Feiras livres renascem e remodelam relações, aponta pesquisa

Estudo sugere que esses mercados estão em alta por permitirem uma troca única de informações entre produtor e consumidor

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Pesquisa na região de Piracicaba observa um renascimento das feiras, seja por um fortalecimento da importância das já existentes ou pela criação de novas – Foto: Domingos Leonelli via Flickr – CC

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A busca por uma melhor qualidade de vida passa necessariamente por mudanças de hábitos alimentares. O comportamento do consumidor em termos de suas escolhas de compra, preparo e manutenção de dietas saudáveis pode desempenhar um papel considerável para a realização de esforços dos produtores com vistas a uma produção mais atenta à saúde e ao meio ambiente, em particular com relações de maior proximidade, o que favorece uma oferta moldada constantemente ao gosto do freguês. As concepções de qualidade dos alimentos, mais especificamente no âmbito das feiras dos produtores (também denominadas mercados de proximidade), são o tema de uma pesquisa de mestrado realizada no Programa de Pós-Graduação Interunidades (Esalq/Cena) em Ecologia Aplicada, no campus da USP em Piracicaba. Um dos principais resultados encontrados foi o renascimento das feiras.

“Esse estudo teve como referência uma mudança recente no setor agroalimentar, identificada principalmente entre países europeus, de uma virada para a qualidade, o quality turn, que expressa uma crítica estética oposta à padronização do consumo. Trata-se de uma mudança fundada em princípio ecológico que se desenha contra os impactos gerados pela Revolução Verde [disseminação de novas práticas agrícolas que trouxeram grandes aumentos na produtividade]”, comenta a cientista de alimentos Manuela Silva Silveira, autora do estudo.

Com orientação do professor Paulo Eduardo Moruzzi Marques, Manuela analisou dois estudos de caso de mercados de proximidade, identificando como estão organizados e quais são os valores de qualidade dos alimentos neles atribuídos. “Com o mesmo intuito, analisamos as normas jurídicas que incidem sobre os dois casos, a partir do Sistema de Inspeção Municipal (SIM).”

Trabalho reforça o processo de reconexão entre pessoas, produto e lugar – Foto: Paulo José Silva Ferraz via Flickr – CC

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A pesquisa observa um renascimento das feiras, seja por um fortalecimento da importância daquelas já existentes ou pela criação de novas na região da aglomeração urbana de Piracicaba.

“Os mercados de proximidade estudados, no caso as feiras de produtores de São Pedro e Rio Claro, representam espaços que permitem a construção de novas concepções em relação à qualidade dos alimentos.”

Segundo Manuela, a relação de venda direta, com o contato entre produtor e consumidor, é o elemento-chave para a construção desses novos referenciais, que se pautam principalmente numa relação de reciprocidade. “Assim, para além da troca econômica, esses mercados tendem a associar uma troca material a uma relação humana específica. Essa relação direta evidencia ao consumidor as múltiplas variáveis contidas na produção de alimentos, permitindo que este ator realize seu próprio processo de qualificação, a partir de sua formação e informações inferidas dessa troca.”

Através da proximidade com os consumidores, o produtor consegue transmitir informações sobre seu produto, exaltando seu modo de fazer, as dificuldades encontradas e superadas ou as características de sua terra. “No caso de São Pedro, encontramos uma ‘qualidade localizada’, onde a produção local, o conhecimento dos modos de fazer tradicionais, as receitas típicas e utilização de variedades nativas caracterizam a qualidade dos alimentos ofertados.”

De acordo com o estudo, trata-se de uma qualidade com grande base em convenções domésticas e ecológicas, na qual se misturam o cuidar da terra com a relação familiar. “Em Rio Claro, município com um perfil menos rural, ocorre um renascimento da produção local, tanto com produtores que sempre estiveram no setor quanto com ‘novos agricultores’. A qualidade encontrada ali é aquela de tipo especializada.” Neste caso, salienta Manuela, nota-se a diferenciação e valoração a partir da obtenção de selos de certificação, seja pelo Sistema de Inspeção Municipal, o qual certifica a produção artesanal, seja pela certificação da produção orgânica. “Assim, a qualidade do alimento processado é garantida pela especialização dos produtos assegurada pelo SIM, implementado no município.”

Com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), o trabalho reforça o processo de reconexão entre pessoas, produto e lugar, dinâmica apontada como peça-chave nos mercados de proximidade. “Assim conseguimos revelar o significado dessas iniciativas em seus contextos, que estabelecem novos paradigmas para a alimentação e para a relação entre ser humano, natureza, alimentos e mercados.”

Caio Albuquerque / Comunicação Esalq

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