Antropóloga discute experiência da perda de memória no Alzheimer

Doença implica estranheza e desorientação dos comportamentos, embaralhando fronteiras entre tempo e espaço

Por - Editorias: Ciências Humanas
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Imagem de um “livro com falta de memória”, da designer gráfica Rita Maldonado Branco – Foto cedida por Daniela Feriani

Até que ponto o esquecimento é sinal de doença? O artigo discute a memória como um processo que se estabelece na relação tensa e ambígua entre imaginação e alucinação, juventude e velhice, demência e lucidez. Pelos estudos na área, a memória não é cronológica, não é linear, mas uma avalanche de pensamentos e recordações, em que o tempo é um conceito complexo. Desse modo, quando esse processo se torna patológico?, questiona Daniela Feriani, em artigo da Revista de Antropologia, cujo tema é a doença de Alzheimer, partindo de “noções como trauma, verdade contrafactual e alucinação, o artigo percorre os diferentes significados, contextos e usos da memória“.

A maioria das pessoas que sofrem de Alzheimer tem uma vontade básica: a de voltar para casa, aquela em que se morava no passado, e que, muitas vezes, já não existe mais. Para a autora, o querer ir para casa se traduz em uma desorientação de tempo e de espaço, em que o indivíduo vive em um mundo só dele, como mostram os depoimentos de familiares-cuidadores, parte da pesquisa de Daniela, que esteve presente em consultas nos ambulatórios de neurologia e psiquiatria geriátrica de um hospital universitário e em reuniões do grupo de apoio da Associação Brasileira de Alzheimer (ABRAz). A problemática proposta pela autora é que “se, como alguns  autores vão mostrar, a memória é intricação, montagem, rastro, um jogo de ausência e presença, cabe se perguntar como isso se mostra numa doença cujos fios vão se soltando aos poucos“.

Os antigos lares dos pacientes se tornam “portadores de recordações“, sendo a casa um espaço pelo qual se fortalece o vínculo entre gerações. Para a autora, não se trata de “buscar apenas um tempo perdido“, mas um espaço perdido. Não é só a perda da memória que caracteriza a doença, mas também o “não conseguir fazer” as coisas. “Esqueceu de tomar banho ou não sabe mais como fazer? Esqueceu de pagar conta ou não consegue?“A doença de Alzheimer implica estranheza e desorientação dos comportamentos, que podem ou não estar associados com a perda da memória. Na doença de Alzheimer, memória e alucinação se sobrepõem – “a memória que alucina, o cotidiano que se assombra“: mudar o canal da televisão com um chinelo, usar detergente para cozinhar, convidar a imagem do espelho para passear são alguns exemplos citados pela autora.

A estrutura da memória não é linear e contínua, assim como “a doença também não é“, e, nesse contexto, surge a questão: na doença de Alzheimer, trata-se de lembranças ou visões? Segundo Daniela, a patologia se revela quando surgem sintomas como alucinação, perda de memória e desorientação, quando o passado se confunde com o presente e embaralha as fronteiras entre tempo e espaço. Na doença, a imaginação torna presente aquilo que está ausente e, nesse sentido, “a pessoa, de fato, ouve e/ou vê aquilo que diz/acredita“. Assim, “quando Jussara disse que comeu bolo de chocolate com os pais (que já faleceram), trata-se de uma lembrança ou uma visão, uma memória ou um delírio?“. Salienta a autora que a perda da memória é como ”sementes que vão se soltando e, ao caírem, germinam, assim como os fios da doença também vão se soltando, deixando rastros”.

Nesse artigo, a autora não pretende “negar o terror e a materialidade da doença” — de difícil diagnóstico por sua complexidade —, mas revelar o que, normalmente, fica oculto nesse tipo de problema, pois, se é uma patologia, é também uma experiência, uma vivência subjetiva, e a doença, “cujos ‘fios vão se soltando aos poucos’, torna-se um modo de vida, um mundo possível, uma linha de fuga e (re)inventa a memória, leva-a a delirar“.

Daniela Feriani é doutora em Antropologia pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp)e pesquisadora do Laboratório Antropológico de Grafia e Imagem (La’grima).

FERIANI, Daniela. Rastros da memória na doença de Alzheimer: entre a invenção e a alucinação. Revista de Antropologia, São Paulo, v. 60, n. 2, p. 532-561, set. 2017. ISSN: 1678-9857. Disponível em: <https://www.revistas.usp.br/ra/article/view/137321/133930>. 27 out. 2017.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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