Diversidade religiosa está presente na Polícia Militar de São Paulo

Sociólogo estudou as principais características e objetivos de grupos religiosos que se formaram nos quartéis da PM paulista

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Foto: Eduardo Saraiva/A2IMG
Diversidade religiosa mostra que a corporação acaba sendo um retrato da sociedade – Foto: Eduardo Saraiva via Fotos Públicas

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É sabido que parte da sociedade paulista não vê com bons olhos o policial militar. Heróis para uns e vilões para outros, alguns destes homens trazem consigo determinadas características que os diferenciam de um cidadão comum. “Podemos observar isso no comportamento, postura e até mesmo no modo de falar”, observa o sociólogo Luiz Vicente Justino Jácomo. Mas, contrariando o que comumente costuma-se imaginar, há uma forte presença da religiosidade no exercício diário da profissão, à qual se confere, pelo Estado, o uso legítimo da força física.  Para o pesquisador, “não há contradição entre tais aspectos”.

A religiosidade na polícia, ao invés de constranger a ação policial, reafirma-a sobre outros pontos de vista.”

Foi a tentativa de desconstruir essa aparente “contradição” entre a força e a fé que levou Jácomo a empreender um estudo sobre as práticas religiosas de policiais militares dentro dos quartéis. Como resultado, apresentou a dissertação As religiões da polícia: religião e religiosidade na Polícia Militar do Estado de São Paulo, orientada pelo professor Reginaldo Prandi, no Programa de Pós-graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, em que analisa como se dá esta combinação. “Uma corporação que reúne mais de 100 mil homens acaba por ser uma espécie de retrato da sociedade, e o objetivo foi analisá-la a partir das preferências religiosas”, define.

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PMs de Cristo oferecem serviço de culto e ganham dia oficial – Foto: Divulgação/Guiame

O início das pesquisas de Jácomo foi em 2006, quando decidiu se aproximar de policiais militares evangélicos que se reuniam na cidade de Marília, no interior do Estado de São Paulo. Mais tarde, chegou à sede do comando da PM de São Paulo, na Academia de Polícia Militar do Barro Branco, e ao primeiro grupo que investigou, os PMs de Cristo. “É no Barro Branco que permanecem os aspirantes a oficiais da corporação”, conta o sociólogo. “Foi na academia que, de fato, nasceu o grupo PMs de Cristo. De lá, se espalhou para diversas outras cidades do Estado”, conta.

Nestas primeiras observações e acompanhamentos, Jácomo ainda não havia se decidido em relação ao eixo central de sua pesquisa. Já no mestrado, foi possível ao pesquisador definir seu projeto de estudos, já que ele havia mapeado outros três grupos religiosos que buscavam se institucionalizar dentro da corporação: os PMs a Caminho da Luz (kardecistas), os PMs de Axé (religiões afro-brasileiras) e o próprio serviço de Capelania Católica, este último anterior à própria fundação da Polícia Militar do Estado de São Paulo. Talvez pelo fato de os grupos se instalarem com seus núcleos centrais na academia do Barro Branco, que reúne basicamente oficiais, o pesquisador percebeu que os dirigentes desses núcleos eram, em sua maioria, policiais de alta patente.

Movimento pacifista: PMs de Cristo

Jácomo conta que o grupo PMs de Cristo surgiu entre os anos de 1995 e 1996, quando a polícia mergulhou numa grave crise depois que atos violentos, extorsões e execuções cometidos por policiais na Favela Naval foram filmados e exibidos em diversos telejornais. “Foi nessa época que os PMs de Cristo surgiram com a atribuição de ‘orar pela polícia’ ”, lembra.

Reunião dos policiais católicos - Foto: Site oficial do grêmio católico
Reunião dos policiais católicos – Foto: Site oficial do grêmio católico

Segundo o pesquisador, boa parte desses policiais atuava em serviços internos da corporação. Mais tarde, os grupos foram trazidos para próximo do comando da corporação, assumiram a missão de “valorizar a vida humana do policial” e, atualmente, possuem cerca de 50 células espalhadas em diversos outros quartéis da PM. “O grupo realiza cultos dentro da Academia, vigílias e tem até uma banda musical. A Lei Estadual n.º 14.798, de 2012, instituiu o dia 25 de junho como o Dia dos PMs de Cristo, inclusive”, conta Jácomo.

De todas as denominações religiosas que atuam na corporação policial paulista, a mais tradicional, certamente, é representada pelo serviço de Capelania Católica. A capelania é regulada no Brasil pelo menos desde o ano de 1850 e, atualmente, é prestada a partir de um acordo firmado diretamente entre o Brasil e o Vaticano.

“A Capela Militar de Santo Expedito, sede do serviço de capelania, é uma das mais frequentadas da cidade de São Paulo”, conta o sociólogo. Segundo o pesquisador, a existência do serviço de capelania é anterior à própria organização atual das forças armadas. “Trata-se de um órgão tradicional em corporações militares”, lembra Jácomo. Segundo ele, o capelão na PM sempre foi responsável por comandar cerimônias de casamentos e batizados, benzer viaturas, visitar periodicamente o hospital militar e organizar os grupos de jovens aspirantes a oficiais. “Tradicionalmente, a capelania é vista como um órgão oficial da corporação”, afirma.

Os novos grupos

Detalhe de cartaz de Divulgação dos PMs de Axé - Foto: acervo pessoal/
Detalhe de cartaz de divulgação dos PMs de Axé – Foto: acervo pessoal/Jácomo

A partir do estabelecimento dos grupos religiosos, outros dois reivindicaram espaço na corporação. O grupo PMs de Axé, que se propunha a representar os adeptos das religiões afro-brasileiras, não nasceu nos quartéis, diferentemente dos demais. “Um sacerdote e ativista das religiões afro-brasileiras chamado Babalorixá Flávio de Yansã teve acesso a uma cartilha publicada pelos PMs de Cristo, onde, segundo conta, haveria mensagens de discriminação às demais religiões. Dentro de um contexto de lutas contra as frequentes perseguições evangélicas às religiões afro-brasileiras, Pai Flávio decidiu entrar com uma representação contra a publicação”, conta Jácomo.

A partir desta contestação, e em parte pelo fato de que o terreiro sob comando de Pai Flávio era bastante frequentado por policiais, foi possível instalar o grupo na corporação. “Além disso, o Babalorixá também é filho de santo de um policial militar da Bahia”, lembra o sociólogo. O grupo então liderado por Pai Flávio foi chamado de Nafro-PM. “Ao mesmo tempo em que buscava afirmar a identidade dos policiais adeptos das religiões afro-brasileiras, grande parte das ações do grupo visava a combater a perseguição religiosa que alegavam existir dentro da PM, e chegaram inclusive a angariar apoio dentro da própria corporação”, ressalta Jácomo.

Reunião de policiais espíritas - Foto: Site oficial do grêmio espírita
Reunião de policiais espíritas – Foto: Site oficial do grêmio espírita

Contudo, na formação do grupo, Pai Flávio defendeu que a hierarquia fosse religiosa. “Foi aí que esbarrou na forte hierarquia da corporação, e esta pode ser uma das causas de o grupo não existir mais”, lembra o cientista social. O grupo atuou entre os anos de 2006 e 2013.

De outro lado, o grupo denominado PMs a Caminho da Luz, ligados ao kardecismo, queria algo semelhante aos PMs de Cristo. Tanto que chegaram a pleitear uma identidade jurídica para a associação. Mantêm reuniões até hoje nas dependências da Academia de Polícia Militar do Barro Branco. “Os policiais espíritas têm características mais discretas, se dedicando primordialmente ao estudo do kardecismo e à pratica assistencial. Eles conseguem reunir entre 30 e 50 pessoas, PMs e civis, em suas reuniões”, calcula Jácomo. Na opinião do pesquisador, os PMs a Caminho da Luz são os que apresentam uma linha mais contínua de atuação.

Um campo religioso militarizado

Para Jácomo, os quatro grupos identificados na corporação retratam, em alguma medida, a dinâmica do campo religioso brasileiro. “Mesmo a luta dos PMs de Axé contra o preconceito e discriminação é reflexo da dinâmica desse campo religioso mais amplo, que abarca toda a sociedade”, descreve. Da mesma forma, a efetividade dos PMs de Cristo em se expandir e agregar adeptos a partir de seu proselitismo também encontra consonância com a atuação dos evangélicos, especialmente os pentecostais, fora da corporação.

Em relação à narrativa oficial da corporação, o pesquisador conta que o discurso é de respeito a todas as religiões. Através da pesquisa, entre outras coisas, Jácomo identificou que, quanto maior a adaptação de determinado grupo religioso à hierarquia militar, maior é a chance de que este aumente seu poder de influência na corporação. E, contrariando o que comumente se imagina, a pertença religiosa não influencia na escolha do local de atuação do policial: “É comum que se imagine que um policial religioso prefira realizar serviços administrativos. Há policiais religiosos na Rota, na Rocam, na Tropa de Choque, enfim, em qualquer lugar”, finaliza o pesquisador.  Jácomo realizou seu estudo no grupo de pesquisa Diversidade Religiosa na Sociedade Secularizada da FFLCH, grupo coordenado pelo professor Reginaldo Prandi, e contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Mais informações: email luizvjj@gmail.com

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