Nova espécie de aranha recebe o nome de professores da USP

A “Dolichothele camargorum” é uma homenagem a Erney Felício Plessmann de Camargo e a Luis Marcelo Aranha Camargo

Dolichothele camargorum femea – Foto: Divulgação / Rogério Bertani via Tarantupedia

Uma nova espécie de aranha-caranguejeira (tarântula) recebeu o nome de Dolichothele camargorum em homenagem aos professores Erney Felício Plessmann de Camargo e Luis Marcelo Aranha Camargo, do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. A nova espécie foi descoberta pelos pesquisadores Rogério Bertani e Pedro Ismael da Silva Júnior, do Instituto Butantan, e Irene Soliz Revollo, da Universidade Estadual Paulista (Unesp). Os cientistas também descobriram uma outra espécie, a Dolichothele mottai, que presta homenagem ao pesquisador Paulo César Motta, da Universidade de Brasília (UnB). O artigo Two new Dolichothele Mello-Leitão, 1923 species from Brazil and Bolivia (Araneae, Theraphosidae) descreve as espécies e foi publicado na revista científica ZooKeys no último mês de dezembro.

Dolichothele camargorum macho – Foto: Divulgação / Rogério Bertani via Tarantupedia

No artigo, os autores destacam que a homenagem se deve aos esforços dos professores da USP para desenvolver pesquisas médicas e biológicas no estado de Rondônia, além do incentivo ao trabalho de campo na qual as espécies foram coletadas.

“Antes de tudo, sinto-me grato pela lembrança dos colegas. Já os agradeci. É sempre gratificante que colegas reconheçam e expressem seu respeito por sua carreira científica. No caso específico foi muito bom compartilhar a homenagem com o Luis Marcelo, meu filho, daí o plural camargorum. Também já nomeei espécies em homenagem a colegas que respeito profissionalmente. Faz parte do lado bom da profissão de cientista”, afirma o professor Erney Camargo.

Dolichothele mottai femea – Foto: Divulgação / Rogério Bertani via Tarantupedia

Essa não foi a primeira vez que ele recebeu esse tipo de homenagem. Dois protozoários receberam o nome do professor e foram batizados de Trypanosoma erneyi e Herpetomonas samulepessoai camargoi, este último também em homenagem ao parasitologista Samuel Barnsley Pessoa (1898 – 1976), docente da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP).

A USP em Rondônia como base de apoio

Luís Marcelo Aranha Camargo na sede do ICB5, em Monte Negro, Rondonia, em janeiro de 2016 – Foto: Cecilía Bastos/USP Imagens

Para o professor Luis Marcelo Camargo, a homenagem é uma grande honra que demostra a generosidade dos pesquisadores. “Foi meu melhor presente de Natal. Finalmente representa o reconhecimento, por um renomado grupo de pesquisadores, do modesto trabalho que realizamos neste sertão amazônico”, relata o professor que desde 1997 mora em Monte Negro, em Rondônia, onde coordena o ICB5, um posto permanente de ensino, pesquisa e extensão que a Universidade mantêm no município. “Este achado também reforça a importância do ICB e da USP manterem um NAP na Amazônia”, destaca o docente, em uma referência a um dos Núcleos de Apoio à Pesquisa (NAP) da USP.  Segundo o professor, o apoio logístico dos pesquisadores, como alojamento, transporte e uso de laboratórios, foi realizado via ICB5, em uma cooperação entre o Instituto Butantan e a USP.

O professor recorda que anteriormente já havia sido feita uma outra homenagem ao ICB5 quando um novo barbeiro descrito na Amazônia foi denominado de Rhodnius montenegrensis por colegas da Superintendência de Controle de Endemias (SUCEN). “Muitas vezes nosso trabalho é depreciado, pois é um trabalho simples, porém, gera muita informação e novas perguntas. Estamos desbravando parte da Amazônia. Nos últimos 4 anos, em conjunto com pesquisadores de outras instituições, descrevemos 3 novas espécies de carrapatos, 2 flebotomíneos novos (mosquitos transmissores da leishmaniose tegumentar) e 1 barbeiro novo (transmissor da doença de Chagas). Tudo está por fazer. Por aqui há pouco dinheiro e não há experiência em pesquisa.”

O pesquisador Pedro Ismael da Silva Júnior em trabalho de campo em Rondônia (coleta de aranhas e escorpiões) em 2007

A nova espécie de aranha-caranguejeira

Ricardo Bertani explica que a Dolichothele descrita no artigo é uma nova espécie de aranha-caranguejeira, também chamada de tarântula. “Trabalhos anteriores indicavam que havia uma única espécie distribuída por toda a área de cerrado desde o Distrito Federal (DF) em direção ao oeste do Brasil e Bolívia. Nesse trabalho de revisão, concluímos que essa única espécie na verdade são três. Descrevemos uma nova espécie no DF e no estado de Goiás que homenageia o professor Paulo Motta, da UnB. A segunda espécie é a que foi descrita de Rondônia e homenageia os professores Erney e Luis Marcelo”, conta o pesquisador.

“O professor Erney, quando diretor do Instituto Butantan, organizou um curso de pós-graduação no ICB5 onde eu participei, junto com o coautor do trabalho, o pesquisador Pedro Ismael da Silva Júnior, ministrando aulas sobre aracnídeos de interesse médico. Lá conhecemos o professor Luis Marcelo e, após esse contato, decidimos trabalhar na região”, relata.

Rogério Bertani em trabalho de Campo, Candeias do Jamari, Rondônia, 2008

“Tivemos muito apoio do professor Luís Marcelo e de sua equipe em nossas expedições. Conhecemos de perto o trabalho que eles desenvolvem com a população local, principalmente a população ribeirinha que está distante dos grandes centros e tem grande dificuldade de atendimento médico. Portanto, quando identificamos uma espécie nova em uma pesquisa de mestrado orientado por mim e desenvolvido pela então mestranda Irene Soliz Revollo, achamos justo que os professores fossem homenageados pelo trabalho na região e incentivo ao desenvolvimento de pesquisas em Rondônia”, explica Bertani.

Os pesquisadores Pedro Ismael (esquerda) e Rogério Bertani (direita) com o professor Erney (centro) durante evento no Instituto Butantan (2005)

Para Luis Marcelo, a descrição de uma nova espécie de aranha (ou outro artrópode qualquer) não interessa muito às revistas ou pesquisadores internacionais, nem aos nacionais. “Não da ‘ibope’. Neste sentido, esta homenagem é muito valorizada e nos consola. Ficamos cientes que estamos fazendo algo importante e que acrescenta, mesmo que modestamente, algo à ciência. Fica a gratidão pelo incentivo dos colegas do Butantan.”

Mais informações: e-mail spider@icbusp.org, com Luis Marcelo Camargo; erney@usp.br, com Erney Camargo; e rogerio.bertani@butantan.gov.br, com Rogério Bertani

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