Cidades compactas podem melhorar qualidade de vida da população urbana

Modelo aplicado nas cidades de São Paulo, Boston, Copenhague, Deli , Londres e Melbourne foi capaz de reduzir doenças crônicas, lesões de trânsito e a poluição do ar

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Foto: Fábio Arantes / Secom
Estudo estimou o efeito de mudanças urbanas na ocorrência de doenças crônicas, lesões de trânsito e nos níveis de poluição do ar – Foto: Fábio Arantes / Secom

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A implantação de um modelo de “cidade compacta” traz benefícios à saúde da população urbana. Testado em seis cidades do mundo, inclusive São Paulo, o modelo promove mudanças no uso do solo, aproximando a moradia dos locais de trabalho, reduz as distâncias percorridas e estimula a utilização do transporte público e ativo (feito a pé ou na bicicleta). O estudo internacional, com a participação da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, mostra que tais alterações podem estimular as atividades físicas e reduzir emissões de poluentes. Com isso, diminui-se também a ocorrência de doenças crônicas não transmissíveis, como as cardiovasculares e respiratórias, e a diabetes tipo 2. O trabalho é descrito em artigo da revista The Lancet.

Além de São Paulo, o modelo foi aplicado nas cidades de Boston (Estados Unidos), Copenhague (Dinamarca), Deli (Índia), Londres (Reino Unido) e Melbourne (Austrália) por estudiosos dos países pesquisados. “A ideia foi avaliar o impacto à saúde da implantação do modelo de cidade compacta. Isso inclui um uso mais diversificado e adensado do solo, distâncias menores e o favorecimento a um sistema de transporte sustentável, menos individual e com utilização de matrizes limpas de energia, conforme as recomendações da ONU”, diz Thiago Hérick de Sá, pós-doutorando da FSP, que participou do trabalho.

Foto: Fábio Arantes/ Secom via Fotos Públicas
Foto: Fábio Arantes/ Secom via Fotos Públicas

Para todas as cidades é proposto um aumento de 30% na diversidade e densidade do uso do solo, e de 10% no número de quilômetros deslocados com o transporte ativo, a pé ou de bicicleta, além da redução de 30% das distâncias de viagem. Além de estimar o efeito das mudanças na carga de doenças, o estudo verifica o impacto na ocorrência de lesões de trânsito e nos níveis de poluição do ar. “Os valores do modelo são compatíveis com o que é adotado em várias cidades do mundo, ou seja, é um cenário factível de ser implantado”, assegura o pesquisador.

Nas cidades analisadas, os resultados foram animadores. “Mesmo sendo cidades com características muito diferentes, houve ganhos em saúde pela redução da poluição do ar e aumento da atividade física em todas elas”, diz Hérick de Sá.

Em São Paulo, o modelo levou a uma redução estimada de 7,5% da carga de doenças cardiovasculares e 5% da carga de diabetes tipo 2, respectivamente.”

Carros em excesso

No caso de São Paulo, como as mudanças não envolvem uma redução drástica no número de veículos, há um risco de maior número de lesões no trânsito. “Com mais gente na rua, um maior número de pedestres e ciclistas estariam vulneráveis. Embora o benefício líquido das mudanças na direção de uma cidade compacta seja muito favorável à saúde, em São Paulo, existe o risco de que ele leve a um aumento no número de mortes e lesões no trânsito”, explica o pesquisador, ressaltando que seria importante a melhora da infraestrutura, o que inclui calçadas e ciclovias segregadas. “Uma separação de apenas 5% das viagens feitas a pé ou de bicicleta já compensaria as perdas causadas pela compactação da cidade, e quanto maior a oferta de infraestrutura adequada para pedestres e ciclistas, menor o número de feridos e mortos”, diz.

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Para estudioso, discussão sobre a redução da velocidade e o controle de emissões veiculares em São Paulo está ultrapassada, já deveria ser ponto pacífico – Foto: Fábio Arantes/ Secom via Fotos Públicas

As sugestões feitas no artigo fazem parte das discussões que serão feitas na 3ª Conferência da ONU sobre Assentamentos Urbanos (Habitat 3), que acontece em Quito, Equador, no mês de outubro. “As propostas vão na direção de intervenções conhecidas na gestão do solo urbano, como a adoção de políticas habitacionais inclusivas, que façam as pessoas morarem mais perto dos locais de trabalho”, destaca Hérick de Sá. “Em São Paulo, por exemplo, é preciso empoderar as subprefeituras, para irem além das funções de zeladoria, de modo que as pessoas não precisem ir à região central para tirar documentos”, sugere. Ele lembra também da necessidade de descentralizar o emprego e também a educação, disponibilizando vagas em creches, escolas e universidades em todos os bairros.

O pesquisador aponta que a atual administração municipal tomou algumas iniciativas no sentido de aproximar São Paulo do cenário de uma cidade compacta. “Entre elas, estão o Plano de Mobilidade Urbana, a revisão do Plano Diretor e a implantação de infraestrutura para o transporte ativo.” Mesmo assim, o pesquisador considera as ações atuais tímidas e lentas. “Há muito a se fazer. A malha cicloviária ainda é irrisória, a política de calçadas precisa mudar urgentemente e inúmeros imóveis no Centro e em bairros valorizados estão vazios, o que vai contra a função social da moradia. Seria preciso fazer a cobrança progressiva do IPTU, que desincentiva o imóvel desocupado.”

Hérick de Sá alerta que disputas políticas atrapalham as mudanças. “Há uma discussão retrógrada sobre a redução da velocidade e o controle de emissões veiculares na cidade, questões que deveriam ser ponto pacífico”, ressalta. “A ação política deve ser mais consciente, comprometida com os interesses da cidade e da saúde dos seus cidadãos, e não apenas com o jogo político em período eleitoral”. O artigo Land use, transport and population health: estimate the benefits os compact cities, faz parte de uma série temática da The Lancet sobre desenho urbano, transporte e saúde.

Mais informações: email thiagodesa@usp.br, com Thiago Hérick de Sá

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