O ensino da física moderna a partir da obra de Werner Herzog

Documentário “A caverna dos sonhos esquecidos” foi ponto de partida para apresentar interação entre ciência e arte

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Cena de A Caverna dos sonhos esquecidos, do cineasta Werner Herzog – Foto: Reprodução

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Uma experiência de inovação nas aulas de física do ensino médio é o que Aldo Pereira e Maria Almeida relatam em artigo recém-publicado na revista Comunicação & Educação, apresentando a física moderna, diferentemente da clássica, como disciplina que influencia e sofre influências de outras áreas do conhecimento, como química, biologia, arqueologia, arte. Os autores tratam dessa abordagem interdisciplinar nas aulas do curso de Licenciatura em Física, na disciplina de Práticas do Ensino de Física II, visando ao ensino médio. As informações para esse estudo foram coletadas por gravações em vídeo e pela produção escrita dos licenciandos durante o segundo semestre de 2012 em uma universidade pública do estado de São Paulo.

O cineasta Werner Herzog – Foto: Wikimedia Commons

O documentário A caverna dos sonhos esquecidos, do diretor alemão Werner, cuja intenção é provocar no espectador mais do que a busca pela “verdade científica”, foi o ponto de partida do trabalho dos autores, em que a questão central foi pensar na proposta de uma nova forma de apresentar a Física Moderna com a interação entre ciência e arte. O estudo multidisciplinar do documentário focaliza o método da “datação” do carbono 14 para detectar a idade das pinturas rupestres encontradas na caverna de Chauvet, método esse registrado nesse audiovisual que estimulou “a intenção dos licenciandos em realizar leitura crítica de imagens em movimento e da narrativa contida no documentário utilizado”.

A caverna de Chauvet abriga aproximadamente 400 pinturas em suas paredes, às quais os arqueólogos atribuem a idade de 32.000 anos, uma diferença de 10 mil anos em relação aos primeiros registros. O elemento químico carbono 14 é radioativo e é ele que permite aos arqueólogos verificarem a “datação” das pinturas, pela análise de fragmentos de carvão usados nos desenhos da caverna do homem pré-histórico.
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Imagem de “alta qualidade” ou alta resolução (esq) e imagem de “baixa qualidade” ou baixa resolução (dir) – Foto: Reprodução

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Em resposta às perguntas do professor: “Como vocês acham que os cientistas sabem essas datas? O que a Física tem a ver com isso?”, os alunos encontraram, no filme, conceitos e processos de fenômenos estudados na Física Moderna, já que “as técnicas que determinam a quantidade de carbono 14 também são da área da física”. Contemporaneamente, os autores salientam que, se o homem primitivo se expressava artisticamente desenhando nas paredes das cavernas, hoje o homem contemporâneo se vale da arte do grafite para desenhar nos muros das cidades.

Fotos: Wikimedia Commons

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Por fim, os autores afirmam a necessidade da formação do professor de Física do ensino médio que escape do tradicional discurso autoritário, dando lugar ao discurso polêmico; neste caso, estimulando a leitura crítica das imagens do filme, com discussões de outros tópicos além do carbono 14, visando despertar a curiosidade para pesquisas e “colaborar para um ensino mais democrático”. Essa nova postura desconsidera o “modelo transmissionista, memorístico, conteudista, fragmentado, considerado superado/inadequado para a atualidade”. Nesse contexto, Pereira e Almeida sugerem capacitar os alunos para o exercício do pensamento crítico e da argumentação, “com o objetivo de produzir outras leituras das narrativas audiovisuais”.

Aldo Aoyagui Gomes Pereira é professor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia – campus Piracicaba.

Maria José Monteiro Pereira de Almeida é professora do programa de Pós-graduação em Educação e do Programa Multiunidades em Ensino de Ciências e Matemática na Universidade Estadual de Campinas.

PEREIRA, Aldo Aoyagui Gomes; ALMEIDA, Maria José Monteiro Pereira de. O documentário “A caverna dos sonhos esquecidos: atividades na formação de professores de física”. Comunicação & Educação, São Paulo, v. 22, n. 2, p. 49-63, nov. 2017. ISSN: 2316-9125. DOI: http://dx.doi.org/10.11606/issn.2316-9125.v22i2p49-63. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/comueduc/article/view/131517>. Acesso em: 23 nov. 2017.

Margareth Artur / Portal de Revistas da USP

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