Crítica de cinema fez parte da resistência contra o regime militar

Pesquisa analisou a relação entre política e estética na oposição à ditadura realizada pela crítica cinematográfica dos anos 70

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Adamatti conta que para se fazer crítica nos anos 70 era necessário escrever nas entrelinhas - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Margarida Adamatti: mesmo para se fazer crítica nos anos 70 era necessário escrever nas entrelinhas – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

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Diversos jornais sofreram com a censura durante os anos de 1970, após a instauração do Ato Institucional número 5. Nenhum outro, porém, foi tão censurado quanto o semanário
Opinião. Juntamente com O Pasquim e o Movimento, o Opinião surgiu como resistência ao regime militar ao compor a chamada “imprensa alternativa”.

O Opinião já nasceu com a censura em pleno vigor. O jornal surgiu com Fernando Gasparian, que decidiu criar um semanário de oposição à ditadura após a morte de Rubens Paiva pelas mãos do regime. Uma importante característica do semanário é que ele reunia diversas vertentes da esquerda e contava com um amplo apoio de intelectuais para, através do jornalismo, lutar contra a ditadura. Contudo, justamente por esse caráter combativo, o jornal já sofreu com a censura logo na sua primeira edição e assim continuou até sua manutenção não se sustentar, em 1977.

Em seu doutorado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a jornalista Margarida Maria Adamatti estudou o lugar da crítica dentro da imprensa alternativa na época. A pesquisadora relata diversos episódios em que o censor foi até o jornal para intimidar os jornalistas. Além disso, todos os textos escritos precisaram obrigatoriamente passar pela censura prévia a partir da quinta edição. Desse modo, era um desafio escrever de forma combativa sem ter o texto barrado – era necessário falar nas entrelinhas, inclusive ao se escrever críticas. 

Linguagem cifrada

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A imprensa alternativa da década de 1970 – Foto: Reprodução

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Alguns textos chegavam a ser barrados não necessariamente pelo seu conteúdo, mas sim por quem o escreveu, como era o caso do crítico e cineasta Jean-Claude Bernardet, que mais tarde se viu obrigado a utilizar pseudônimos para ter suas críticas publicadas. 
Margarida relembra um episódio em que Bernardet se utilizou de um jogo de perguntas direcionadas ao público ao escrever a crítica do filme São Bernardo, de Leon Hirszman, inspirado na obra homônima de Graciliano Ramos, que foi censurado durante sete meses. “Quando ele está falando de filmes que não têm um viés político, ele fala das cenas. Quando há censura é necessário falar tudo nas entrelinhas para que o público entenda. Então se cria uma linguagem cifrada no Opinião.

A pesquisa se sustentou sobre a catalogação das edições do jornal e entrevistas com críticos do Opinião realizadas por Margarida. “Por se tratar de um jornal de resistência, eu queria entender essa relação entre a estética e a política e como um tema político como esse enfrentava o debate estético do cinema”, explica. Ela também ressalta a importância de olhar para o formato do texto jornalístico em questão, afinal, em um período em que não se podia criticar o governo, analisar o formato com que o jornal decidiu tratar determinado assunto é importante para entender suas críticas e, a partir dessa forma, pensar qual era o projeto editorial do jornal.

Esquerda em conflito

As entrevistas também foram um momento importante da metodologia de pesquisa. Para entender como o jornal funcionava e, principalmente, os conflitos internos que existiram em especial com as várias vertentes da esquerda, a pesquisadora conversou com críticos como o próprio Jean-Claude Bernardet, Sérgio Augusto, José Carlos Avellar, Marcos Ribas de Farias e Clóvis Marques, além do editor Júlio César Montenegro.

Pesquisadora é formada em jornalismo pela Cásper Líbero e doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Pesquisadora é formada em Jornalismo pela Cásper Líbero e doutora em Meios e Processos Audiovisuais pela ECA – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

“Eu queria conhecer a censura interna da esquerda, que é também muito importante dentro do jornal. Fiz as entrevistas para entender como funcionava esse editorial de cultura. E isso é difícil intuir só com a leitura do jornal. Sem as entrevistas isso se perde”, argumenta. A entrevista com Júlio César Montenegro, por exemplo, foi fundamental. O ex-editor revelou diversas brigas, principalmente entre nichos da esquerda, que influenciavam na crítica do jornal.

Outro método de análise utilizado pela pesquisadora foi decompor um conjunto de textos que permitisse compreender como os críticos analisavam os filmes. “Fui procurando essas referências para saber como é que se fazia crítica de cinema e, então, entender quais eram os critérios políticos que influenciavam neste fazer.”

Na conclusão do trabalho, ela aponta dois fatores fundamentais para desvendar a crítica cinematográfica elaborada dentro do jornal Opinião: o primeiro é analisar o gênero do texto jornalístico (editorial, notícia, reportagem, entre outros) e como dentro dessa forma estava presente o caráter combativo do jornal em suas críticas; o segundo é esclarecer como o funcionamento interno, principalmente os rachas, influenciaram na continuidade do jornal.

O Opinião publicou sua última edição em 8 de abril de 1977, ainda sofrendo fortes pressões da censura. Das 222 edições feitas, metade foi barrada pela censura prévia que se instalou no jornal já a partir da sua quinta edição.

Com orientação do professor Eduardo Victorio Morettin, a tese A crítica cinematográfica no jornal alternativo Opinião: frentismo, estética e política nos anos setenta, defendida em 2015, foi pioneira em analisar a crítica de cinema em jornais alternativos durante o período militar.

Mais informações: e-mail mmdamatti@usp.br, com Margarida Adamatti

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