Novo modelo experimental ajuda a melhor compreender a dor neuropática

Os modelos são animais de laboratório (camundongos) que passam por microcirurgias menos danosas e que respeitam questões éticas

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Dor neuropática do nervo trigêmeo - Foto: Aped
Neuralgia do trigêmeo, que é um nervo facial, provoca dores insuportáveis na região do rosto – Foto: Aped

Cientistas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP desenvolveram um novo modelo experimental que poderá auxiliar na compreensão da dor neuropática, sintoma que atinge cerca de 10% da população mundial. “A dor neuropática ocorre por causa de uma lesão em um nervo do corpo humano. Em muitos casos, mesmo que a lesão tenha terminado, a dor permanece. E isso pode ter diversas causas”, explica o professor Thiago Mattar Cunha, do Departamento de Farmacologia da FMRP.

Entre os tipos de dor neuropática está a neuralgia do nervo trigêmeo — responsável por carregar as mensagens resultantes das sensações do rosto para o cérebro — que provoca dores insuportáveis na região do rosto. Cunha  também cita a dor neuropática diabética, que  é um conjunto de complicações da diabete.

O novo modelo consiste numa microcirurgia na região calcânea de camundongos com uma ligadura no nervo. “Amarramos um fio de nylon em volta do nervo e o animal desenvolve uma hipersensibilidade na região da pata que se assemelha ao quadro de um paciente”, descreve Cunha. Segundo o docente, há diversos modelos caracterizados na literatura que buscam melhor compreender os mecanismos da dor neuropática. No entanto, as intervenções em outros experimentos são muito agressivas, causando lesões intensas nos camundongos.

“Nosso modelo é inédito e muito menos agressivo aos animais, respeitando questões éticas no uso de modelos animais”, afirma o professor.

Tratamento

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Dor neuropática ocorre por causa de lesão em um nervo do corpo humano – Imagem: altervista.org

Os tratamentos da dor neuropática, em geral, se utilizam de fármacos antidepressivos tricíclicos. “Eles têm um efeito muito bom para tratar a doença. Em geral são os de primeira escolha, mas os efeitos colaterais acabam por limitar a terapia”, diz Cunha. Ele informa que há outras classes de fármacos, como os gabapentinoides (gabapentina ou pregabalina). “Mas muitos pacientes não respondem. Há efeitos como a sedação, que prejudicam a vida da pessoa”, adverte.

Com o novo modelo, o professor ressalta que o principal objetivo é, de fato, entender os mecanismos e eventos biológicos por trás da dor neuropática. “Se compreendermos os mecanismos, pode ser que se tenha algo para o desenvolvimento de novos fármacos.” Ainda segundo o pesquisador, foram feitas diversas avaliações com o novo modelo e, em testes com medicamentos antidepressivos, os animais apresentaram boa resposta, de acordo com análises do ponto de vista mecanístico. Trata-se então de um processo cirúrgico mais simples e menos agressivo. “O animal não fica com problemas de comportamento motor”, garante o pesquisador.

Se compreendermos os mecanismos, pode ser que se tenha algo para o desenvolvimento de novos fármacos.

Os cientistas testaram quase uma centena de animais e não houve, segundo Cunha, nenhuma perda. “Tentamos encontrar mecanismos importantes e propor ferramentas e novas moléculas capazes de modular esse alvo para a redução da dor”, conta.

O trabalho que descreve o novo modelo experimental foi publicado na Scientific Reports, do grupo Nature. O artigo Medial plantar nerve ligation as a novel model of neuropathic pain in mice: pharmacological and molecular characterization resultou da pesquisa da fisioterapeuta Morena Brasil Santa Ana, na FMRP, de quem Cunha foi orientador. O estudo é parte de uma linha de pesquisa do Centro de Pesquisas em Doenças Inflamatórias (Crid – Center for Research in Inflammatory Diseases, na sigla em inglês). O Crid é um dos Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepids) apoiados pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e sediado na FMRP.

 

Mais informações: thicunha@fmrp.usp.br

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