquisadora.

Retrato a óleo de Júlia Lopes de Almeida, pintado por Richard Hall, em 1922. Pertence ao acervo da Academia Carioca de Letras (ACL)

Dentre as personagens, destacam-se as figuras do político bem-sucedido, do agiota, do misógino, do “homem de negócios”, da mãe dedicada, da jovem sonhadora e laboriosa, da menina instruída, do órfão da escravidão, do caça-dotes, do fidalgo empobrecido, da burguesa nobilitada, do oportunista, do escritor estreante e até mesmo de integrantes da parvenue lisboeta (novo- rico).

Considerada escritora abolicionista, em O caminho do céu Júlia propôs uma narrativa em sintonia com seu contexto da época, período marcado por um conjunto de transformações que culminariam, poucos anos depois, na Abolição. Segundo a pesquisadora, a trama é farta em referências à educação feminina, ao ethos burguês oitocentista e à escravidão, elementos que segundo Michele são capazes de produzir uma imagem, ainda que parcial, do estilo de vida da elite brasileira de fins dos anos de 1880. O fio condutor da ação era o processo de aprendizagem a que Laura (uma das personagens) havia sido submetida. Por meio da figura de um preceptor, Gama, a jovem recebia uma educação esmerada, cheia de valores morais e éticos que lhe foram transmitidos por sua mãe, Clotilde.

Ao final da trama, entra em cena Gustavo, uma criança cuja história de vida sintetiza a própria história da escravidão. Descrito por Gama como “o réprobo da sociedade de hoje, que, embora livre amanhã, terá sempre gravado na fronte o ignominioso selo do berço em que nasceu”, Gustavo é alguns anos mais jovem do que Laura, e filho de uma escrava que se apartara dele durante uma transação comercial para pagamento de dívida de seu proprietário. Para Michele, o texto O caminho do céu é “a dramatização de algumas das vicissitudes e impasses de uma modernidade que grassou sobre o pano de fundo cerzido pela escravidão”.

Todos contra Júlia

Capa do Livro – Arquivo Michele Asmar Fanini

Dia 4 de julho, data em que a ABL completou 120 anos de existência, houve uma homenagem a Júlia Lopes de Almeida. O evento integrou o ciclo de conferências coordenado pela escritora e acadêmica Ana Maria Machado, batizado de Cadeia 41. A proposta foi homenagear aqueles escritores que, por motivos distintos, não ingressaram na academia. O escritor Luiz Rufatto proferiu a palestra de abertura Todos contra Júlia. Para Michele, a homenagem “conferiu visibilidade a um episódio praticamente desconhecido da história da ABL, mas de enorme densidade simbólica”, conclui.

Serviço

Obra: A (in)visibilidade de um legado – Seleta de textos dramatúrgicos inéditos de Júlia Lopes de Almeida
Publicação: Editora Intermeios – dia 23 de março de 2017
Autora: Michele Asmar Fanini
Vínculo unidade USP: Pesquisa de pós-doutorado feita no Instituto de Estudos Brasileiros da USP entre os anos de 2011 e 2014.
Financiamento: Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)
Orientação e co-orientação: Marcos Antonio de Moraes e Ana Paula Cavalcanti Simioni

Mais informações: michele.fanini@gmail.com, Michele Asmar Fanini.

Share on Facebook0Share on Google+0Tweet about this on TwitterShare on LinkedIn1Print this pageEmail

Textos relacionados