Dieta com pouco sal na gestação repercute na saúde de descendentes

Experimentos com animais mostram que dieta hipossódica durante a gestação leva descendentes a desenvolverem resistência à insulina no organismo

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Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Foto: Marcos Santos/USP Imagens

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Experimentos realizados com animais mostram que o consumo de uma dieta com baixo conteúdo de sal durante a gestação repercute nos descendentes (prole) na idade adulta, causando resistência à insulina no organismo. A conclusão é de pesquisa de doutorado  realizada no Laboratório de Investigação Médica (LIM-16 Fisiopatologia Renal) da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP). Outros testes, feitos em estudo de mestrado, mostram que a dieta com conteúdo elevado de sal na gestação está vinculada a alterações cardíacas na prole já no primeiro dia após o nascimento. As constatações dos trabalhos precisam ser confirmadas em seres humanos.

Professor Joel Claudio Heimann - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Professor Joel Claudio Heimann – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

As pesquisas foram coordenadas pelo professor Joel C. Heimann, da FMUSP. “Os primeiros trabalhos nesta linha de pesquisa em ratos, realizados pelo aluno de doutorado Alexandre Alves da Silva, demonstraram que a prole de mães alimentadas com a dieta com alto conteúdo de sal (hipersódica) durante a gestação apresentou na idade adulta pressão mais alta e algumas alterações nas funções renais”, aponta. “Um novo experimento apontou que a dieta hipersódica na gestação causa alterações cardíacas na prole um dia após o nascimento”. Este estudo faz parte da pesquisa de mestrado de Priscila Seravalli Calmon Nogueira, descrito em artigo na revista PLOS One.

Em outra pesquisa, realizada pelo aluno de doutorado Armando Vidonho Júnior, verificou-se que a dieta com baixo conteúdo de sal (hipossódica) na gestação provoca nos descendentes resistência à insulina e aumento dos níveis de colesterol e triglicérides no sangue na idade adulta. A resistência acontece quando o funcionamento da insulina no organismo não é satisfatório.

“A insulina leva a glicose que circula na corrente sanguínea para o interior das células, onde é usada na produção de energia”, explica Heinmann. “Quando ela não funciona, a glicose não é levada para as células em quantidade suficiente e, ao permanecer no sangue, provoca síndrome metabólica, que leva à ocorrência de resistência à insulina, obesidade e dislipidemias, que são alterações na quantidade de gordura no sangue.”

Processo epigenético
A pós-doutoranda Maria Angélica Peres pesquisou a transmissão de algumas características dos animais ao longo de três ou mais gerações (transgeracional), que não é causada por alterações nos genes. “A análise dos resultados mostrou que o alto consumo de sal pelas gestantes fez com que a prole expressasse alterações nas funções dos genes dos componentes do sistema renino-angiotensina”, relata. “Esse sistema é responsável pela regulação da pressão arterial e da proliferação celular, entre outras funções.”

Pós-doutoranda Maria Angélica Peres - Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Pós-doutoranda Maria Angélica Peres – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

No caso da alimentação hipersódica, as mudanças aconteceram após três gerações. “Não houve uma mudança no gene, mas uma alteração funcional”, ressalta a pesquisadora. “Isso quer dizer que foi a programação do gene que mudou, fazendo ele funcionar mais, ou então menos. Esse processo de transmissão hereditário é chamado de epigenético.”

Heimann aponta que durante os experimentos, verificou-se que as fêmeas eram mais protegidas contra determinadas alterações do que os machos. “Apenas os machos adultos desenvolveram resistência à insulina”, observa. “A primeira hipótese sobre essa diferença é que ela é de origem hormonal, causada pelo estrógeno, hormônio sexual mais comum no sexo feminino. No entanto, as alterações também foram verificadas no nascimento, quando não há uma grande diferença de hormônios sexuais, um aspecto que requer maiores estudos”, acrescenta Maria Angélica.

O professor lembra que as conclusões das pesquisas não podem ser estendidas aos seres humanos, o que requer estudos específicos, especialmente quanto aos efeitos na gestação. “No entanto, a restrição de sal na dieta já é uma abordagem terapêutica não medicamentosa para tratar a hipertensão arterial, ao lado de medidas como o combate à obesidade e a prática de exercício físico”, destaca. “O sal é muito utilizado como conservante em alimentos industrializados, inclusive em doces, por isso seu consumo é elevado entre a população. Apesar da OMS estabelecer um limite de 5 gramas por dia para os adultos, a média de consumo no Brasil é de 12 gramas diárias.”

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