Cinema africano pode aumentar integração entre falantes de português

Especialista crê que ampliar diálogo fará deixar de existir a pergunta “existe cinema africano?”, que ouviu durante a pesquisa

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Dissertação de mestrado realizada na USP analisou um extenso corpus de filmes produzidos nos países lusófonos da África – Foto: Arte sobre cenas do cinema africano

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Entre o passado colonial e a independência revolucionária, do começo de uma nova democracia até um presente cheio de incertezas individuais, o cinema dos chamados Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa (Palop) retrata uma realidade conhecida por poucos.

Um estudo realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP analisou uma extensa lista de filmes produzidos nos países lusófonos da África. Para aproximar os brasileiros das nações que compartilham o português como língua oficial, a pesquisadora Marina Oliveira Felix de Mello Chaves catalogou um conjunto de mais de 50 filmes que retratam passado e presente de países como Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe. Ao analisar o mosaico de histórias produzidas em filme, a pesquisadora traduziu elementos que considerou significativos sobre a atual identidade destas nações.
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Njinga – Foto: Reprodução / Youtube

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Com a meta maior de construir um acervo que pudesse ser facilmente acessado, Marina questiona a incredulidade com a qual o tema de sua dissertação ainda é visto pelo público geral. Indagada se “existe cinema africano” durante sua pesquisa, a especialista acredita que é preciso ampliar o diálogo para que essa pergunta deixe de existir.

Para ela, é preciso que o cinema produzido na África deixe de ser considerado um nicho. “Cinema africano não tem que ser nomeado somente como africano, ele tem que ser considerado cinema”, afirma ao reforçar que, na sua opinião, temos que inverter um pouco essa relação de que o cinema africano foi resultado apenas de influências externas. “Eles têm sua carga própria e uma força narrativa que pode enriquecer muito os outros”, reforça, ao finalizar com a crença de que assistir mais filmes como os que analisou pode nos ajudar “a mudar o nosso olhar”, reforçando que, apesar de separados por um oceano, não estamos tão distantes.

Um acervo de novos significados

De acordo com o trabalho, no período colonial, o cinema representava um instrumento de propaganda do regime português. Já durante a luta pela independência, o cinema foi usado como uma arma dos movimentos nacionalistas. Nos anos iniciais das novas nações independentes, as produções fortaleceram os interesses dos novos governos. Depois da década de 1990, com a abertura política e o multipartidarismo, começaram a se desenvolver diversos e variados tipos de cinema relacionados com estes cinco países (Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe), “alguns mais críticos, outros mais voltados ao entretenimento”, destaca ela na dissertação.

Para adquirir os filmes, Marina realizou um verdadeiro trabalho de investigação. Poucos puderam ser comprados em sites nacionais, alguns foram encontrados em lojas on-line fora do País, mas a grande maioria precisou ser negociada com distribuidoras internacionais e com os próprios realizadores.
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O Último Voo do Flamingo – Foto: Reprodução / Youtube

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Foi assistindo à extensa filmografia que Marina começou a notar similaridades entre filmes portugueses e filmes feitos em Moçambique, por exemplo. Tanto nas temáticas ou em relação às escolhas estéticas, “de repente, eu encontrava conexões inesperadas”, salienta Marina.

Além de enumerar e catalogar o acervo, a pesquisadora tinha como objetivo saber quem era o público desses filmes e como seria possível expandi-lo, até mesmo, por meio de sua própria dissertação. “Eu pensei em formas de apresentar esse cinema como se fosse um guia turístico, uma viagem rápida que pudesse mostrar alguns pontos”, esclarece ela.

Entre as curiosidades do trabalho, Marina se surpreendeu ao enxergar paralelos do cinema africano com cineastas brasileiros como Glauber Rocha ou franceses como Jean-Luc Godard. Não por acaso, revela ela, após a independência, Moçambique criou um instituto de fomento conhecido como Instituto Nacional de Cinema. “Esse instituto reunia todos os profissionais envolvidos na realização de filmes. Cineastas como o próprio Godard e o diretor Rui Guerra foram chamados para dar treinamento aos profissionais locais”, conta ela. “Depois, com o declínio desse projeto [de governo], esse instituto foi cada vez mais abandonado”, conclui.

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Arte: Caio Bonifácio/Jornal.usp.br

 

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Percurso

Com formação em Publicidade e Letras, Marina começou a se interessar pelo cinema realizado na África durante a segunda graduação. Por meio de uma iniciação científica, orientada pela professora Fabiana Buitor Carelli, especializada em Estudos Comparados de Literaturas em Língua Portuguesa, Marina começou um catálogo de filmes produzidos em língua portuguesa na África, que desembocou anos depois em um ambicioso projeto de mestrado. A orientadora, que pesquisa o cinema africano há quase 10 anos, é a responsável pelo projeto de Marina. Um grupo de estudiosos sobre o tema tem se formado ao redor da área.

“Parti da iniciação científica, com todo aquele material que coletei, e percebi imediatamente a dificuldade de como organizar e catalogar aqueles filmes para montar um acervo”, relembra Marina. Nas últimas décadas, explica ela, os países africanos passaram por transformações políticas bastante intensas, das quais o cinema foi um importante participante.

“Meu intuito inicial foi discutir sobre os critérios de inclusão ou exclusão de uma cinematografia. Isso acarretaria uma discussão sobre a formação de um cânone [coletânea]”, revela Marina, ao destacar que, aos poucos, percebeu que seria impossível estabelecer critérios fechados antes de falar sobre os filmes propriamente ditos. No decorrer da dissertação, a especialista notou que os elementos que gostaria de pontuar precisavam ser pincelados em uma longa apresentação sobre os vários filmes que reuniu, por meio de diversas fontes.
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A Ilha dos Escravos – Foto: Reprodução / Youtube

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Um dos primeiros pontos que deixou claros durante seu trabalho foi a necessidade de não segregar geograficamente a produção cinematográfica de cada país. “Não existe apenas o cinema de Angola, cinema de Moçambique, cinema de Cabo Verde”, ressalta ela. “Deparei-me com um volume muito grande de filmes e tentei encaminhá-los para subconjuntos”, conta a pesquisadora. Sua metodologia envolveu separar cada capítulo, que conta com uma lista específica de filmes, em uma fase cronológica comum a esses países. “O primeiro é voltado para filmes anteriores à independência desses países; o segundo são os filmes revolucionários, que estão no centro da luta pela independência; e o terceiro são os filmes que começam no declínio desse projeto”, diz ela, esclarecendo que os filmes contemporâneos não são mais financiados pelo Estado, e sim por patrocinadores, com apoio de países estrangeiros em coproduções, o que permitiu, apenas para esse segmento da dissertação, organizá-los por temática.

Mais informações: e-mail marina.felix@usp.br

 

 

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