As transformações da música indígena e de quem a ouve de perto

Com o olhar de quem é pesquisadora e também artista, Marlui Miranda mapeia mudanças na música de indígenas

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“A música indígena em si não tem por que competir com música nenhuma. Ela é o que ela é” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Violões,
livros, discos e sons de passarinhos (dos que vêm à sua janela ou do relógio de parede) preenchem a sala de trabalho de Marlui Miranda em seu apartamento em São Paulo. Vez por outra pode-se topar com um prêmio ou cartaz que contam um pouco das mais de quatro décadas de carreira musical da artista.

A cantora, compositora e pesquisadora nascida em Fortaleza é referência fundamental quando se fala em música indígena, que também faz parte de sua vida há mais de 40 anos. Neste período, lançou 11 discos, muitos premiados no Brasil e exterior, nos quais procurou colocar os povos indígenas “como sujeitos, e não predicados da música”.

Ao longo desta trajetória, diz Marlui, uma imensa quantidade de material foi recolhida nas viagens que fez – vídeos, fotografias e áudios registrados desde meados da década de 1970 até hoje. Eles oferecem um amplo panorama das transformações da música indígena.  Mudanças das quais a artista foi, e continua sendo, testemunha atuante em primeira mão.

Nuyã pinta Marlui Miranda na aldeia Matxiri dos Yudjá em abril de 2012 – Foto: Flávia de Freitas Berto / Agradecimentos a Karin Juruna

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É com o intuito de retornar a este material e investigar estas mudanças que a artista deu início a uma pesquisa de doutorado na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP intitulada O novo tradicional: sons do índio para o Brasil, sob orientação do professor Ivan Vilela.

Marlui, que considera este o momento ideal para o trabalho – inclusive pois agora tem mais ouvidos para escutar o que os outros têm a dizer, conta. A empreitada, contudo, não deixa de ser ambiciosa. Quando pergunto se no doutorado terá o tempo que precisa, a resposta é direta: “não”. Um pós-doutorado já está nos planos, mas a pesquisadora ressalta que quer sobretudo entregar um caminho para que outras pesquisas e ideias possam ser desenvolvidas. “É isso o que a gente tem que deixar: os outros sabendo como usar aquilo que a tua passagem na vida recolheu.”

Ouça Tchori Tchori, cantiga dos Djereomitxi sobre o pássaro biguá. Faixa de Ihu: todos os sons

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Pesquisa à frente

A pós-graduação está longe de ser o único momento de pesquisa na carreira de Marlui. Este processo, invisível à maior parte do público que acompanha suas obras, está presente, na verdade, em cada uma delas.

“A pesquisa veio antes de tudo. Durante muitos anos eu não fiz nada senão pensar em pesquisar antes de produzir um trabalho.  Ihu: todos os sons foi gestado durante longos anos de pesquisa autônoma, porque eu não era vinculada a nenhuma universidade.”

Lançado em 1995, Ihu foi um projeto pensado já em 1986, cuja realização só seria possível devido a uma bolsa da instituição americana John Simmon Guggenheim Memorial Foundation. Com o financiamento, Marlui foi ao encontro dos diversos povos com os quais gestaria a obra.

“As universidades contribuíram enormemente para o desenvolvimento de uma visão mais realista em relação à cultura, à música e à participação dos indígenas na sociedade” – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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“O 
Ihu surgiu em Rondônia com o que eu aprendi com aqueles povos de lá. Foi a origem. Os primeiros contatos com os Wari. Os primeiros contatos com os Suruí, com os Jabuti, Makurap, Aruá e Tupari depois.”

No trabalho mais recente, Fala de Bicho, Fala de Gente, de 2014, a pesquisa mais uma vez veio à frente da produção musical. Um duplo convite levou Marlui a esta obra. Cristina Fargetti, linguista e professora da Faculdade de Ciências e Letras da Unesp de Araraquara, a chamou para integrar uma viagem de pesquisa ao Xingu, cujo enfoque seriam as escolas indígenas da região. Lá, a convite da Associação Yarikayu do Povo Juruna, trabalhou com os indígenas no registro de suas canções de ninar.

Esse modo de trabalho, onde o interesse parte da comunidade indígena, possibilitando uma interação mais presente com seus membros, foi particularmente positivo, avalia Marlui. Além disso, o amparo de instituições brasileiras hoje é bastante diferente de há décadas atrás, tanto pelo interesse de universidades, como pelo financiamento à pesquisa por órgãos de apoio, a exemplo da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
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Foto: Flávia de Freitas Berto / Agradecimentos a Karin Juruna

Eu tenho uma fé na capacidade da música de definir quem é aquele povo. O que aconteceu com ele. Porque a presença ou a ausência dessa música significa muito. Se um povo não está fazendo música, você vai lá investigar por que ele não está fazendo. Se ele está fazendo, você vai lá e vê que ele está fazendo música. Mas como ele está fazendo? Como é que era antes? Como é que é agora? Quais são as travessias que a música fez para alcançar o significado que ela tem hoje? Qual o papel da música?

Ouça Dukũ Dukũcantiga de ninar do povo Juruna, cujo guardião é Yabaiwa Juruna (representante autoral da Associação Yarikayu Juruna/Yudja)

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As transformações de uma arte

Marlui conta que, à época do lançamento, Ihu era um trabalho pensado “para formar uma plateia que não existia”, o que exigiria fazer frente aos muitos estereótipos impostos à música indígena. Distante do grande público ou mesmo do próprio ambiente de músicos, a produção era equivocadamente percebida como menor ou repetitiva.

Para mudar este quadro era preciso tomar os sons indígenas não como passagens ou citações no interior de uma obra – como se dava em peças de ópera ou algumas produções de Villa-Lobos na música erudita -, mas sim lhes dar protagonismo. Tal trabalho exigiria um processo de adaptação ao material. “A gente tem que desenvolver outro tipo de comportamento com relação a esta música. Nós fizemos este trabalho com o Coral da USP. Ficamos um bom tempo trabalhando timbre para não criar problemas com a voz, porque o timbre vocal indígena é outro.”

Da esquerda para a direita: Cristina Fargetti, Hi Juruna, Marlui, Nuyã Juruna, Tarinu Juruna, abril de 2012 – Foto: Flávia de Freitas Berto; agradecimentos a Karin Juruna

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Se o espaço para a música indígena se abriu, em comparação ao período em que iniciava seus trabalhos, a artista lembra que não é de uma mesma música que estamos falando ao longo dos anos. Há transformações não só na estrutura musical, mas também nos discursos e na inserção dessas produções em âmbitos para além das próprias comunidades.

“Por exemplo, a última que aconteceu agora é uma cantora indígena que entrou no meio da música popular, a Djuena Tikuna, que tem uma voz muito bonita. Ela está gravando, está entrando no mercado.” Djuena, primeira indígena do Brasil a lançar um CD próprio, é um exemplo dessas mudanças e das decisões que os próprios indígenas tomam em relação à sua produção cultural. Para Marlui, esses processos refletem também maior inserção e autonomia dos próprios indígenas no cenário musical.

Ouça Maraka’anandê na adaptação de Djuena Ticuna. Gravada por Marlui em 1997 como uma adaptação de música do povo Urubu-Kaapor, a obra é novamente transformada agora por Djuena, que introduziu termos da língua ticuna/maguta na letra e incluiu uma saudação com o nome de muitos grupos indígenas, dando à música um caráter pan-étnico.

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Guardadora

A artista conta que, quando canta junto aos indígenas mais novos as músicas que aprendeu há 40 anos com seus antepassados, eles se surpreendem, já que algumas das formas não são mais praticadas. Isso lhe conferiu uma função de guardadora, sendo inclusive assim nomeada pelos Suruí.

Recuperar a história da transformação e disseminação da produção musical indígena é, para Marlui, também uma retomada de sua própria trajetória e da mudança de sua forma de ouvi-la. E quando pergunto se sua percepção da música indígena mudou ao longo desses anos, é a própria transformação da artista e pesquisadora que transparece.
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Ah, sim. Vai cada vez mais mudando. E é de se esperar mesmo que teria que mudar. Os próprios indígenas mudaram. Eles fizeram outras escolhas. E eu acompanho as escolhas deles. Eu tive que aceitar, porque eu sempre fui muito, muito apegada àquelas formas tradicionais. E depois isso foi desaparecendo, né? Ou foi diminuindo. As gerações, os mais jovens, não aprendiam mais as músicas. Mas isso não quer dizer – isso é que foi meu aprendizado – que eles não estão fazendo um trabalho. Eles estão mantendo, mas eles têm uma outra forma de interpretar as músicas, que não é a mesma que era há 40 anos atrás.

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Ao final desta conversa, enquanto comentava a respeito das dificuldades de tradução que certas canções indígenas oferecem – e como considera desnecessário que num espetáculo se apresente estas traduções ao público – Marlui comenta de passagem a beleza dos poemas do francês Paul Éluard traduzidos para o português por José Paulo Paes. Num acaso feliz, os versos lidos por ela de Mediais parecem iluminar justamente a trajetória que acaba de contar e que continua a se abrir.
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Perto do cocar da ponte grande
o orgulho ao largo
espero tudo quanto conheci
cumulada de espaço cintilante
minha memória é imensa

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Ouça Kworokango, adaptação dos Kayapó de uma música Juruna.

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