Aids tem tendência de crescimento nas áreas periféricas de São Paulo

Pesquisa descreve a evolução e as tendências da epidemia de Aids até 2012 nos indivíduos com 13 anos ou mais residentes no município de São Paulo

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Foto: Dornicke via Wikimedia Commons
Estudo foi pioneiro em demonstrar quantitativamente a associação da mortalidade e incidência de Aids com os piores indicadores sociodemográficos – Foto: Dornicke via Wikimedia Commons

Em pesquisa realizada na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, a médica Alessandra Cristina Guedes Pellini mapeou o caminho da Aids para compreender sua evolução na cidade de São Paulo, descrevendo o desenrolar e as tendências da epidemia nos indivíduos com 13 anos ou mais, residentes no município, até 2012. Entre outras conclusões, ela verificou que no período avaliado, apesar das quedas das taxas da doença no decorrer dos anos, foi possível enxergar uma tendência de incremento da Aids nas áreas mais periféricas da cidade. O levantamento e sua análise agora poderão ser usados pelas instâncias públicas como base para planejar políticas de saúde.

Passo a passo

Alessandra Pellini - Foto: Faculdade de Saúde Pública
Alessandra Pellini – Foto: Faculdade de Saúde Pública

“Sou especialista em doenças infecciosas e parasitárias, e no meu dia a dia sempre surgem perguntas e curiosidades relacionadas a doenças infecciosas”, conta Alessandra ao relembrar as origens de seu interesse pelo tema. A ideia de estudar a evolução espacial e espaço-temporal da Aids foi baseada em seu trabalho na área de vigilância epidemiológica da Prefeitura de São Paulo. “Ao preparar os dados para o Boletim do Município, que é publicado anualmente, eu comecei a ficar interessada em dar respostas a questões que não conseguíamos explorar na rotina da vigilância, pois exigiam o conhecimento de outras ferramentas de análises”, conta a especialista.

O trabalho defende a compreensão a epidemia em múltiplas dimensões – biológica, social, cultural, política, econômica e geográfica, o que exige uma abordagem em diversas áreas do conhecimento para o seu real enfrentamento. Durante seu doutorado, a epidemiologista teve a possibilidade de se capacitar no uso das técnicas de geoprocessamento e análise espacial, para então aplicá-las no estudo.

Alessandra iniciou o estudo a partir da geocodificação dos casos baseada nos endereços de moradia. “Esse foi o método utilizado para se conhecer a localização dos sujeitos de nossa pesquisa, ou seja, todos os pacientes notificados com Aids desde 1980, quando surgiu o primeiro caso no município de São Paulo, até junho de 2012”, destaca ela ao esclarecer que o endereço de moradia do paciente é informado ao sistema de vigilância quando ocorre a notificação do caso, e este endereço foi a base para a geolocalização, feita por meio de ferramentas de Sistemas de Informação Geográfica (SIG).

“Esse é um processo trabalhoso e complexo, realizado em várias etapas, e que demandou bastante tempo e pessoal especializado”, relembra a médica ao reafirmar que a tese foi pioneira em estabelecer um passo a passo para o processamento das etapas da geocodificação e garantir a qualidade das informações por meio da utilização de diferentes bases de endereços e a conferência de pontos por amostragem.

Apesar de ter se baseado em endereços registrados, a especialista garante o sigilo em relação à identificação dos pacientes que fizeram parte da pesquisa.

Mortalidade e recursos

Pesquisadora defende a compreensão a epidemia em múltiplas dimensões – Foto: Alexandre Carvalho/ A2 Fotografia via Fotos Públicas

Uma análise do crescimento da Aids mostrou que, no decorrer do período analisado, as áreas internas dos aglomerados da periferia da cidade tiveram um incremento percentual das taxas de Aids maior do que as áreas de fora dos aglomerados. “Mas isso não significa que, de forma global, a doença tenha sido mais importante na periferia”, esclarece ela ao destacar que, com exceção do extremo Sul, todas as regiões da cidade foram acometidas em algum momento. “Acredito que as questões relacionadas à estrutura de saúde do município de São Paulo podem impactar em como as pessoas que vivem com o HIV/Aids convivem com a doença, sobretudo no que concerne ao acesso aos diferentes recursos – assistenciais, informação, entre outros – para mantê-la sob controle”, explica a epidemiologista.

Sobre a relação entre a incidência e a mortalidade com indicadores sociodemográficos coletados no Censo Demográfico do IBGE de 2010, Alessandra conta que, por meio de uma análise denominada “modelagem por regressão linear múltipla”, foi possível estudar a associação de vários fatores simultaneamente, além de conhecer o grau de influência de cada um deles nas taxas de incidência e de mortalidade por Aids.

Embora já se suspeitasse dessa associação da mortalidade e incidência de Aids com os piores indicadores sociodemográficos, o estudo foi pioneiro em demonstrar isso de uma forma quantitativa e que comprovou tal associação. “Por exemplo, a baixa ‘proporção de domicílios particulares permanentes próprios e quitados ou em aquisição’ e a maior ‘proporção de domicílios coletivos’ foram indicadores associados à maior mortalidade por aids no município de São Paulo”, esclarece a médica.

Políticas para o futuro

Desde sua descoberta, na década de 1980, a Síndrome da Imunodeficiência Adquirida, conhecida como Aids, tomou boa parte das atenções da comunidade médica internacional. Causada pelo vírus HIV, que ataca as células de defesa do corpo deixando-o mais vulnerável a diversas doenças, a Aids recentemente deixou de ser uma sentença fatal graças aos avanços expressivos em seu tratamento – mas ainda é considerada grave. De acordo com dados divulgados pelo Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, desde o início da epidemia na década de 1980 até junho de 2012, o Brasil tem 656.701 casos registrados.

No que diz respeito à formulação de políticas públicas para o tratamento, prevenção e controle da Aids, Alessandra reitera que no município de São Paulo, assim como em todo o Brasil, tais iniciativas “resultaram em uma queda global da incidência de Aids, principalmente a partir de 1996, quando foi iniciada a distribuição gratuita da terapia antirretroviral, pois os indivíduos infectados pelo HIV em tratamento passaram a ter cargas virais mais baixas, com consequente redução da transmissão do vírus”.

Além disso, para a especialista, a introdução do teste rápido para o diagnóstico do HIV no município de São Paulo tem favorecido a identificação mais precoce dos indivíduos infectados, ampliando assim suas chances de tratamento, o que também vem contribuindo para a diminuição da incidência da doença.

Com base nos achados do estudo, foi possível fornecer informações aos órgãos governamentais que são os responsáveis pelo monitoramento e o controle da doença. “Com essas informações em mãos, é possível ter um olhar diferenciado para as localidades em que a doença está se concentrando, onde a população apresenta maior risco de adoecer ou morrer em função do HIV/Aids, direcionando ações e políticas específicas para os grupos de maior risco acometidos”, conclui.

A tese de doutorado Evolução da epidemia de Aids no município de São Paulo – 1980 a 2012: uma análise espacial com múltiplas abordagens foi orientada pela professora Dirce Maria Trevisan Zanetta e co-orientada pelo professor Francisco Chiaravalloti Neto, ambos docentes do Departamento de Epidemiologia da FSP.

Mais informações: email acgpellini@gmail.com, com Alessandra Cristina Guedes Pellini

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