A “Enciclopédia de Antropologia” que é uma obra em construção

Projeto de alunos e professores da pós-graduação envolve o desafio de apresentar conceitos da área de forma mais acessível

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Da esquerda para a direita, André Bailão, Fernanda Peixoto, Ana Cláudia Marques, Julia Ruiz e Guilherme Meneses, parte da equipe por trás da Enciclopédia de Antropologia – Foto: Raphael Concli

O que se espera de uma enciclopédia? Que seja uma obra de referência a qual forneça um sumário de todos os conhecimentos humanos até o presente, ou ao menos de todos os conhecimentos de uma área. Pelo menos é assim que começam algumas das definições do próprio termo na Wikipédia, talvez a versão mais popular desse tipo de obra atualmente.

Mais do que ser uma obra totalizante sobre sua área, ou aberta para a edição de qualquer pessoa a qualquer momento, a Enciclopédia de Antropologia, obra produzida por diversas mãos do Departamento de Antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, é sobretudo um instrumento didático que promove um raro encontro entre pesquisa, ensino e extensão. A criação de um novo verbete ali importa não só como um registro rigoroso do conhecimento, mas também pelo processo colaborativo envolvido em sua criação.

A ideia surgiu em 2013, em uma disciplina de pós-graduação em antropologia da professora Beatriz Perrone Moisés. Como trabalho final, a docente solicitou que os alunos criassem verbetes de enciclopédia a partir do tema da disciplina. A partir do segundo semestre daquele ano, Fernanda Arêas Peixoto, também docente do Departamento de Antropologia da FFLCH, assumiria a coordenação da pós-graduação desse curso e levaria o projeto adiante. Uma comissão editorial seria criada, agregando docentes e alunos. A professora Marta Amoroso e a doutoranda em antropologia Luísa Valentini estariam entre as primeiras a compô-la com Fernanda.

Por se tratar de um programa de excelência, a pós-graduação em Antropologia Social recebe uma dotação orçamentária especial da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), fundação do Ministério da Educação que, entre outras funções, avalia os programas de pós-graduação do Brasil. Parte dessa verba foi destinada ao projeto da enciclopédia, que viria ao ar em dezembro de 2015. Desde então está em construção permanente. Hoje, até página no Facebook a enciclopédia tem.

O espaço da sala de aula em determinadas disciplinas da pós em antropologia permanece como nascente de novos verbetes. É possível também que estes sejam propostos de fora das aulas, o que não os impede de seguirem o caminho colaborativo de produção.

Detalhe do verbete sobre a obra Bruxaria, Oráculos e Magia entre os Azande – Foto: reprodução

“O processo da produção dos verbetes é quase como uma extensão de uma sala de aula, até que ele finalmente apareça”, afirma Ana Cláudia Marques, mais uma docente do departamento que integrou o projeto e faz parte, com as demais professoras e pós-graduandos, do corpo de editores.  O recebimento de contribuições ocorre duas vezes ao ano, em março e agosto. Ao longo do semestre se dá a discussão e reelaboração dos textos entre autores e comissão editorial.

O projeto gráfico, parte essencial da enciclopédia, seria desenvolvido por André Wigman e Fernando Requena do estúdio Brita, ex-alunos da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. A proposta é de um site claro e limpo, que facilite a experiência do leitor e a conexão entre os verbetes.

As categorias nas quais os textos são incluídos são parte importante da estrutura da enciclopédia. Há entradas sobre “obras”, “autores”, “instituições” e “conceitos”, sendo estes sempre relacionados a um autor. Estão previstos verbetes também nas categorias “subcampos”, para abordar as áreas diferentes da antropologia, e “correntes”, para dar conta das linhas de pensamento da disciplina.

Verbetes que vão e vêm

Marcel Mauss, antropólogo de saber enciclopédico, já é um verbete da Enciclopédia de Antropologia – Foto: Wikimedia Commons

“Nós, alunos, meio que aprendemos a escrever um verbete, que é um gênero diferente do que a gente está acostumado”, afirma Guilherme Meneses, aluno de doutorado em antropologia que acompanha a enciclopédia desde o nascimento dos primeiros verbetes.  

Nestas idas e vindas entre autores e comissão editorial é que o verbete se constrói e que se busca encontrar uma linguagem rigorosa, mas acessível, que evite os jargões complicados ou convenções do texto acadêmico como notas de rodapé e inúmeras citações. A comissão não funciona como um conjunto de pareceristas que aprovam ou recusam um texto, mas sim como um espaço de debate para sua formulação.

“É um exercício difícil de síntese, mas muito útil para o aluno de pós-graduação, porque é algo que está voltado para o público externo. Não só para o público de graduação, mas eventualmente para fora da Universidade”, afirma Júlia Ruiz, pós-doutoranda em antropologia que também integra a comissão editorial da enciclopédia. Ao buscar uma linguagem mais acessível, espera-se também que se abra o diálogo com outras áreas que se interessem pela antropologia, comenta  a pesquisadora.

Neste processo, é também o gênero enciclopédico que está sendo pensado. E a antropologia traz questões próprias a esta produção. Apresentar noções concebidas por um povo que se tornam também categorias analíticas para os antropólogos é um desses desafios, explica a professora Ana. É o caso, por exemplo, do termo “tekoha”, do povo Guarani-Kaiowá, que de modo geral indica a terra ou território, mas também “o lugar onde somos o que somos”. Se a tradução do termo já é delicada, que dirá pensá-lo como verbete.

A língua estranha da universidade

André Bailão, também do doutorado em antropologia, conta dos parágrafos enigmáticos que redigia enquanto preparava o verbete “Paisagem” para o autor Tim Ingold. O desafio de adequar-se a um outro formato de texto, conta Bailão, o fez ler mais e voltar aos conceitos com mais calma.

É bem difícil lapidar um autor ou um conceito com o qual você trabalha na sua pesquisa de forma ampla, longa. Quando não temos limite e podemos usar jargão, citação, e referência infinitamente, se vai longe. A gente é treinado para isso. Isso faz parte do nosso modo de escrever. E a ideia é justamente despir o texto destas infinitas referências. O mais inesperado foi ver que coisas que para mim eram muito simples de ler eram enigmáticas, difíceis de compreender.

Como lembra Fernanda, nesse trabalho com o texto, em que se busca evitar a “língua estranha” aprendida na universidade, busca-se não só valorizar a produção dos alunos, evitando que ela fique nas gavetas dos professores. É sobretudo uma preocupação em comunicar-se com o outro que está em causa.

Mais informações: site http://ea.fflch.usp.br, e-mail encicloantropo@usp.br

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