Jogos eletrônicos ajudam a melhorar a cognição de idosos

Estudo observou que, após treinamento com jogos, idosos apresentaram melhorias na linguagem, na memória e até no humor

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Estudo comprova que, em todas as faixas etárias, o estímulo é a melhor maneira de reduzir perdas cognitivas – Foto: Eric Romero / PMSCS

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Um grupo composto de gerontólogos formados pela USP observou que a utilização de jogos eletrônicos tem influência positiva na manutenção da capacidade cognitiva em idosos, ou seja, na obtenção de novos conhecimentos e preservação da memória. Entre os resultados encontrados estão a melhora no domínio da linguagem e na memória, a diminuição da ansiedade e o aumento da satisfação com a vida.

A pesquisa foi conduzida em São Caetano do Sul (SP), município conhecido pelo elevado índice de envelhecimento populacional e, que por isso mesmo, tem investido em políticas públicas de promoção à saúde do idoso. Como parte dessas políticas, o município criou, em 2016, a Estação Ativamente, que utiliza jogos eletrônicos para levar atividades à terceira idade. O programa é composto de equipamentos de dança, treinamento de atenção visual e treinamento da memória, além de cursos e oficinas coordenadas por Thiago Ordonez e Felipe Borges, ambos formados na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP.

O estudo foi feito com os participantes do programa. Um total de 124 idosos saudáveis foi dividido em dois grupos: o Grupo de Treinamento, composto de 102 pessoas, e o Grupo Controle, com 22 pessoas. Ambos os grupos participaram dos testes de protocolo, que consistiu em questionário sociodemográfico, exame do estado mental, exame cognitivo, questionário de frequência de esquecimentos e escalas sobre depressão, ansiedade, satisfação com a vida e aprendizado no treinamento.

Perda é vista como a maior característica do envelhecimento, desde a capacidade motora até a memória – Foto: Eric Romero / PMSCS

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Concluídos os testes, apenas o Grupo de Treinamento participou regularmente das atividades envolvendo os jogos eletrônicos. Após essa etapa, que durou quatro meses e meio, ambos os grupos voltaram a realizar os mesmos testes. Os pesquisadores então constataram que quem realizou o treinamento tinha apresentado uma melhora significativa em comparação aos integrantes do grupo  que não participou das atividades.

A principal melhora foi notada no teste de cognição (Exame Cognitivo de Addenbrooke Revisado) e do estado mental  (Mini Exame do Estado Mental), indicando evolução na orientação, atenção, fluência verbal, capacidade visuoespacial, memória e satisfação do grupo que treinou. Também houve diminuição nas queixas relativas à memória e ansiedade.

“Intervenções desta natureza, de acordo com a realização de estudos anteriores, sugerem que a aquisição de novos conhecimentos e o uso de novos estímulos como os jogos eletrônicos podem trazer ganhos à cognição, ao humor e à frequência de queixas de memória”, explica Thiago Ordonez, que também é presidente da Associação Brasileira de Gerontologia.

Segundo ele, a explicação pode estar no trabalho desenvolvido nas oficinas, que oferecem aos idosos espaços para o exercício da criatividade, a construção e reconstrução do conhecimento, o desenvolvimento do pensamento, a capacidade de memorização, instigando a mente a pensar, memorizar, resolver e formular problemas. “Assim, a aprendizagem de novas tecnologias ocasionaria novos conhecimentos, levando ao exercício e manutenção de bom desempenho cognitivo nos idosos”.

A pesquisa foi realizada na cidade de São Caetano do Sul (SP), município com elevado envelhecimento populacional – Foto: Eric Romero / PMSCS

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Além disso, a satisfação por estarem em contato com a tecnologia e pelo desempenho nos jogos melhora a autoestima dos idosos. “Nos motivou também a realizar o estudo a possibilidade de promover a inclusão do idoso no contexto do mundo digital, tendo-se em vista os seus diversos benefícios”, comenta. Ele ressalta, no entanto, que é necessário levar em conta as singularidades de cada idoso, “sua linguagem, sua história de vida, suas alterações cognitivas, emocionais e físicas, entre outras”.

O desejo dos pesquisadores agora é que o programa sirva de modelo para que outros municípios também criem políticas públicas em gerontologia. “As prefeituras poderiam replicar o projeto, seguindo a metodologia descrita no estudo e realizando parceria com os apoiadores do projeto, que possuem os direitos dos equipamentos eletrônicos e as respectivas licenças.”

O pesquisador destaca ainda que promover políticas para o envelhecimento saudável é algo previsto no Estatuto do Idoso. Segundo o documento, todo idoso tem direito a educação, cultura, esporte, lazer, diversões, espetáculos, produtos e serviços que respeitem sua peculiar condição de idade. “É imprescindível investigar as abordagens adequadas para introduzir o idoso na tecnologia de modo a lhe proporcionar bem-estar e promoção de saúde. Especificamente com ações voltadas aos equipamentos informatizados que promovam o entretenimento e a estimulação de suas habilidades mentais”, defende. 

Para pesquisador, municípios brasileiros ainda carecem de ações específicas voltadas para idosos, como o projeto Estação Ativamente – Imagem: Divulgação / PMSCS

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Os resultados do estudo foram publicados na revista 
Dementia & Neuropsychologia, da Associação de Neurologia Cognitiva e do Comportamento, e ele pode ser acessado na plataforma Scielo.

Participaram da pesquisa, Thiago Ordonez, Felipe Borges, Camila Sato Kanashiro e Samara Santos Hora, da EACH; Carolina Carneiro dos Santos, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP), e Thaís Bento Lima-Silva, da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

Mais informações: e-mail tiagordonez@gmail.com, com Thiago Ordonez

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