Pesquisadores da USP reconstroem digitalmente embarcação histórica

Engenharia e História se unem em parceria entre Poli e Museu Paulista pela preservação do patrimônio naval brasileiro

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Canoão digitalizado por completo – Foto: Poli via Flickr

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Uma equipe formada por grupos de pesquisa envolvendo docentes e alunos de graduação do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Escola Politécnica (Poli) e do Museu Paulista (MP) da USP reconstruiu digitalmente uma embarcação, chamada de Canoão, utilizada na navegação fluvial que era praticada no Rio Tietê entre os anos de 1700 e 1800, processo conhecido pelos historiadores como navegação de monções. A reconstrução foi feita a partir da fotogrametria digital (tecnologia que extrai de fotografias formas, medidas e outras informações dos objetos nelas presentes) de uma fração remanescente da embarcação que integra o acervo do museu e que atualmente se encontra em Itu (SP), no Museu Republicano Convenção de Itu, que pertence ao MP .

O projeto é resultado de uma parceria estabelecida entre o professor Bernardo Andrade, do Departamento de Engenharia Naval e Oceânica da Poli, e a professora Maria Aparecida Menezes Borrego, do Departamento de Acervo e Curadoria do MP. Quatro alunos de graduação da Poli, um deles com bolsa concedida pela Associação de Engenheiros Politécnicos (AEP), e seis alunos orientados pela professora Maria Aparecida, três deles com bolsa do Programa Unificado de Bolsas de Estudo para Estudantes de Graduação (PUB) da USP, trabalharam na primeira etapa do projeto. O levantamento fotogramétrico contou com o apoio e colaboração da empresa Vtech Consulting.

Resultados

Com base no levantamento fotogramétrico e nas informações históricas extraídas de relatos, documentos e gravuras, a equipe do projeto determinou as características geométricas, a capacidade de carga, a estabilidade inicial e as características de desempenho hidrodinâmico do Canoão, empregando os conceitos teóricos e práticos da arquitetura naval. (Veja mais fotos do projeto no Flickr da Poli).

Fração remanescente da embarcação que integra o acervo do Museu Paulista – Foto: Poli via Flickr

“Conectamos conhecimentos históricos e de engenharia no projeto, e os alunos estão aprendendo ou recuperando conhecimentos de cálculo, álgebra linear e ótica geométrica para entender como podemos reconstruir objetos tridimensionais a partir de uma foto, que é plana. Os alunos perceberam por que tiveram de aprender tantos conceitos básicos de ciências e engenharia, que agora aparecem como fundamentais por trás de um projeto como esse”, diz o professor Andrade.

“Também estamos dando ao participante do projeto a oportunidade de trabalhar em equipe e de forma multidisciplinar. Ele vai tomar contato com pessoas que pensam de forma diferente e são detentoras de conhecimentos de outras áreas que não a engenharia, compreendendo que é necessário integrá-los para chegar ao resultado final”, completa.

Fillipe Rocha Esteves, do quinto ano da Engenharia Naval, achou interessante poder fazer engenharia reversa usando a fotogrametria. “Também me interessei por trabalhar nesse projeto porque ele integra outras unidades da USP e me permitiu ter contato, trocar experiências com pessoas que pesquisam a história dessas navegações e até assuntos mais específicos, como a madeira, material utilizado para fazer as embarcações”, conclui.

Fração do Canoão digitalizada – Foto: Poli via Flickr

Pedro Henrique Bulla, do quinto ano da Engenharia de Produção da Poli, dá seu testemunho sobre os benefícios. “Foi muito bom para minha formação poder unir diversas áreas do conhecimento, tais como história e o conhecimento técnico da engenharia. O projeto me animou muito para estudos de cálculo, algo que estava me desmotivando na Poli desde o primeiro ano. Faltava enxergar a aplicação de álgebra linear, de cálculo e consegui isso com o projeto”, conta.

Do ponto de vista de um engenheiro de produção, ele pôde observar os processos usados para a fotogrametria e agora está desenvolvendo estudos em metodologia para torná-los mais eficientes. “É possível, por exemplo, cobrir uma maior área do objeto com menor custo, reduzindo as operações em campo e o processamento computacional, que são atividades que elevam o custo do processo de fotogrametria. Isso é algo que queremos aprimorar”, comenta Bulla.

Aprendizado multidisciplinar

A peça do Museu Republicano estava em exposição, mas pouco se sabia sobre as características da embarcação da qual esta fração fazia parte. Ao cursar como optativa livre uma disciplina no Museu Paulista, ministrada pela professora Maria Aparecida de Menezes Borrego, Victor Otozato – aluno do curso de Engenharia Naval da Poli – percebeu a possibilidade de envolver a Engenharia em uma investigação sobre a embarcação histórica que movimentava grandes quantidades de cargas nas chamadas monções, que ocorreram no século 18 entre as regiões dos atuais municípios de Porto Feliz (SP) e Cuiabá (MT), pelo Rio Tietê e bacias do Paraná e do Paraguai.

A partir deste vínculo inicial, o professor Andrade e a professora Maria Aparecida formalizaram um Termo de Cooperação entre estas unidades da USP para o desenvolvimento de um projeto multidisciplinar de caracterização do Canoão a partir da reconstrução digital do mesmo, com base em técnicas de fotogrametria combinadas com as informações e registros históricos a respeito dessas expedições. “O Canoão é um dos veículos de um dos primeiros grandes sistemas logísticos implantados no País”, comenta o professor Andrade.

Gravura do Canoão – Ilustração: Partida de uma monção, de Almeida Júnior

“Era uma peça isolada, sobre a qual precisamos saber mais para entender sua existência dentro de um contexto histórico e social. A pesquisa com a Poli está nos ajudando a entender esse tipo de embarcação, as viagens realizadas e o protagonismo das canoas nas monções”, ressalta Maria Aparecida.

O projeto está sendo um diferencial na formação dos futuros engenheiros da Poli. “Precisamos de profissionais que saibam identificar de forma sistêmica um problema e que possam estabelecer uma estratégia para sua solução, com a competência de enxergar a multidisciplinaridade dos aspectos envolvidos e conectar os diversos campos do conhecimento necessários para sua solução”, diz Andrade.

Continuidade

Para a segunda etapa, o grupo procura estudantes e docentes interessados em integrar a equipe para pesquisar e desenvolver um totem multimídia a ser colocado à disposição dos visitantes do Museu Republicano numa futura exposição. Trabalhar na continuidade do projeto trará várias vantagens aos participantes, como observado em relação aos alunos e alunas que atuaram na primeira fase.

 

“Nesse totem queremos disponibilizar as informações técnicas sobre o Canoão que levantamos na primeira fase da pesquisa, quando nos dedicamos a reconstruir digitalmente toda a embarcação. Também desejamos fazer um tipo de totem no qual as pessoas possam experimentar, como num simulador ou game, a navegação no Canoão pelo Tietê como fizeram, no passado, os navegadores”, contam Bernardo Andrade e Maria Aparecida.

Estudantes que atuem com design de games e programação, por exemplo, têm uma grande oportunidade de colocar em prática seus conhecimentos. Há possibilidade de obtenção de bolsa para fazer a pesquisa. Interessados em trabalhar na continuação do projeto podem entrar em contato com o professor Andrade pelo e-mail beluroan@usp.br.

Da Assessoria de Imprensa da Escola Politécnica

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