Quem mais caminha e pedala na América Latina são homens jovens

Poucos dados e pesquisas disponíveis dificultam políticas públicas de estímulo ao uso de modos de transporte ativo

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Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Maioria dos estudos disponíveis sobre uso de transporte ativo se refere às grandes cidades do Brasil, Argentina e Colômbia – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Na América Latina e Caribe, faltam dados e pesquisas sobre utilização do transporte ativo, sem uso de veículos a motor, constata pesquisa da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP. A maior parte dos estudos disponíveis se refere às grandes cidades do Brasil, Argentina e Colômbia e aponta uma grande variação no porcentual de pessoas que fazem caminhada ou usam bicicleta, conforme a cidade e o país, embora em geral haja predomínio de homens mais jovens. O trabalho alerta que a ausência de informações prejudica o planejamento de políticas públicas que incentivem a adoção de modos de transporte ativo, os quais trariam benefícios para a saúde pública, para o meio ambiente e até para a prevenção contra o aquecimento global.

O estudo é descrito em artigo da Revista Pan-Americana de Saúde, editada pela Organização Pan-Americana de Saúde (Opas). Além dos deslocamentos a pé ou em bicicleta, o conceito de “transporte ativo” inclui outros trajetos feitos sem uso de veículos motorizados, que são feitos com patins, skates, canoas e caiaques, por exemplo. “O objetivo do artigo foi fazer uma revisão sistemática dos estudos científicos sobre a prática do deslocamento ativo na América Latina, sejam eles publicados ou não”, diz o pesquisador Thiago Hérick de Sá, do Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens) da FSP, que realizou o estudo em parceria com pesquisadores latino-americanos.

O levantamento sobre os estudos que abordam transporte ativo demonstrou que toda a evidência científica existente sobre o tema nos países latino-americanos é sobre caminhada e uso de bicicleta. “Praticamente não há dados a respeito de outros modos de transporte”, ressalta o pesquisador. “Mesmo a informação disponível está concentrada no Brasil, na Colômbia e na Argentina, mais nas grandes cidades do que em áreas urbanas menores ou na zona rural.”

A grande disponibilidade de dados sobre o Brasil se deve à existência da Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel), um sistema informativo do Ministério da Saúde. “O Vigitel é ferramenta fundamental para que o Brasil saia na frente dos outros países com relação à quantidade de informação sobre o transporte ativo. Apesar do grande conjunto de informações reunidas, a maioria desses dados refere-se às capitais de Estados.”

Variação

Dentro da América Latina, há uma grande variação do porcentual de pessoas que fazem caminhada e que usam bicicleta, mesmo entre cidades de um mesmo país. “Essa prevalência populacional pode variar bastante. Quase sempre os homens e os jovens deslocam-se mais ativamente que as mulheres e os mais velhos, respectivamente.” Na Argentina, há informações sobre 13 cidades, cada uma com uma situação diferente. “De um modo geral, na Argentina, as mulheres caminham mais do que os homens, ao contrário do que ocorre no Brasil.”

No Brasil, a média de deslocamento ativo é de 12%, indo dos 5% em Palmas, no Tocantins, aos 59% em Rio Claro. “Essa disparidade também acontece no exterior. No Reino Unido, por exemplo, o porcentual de uso da bicicleta é de 33% em Cambridge e de apenas 2% em Londres”, compara Hérick de Sá. “Quanto ao uso de bicicleta, o maior índice é de Recife, em Pernambuco, com 16%, e o menor é o da cidade de Paraná, na Argentina, com 1,3%. Seja na Argentina ou no Brasil, homens pedalam mais que mulheres”. Hérick de Sá também aponta a grande heterogeneidade nos critérios e pontos de corte usados nos estudos e destaca que “é preciso comparar estas proporções com cautela, e por isso é tão importante termos sistemas de vigilância com um conjunto harmonizado de dados”.
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Bicicleta - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Frequência de caminhadas e uso de bicicleta varia conforme cidade e país, mas homens jovens predominam – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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A pesquisa constatou que não há nenhuma evidência científica sobre transporte ativo em boa parte dos países da América Latina. “Não há informações sobre os países da América Central e Caribe, exceto na Jamaica, e mesmo em várias nações da América do Sul, como a Bolívia, Equador e Venezuela”, destaca o pesquisador do Nupens. “Em resumo, a revisão demonstra que se sabe muito pouco a respeito do estado atual da arte no que diz respeito a deslocamentos a pé ou com bicicleta, entre outros. Isso significa que não há nem o mais elementar para o planejamento de políticas públicas.”

O artigo recomenda que as informações disponíveis sejam utilizadas para planejar políticas que aumentem o número de pessoas que se deslocam ativamente. “Isto não é benéfico só para a saúde da população, mas também para o meio ambiente, além de ser um recurso importante contra o aquecimento global”, observa Hérick de Sá. “Também é preciso pesquisar sobre deslocamento ativo em áreas nas quais faltam informações, como, por exemplo, as cidades pequenas e as áreas rurais do Brasil.”

Mais informações: e-mail thiagoherickdesa@gmail.com, com Thiago Hérick de Sá

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