Para se proteger, vírus zika é capaz de modular inflamação no cérebro

Segundo cientista, essa modulação mantém a célula viva, e isso é bom para o vírus, que não quer matar o seu hospedeiro porque ele também sairia perdendo

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Micrografia eletrônica do vírus Zika, em azul - Foto: Wikimedia Commons
Micrografia eletrônica do vírus zika, em azul. Para especialista o vírus está se adaptando e, no futuro, pode ser que cause problemas também em adultos – Foto: Wikimedia Commons

Ao analisar o cérebro de camundongos recém-nascidos, expostos ao zika durante a gestação, pesquisadores da USP observaram que o vírus é capaz de modular a resposta imunológica no sistema nervoso central do hospedeiro, de modo a impedir uma inflamação exacerbada que lhe seria prejudicial.

Dados preliminares da pesquisa, apoiada pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), foram apresentados no dia 1º de setembro, por Jean Pierre Peron, professor do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, durante a 31ª Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), em Foz do Iguaçu, no Paraná.

“Não há encefalite e não há um infiltrado de células de defesa no local, nem macrófagos nem linfócitos. Parece que o vírus consegue modular a inflamação no local. As lesões cerebrais estariam mais relacionadas a um estrago direto causado pelo vírus nas células”, disse Peron.

O pesquisador integra a Rede Zika e também o grupo de autores que publicou em maio, na revista Nature, a evidência definitiva de que a infecção por zika durante a gestação pode causar má-formação cerebral congênita no feto (leia mais na Agência Fapesp).

No trabalho anterior, o grupo infectou fêmeas de camundongo entre o 10º e o 12º dia de gestação e mostrou que o vírus zika é capaz de atravessar a barreira placentária, infectar e matar as células que dariam origem ao cérebro dos filhotes. Além da má-formação cerebral, os animais também nasceram menores.

“Após essa publicação os estudos continuaram. Analisamos a expressão de todos os genes no cérebro dos roedores recém-nascidos para ver o que estava aumentado e diminuído em comparação ao grupo controle. E os resultados mostraram que a expressão de citocinas inflamatórias, de modo geral, estava diminuída”, contou Peron.

Curiosamente, não estava diminuída a expressão de interferon-beta (INFß), uma citocina capaz de se ligar à célula infectada e ativar uma via de sinalização que leva à morte celular.

“Já se sabe que a produção de citocinas do tipo interferon alfa e beta é importante para eliminar o vírus do organismo de forma eficaz. Acreditamos que é por produzir grandes quantidades dessas moléculas que a linhagem de camundongos C57BL/6 se mostrou resistente ao zika no trabalho anterior e seus filhotes não desenvolveram má-formação cerebral congênita”, disse Peron.

Segundo o pesquisador, uma das possibilidades é que o vírus seja capaz de produzir alguma molécula que atrapalha a sinalização feita pela INFß ao núcleo celular.

“Dessa forma, a célula não morre e isso é bom para o vírus. Ele não quer matar o hospedeiro porque ele também vai sair perdendo. Mas tudo isso ainda precisa ser mais bem compreendido”, disse Peron.

Em sua apresentação, o professor da USP também comentou alguns trabalhos recentes publicados por outros grupos. Um deles mostrou que o vírus zika é capaz de sobreviver por até seis meses no sêmen humano. Em outra pesquisa publicada em agosto na revista Cell, foi demonstrado por meio de experimentos com fêmeas de camundongo prenhes que, ao ser inoculado na vagina, o zika é capaz de se replicar, atravessar a placenta e causar danos ao feto em formação.

“Quanto mais cedo ocorre a infecção, maiores as taxas de aborto e reabsorção fetal. Isso mostra que o vetor (mosquitos do gênero Aedes) não deve ser a única preocupação. A transmissão sexual durante a gestação oferece risco”, avaliou Peron.

A pesquisadora da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP Patricia Beltrão-Braga, que é coautora do artigo publicado na Nature e também participou do simpósio sobre zika realizado durante a FeSBE, contou que vem testando em culturas de células progenitoras neurais humanas o efeito de diversas drogas já disponíveis no mercado. O objetivo é buscar alguma substância capaz de impedir a replicação viral ou a entrada do vírus nas células. “Aquelas que mostrarem bons resultados vamos testar no modelo animal”, disse.

Também participou da mesa o pesquisador da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Maurício Maia, que apresentou estudos sobre os danos oculares induzidos pela infecção por zika durante a gestação. “Infelizmente demonstramos que mesmo crianças nascidas sem microcefalia podem apresentar lesões cerebrais e oculares”, disse (leia mais na Agência Fapesp).

O simpósio contou ainda com a presença do pesquisador da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Gubio Soares Campos, o primeiro a descrever um caso de infecção por zika no Brasil. Dados apresentados pelo virologista sugerem que circula em Salvador (BA) uma linhagem específica do zika, que apresenta pequenas diferenças genéticas em relação ao vírus isolado em outros Estados.

Segundo Campos, as diferenças observadas não alteram as características da doença, mas devem ser observadas em estudos voltados ao desenvolvimento de vacinas.

“Esse vírus está se adaptando e, no futuro, pode ser que venha a causar problemas também em adultos, como meningite”, opinou.

Karina Toledo/Agência Fapesp

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