Necessidade de dormir varia de acordo com o ambiente externo

Pesquisas da USP divulgadas na “Nature” mostram que a luminosidade e a localização afetam regulação do sono

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As pesquisas indicam que o sono não é algo único que funciona da mesma forma em todas as pessoas, mas sim algo muito flexível do ponto de vista fisiológico – Imagem: Descanso do trabalho, de Van Gogh

Pesquisas realizadas pelo professor Mário Pedrazzoli Neto, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, revelam que as características do sono estão ligadas ao ambiente em que as pessoas vivem. De acordo com os estudos, que foram publicados na semana passada na revista Scientific Reports, do grupo Nature, o sono seria uma resposta do organismo às condições externas do ambiente em que uma determinada pessoa está inserida e não mais uma necessidade inflexível da raça humana.

Após aproximadamente cinco anos de estudo e com a ajuda de outros pesquisadores, o professor da EACH chegou a essa conclusão por meio de duas pesquisas, uma delas realizada em âmbito nacional e a outra em nível internacional.

Latitudes e a exposição à luz solar

Chamado Latitudinal Cline of Chronotypes, o estudo feito no Brasil avaliou 12.884 pessoas localizadas em diferentes regiões do País, ou seja, em diferentes latitudes. O objetivo era testar se a latitude está associada à regulação do ritmo circadiano nos seres humanos. Ritmo circadiano é o termo científico que designa o relógio biológico do homem, sendo influenciado pela variação da luz, temperatura e outros fatores.

“A pesquisa nos mostrou que as pessoas no Norte e Nordeste do Brasil dormem e acordam mais cedo do que as pessoas que vivem no Sul do País em função de como estão expostas à luz do Sol”, explica Pedrazzoli. “O que acontece em Natal, São Paulo e Porto Alegre é um reflexo do que ocorre ao longo do País: quanto maior a exposição à luz solar, mais o homem acorda e dorme mais cedo.”

A pesquisa foi feita com questionário on-line seguindo o padrão Horne-Ostberg, o qual identifica hábitos e preferências matutinas e vespertinas. É a primeira pesquisa realizada dentro de um mesmo país compreendendo grande variedade de latitudes.

Pessoas no Norte e Nordeste do Brasil dormem e acordam mais cedo do que as pessoas que vivem no Sul do País em função de como estão expostas à luz do Sol – Foto: via Visual Hunt

Diferenças entre zona urbana e ambiente rural

Já no cenário internacional, foram analisadas duas cidades de Moçambique, país africano. O estudo aborda como os diferentes modos de vida de moradores da cidade urbanizada Milange e da comunidade rural Tenga afetam as características do sono.

Participaram da pesquisa 74 moradores, 37 de cada local, que foram entrevistados por um aluno da University of Surrey, Inglaterra, o qual foi até Moçambique coletar os dados para a pesquisa.

“Comparando um local mais urbanizado com um ambiente rural, o estudo apontou que o sono varia de acordo com o acesso à energia elétrica e também com o local de dormir, incluindo os tipos de cama, por exemplo”, destaca o professor.

Os moradores de Milange, local urbanizado, deitam-se mais tarde do que os habitantes de Tenga, ambiente rural, devido ao fácil acesso à energia elétrica. Além disso, eles também acordam um pouco mais tarde do que as pessoas de Tenga e possuem uma melhor qualidade de sono por terem camas e quartos mais confortáveis do que no local rural. Já Tenga acorda e dorme mais cedo, possui pior qualidade de sono e fica pouco exposta à luz após o anoitecer. Apesar de apresentar características diferentes de sono, ambas as localidades têm a mesma duração de sono, ou seja, os moradores de Milange e Tenga dormem pela mesma quantidade de horas.

De acordo com Pedrazzoli, pode-se dizer que “esses estudos trazem uma nova perspectiva de se entender o sono como uma resposta fisiológica do organismo às condições ambientais e, portanto, bem flexível do ponto de vista fisiológico e não mais como uma espécie de essência humana inflexível”.

Medidor de sono

A pesquisa Comparison between an African town and a neighbouring village shows delayed, but not decreased, sleep during the early stages of urbanisation utilizou na coleta de dados um aparelho idealizado na EACH, pelo professor Luiz Silveira Menna Barreto e por seus alunos. O actímetro é um instrumento parecido com um relógio que registra a duração de períodos de atividade e repouso e é usado para avaliar a duração do sono. Ele também fornece informações sobre exposição à luz, temperatura do corpo e o quanto a pessoa se mexe durante o sono.

Além do trabalho do professor Pedrazzoli, os estudos tiveram a participação de pesquisadores externos à USP. A pesquisa nacional contou com a participação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Universidade Federal do Paraná, Universidade Federal do Recôncavo da Bahia e Universidade Federal de Pelotas.

O estudo em Moçambique foi realizado com a colaboração de pesquisadores da University of Surrey, Inglaterra; Northwestern University, Estados Unidos; University of Cape Town, África do Sul; Universidade Federal da Fronteira Sul, Paraná, Brasil; e da Universidade Nacional da Colômbia.

Mais informações: imprensa-each@usp.br

Da Assessoria de Imprensa da EACH

Confira: http://bit.ly/2uxcshb

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