Adequar regime de irrigação eleva produtividade do arroz

Alternativa que economiza água e fertilizantes pode contribuir para o fortalecimento da fronteira agrícola no norte do Brasil

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Resultados de pesquisa trazem a promessa de fortalecer a recente fronteira agrícola do Araguaia e elevar de forma substancial os níveis de produtividade da cultura de arroz, inclusive em regiões com atributos de solos semelhantes – Foto: Divulgação / Cristiano Juliani

O vale do Rio Araguaia, no Estado do Tocantins, teve seu potencial recém-despertado para a produção de arroz. Contudo, os agricultores pioneiros trouxeram uma bagagem técnico-cultural do cultivo que foi desenvolvido do outro lado do País, no Rio Grande Sul.

Segundo o engenheiro agrônomo André Borja Reis, apesar do mérito de viabilizar um sistema de produção em área de fronteira agrícola, os produtores daquela região também passaram a enfrentar o conflito para o uso da água, conforme crescia a área plantada. Essa foi a motivação para que Reis estudasse o solo e diferentes manejos de irrigação nas planícies do vale do Araguaia, que ficam inundadas durante as cheias, a chamada várzea.

Para dar o pontapé nos estudos, o pesquisador procurou responder questionamentos que sugeriam o rompimento de um paradigma: a irrigação utilizando inundação contínua é mesmo necessária na condição de várzea tropical? Como um regime alternativo de irrigação, e que economizasse água, impactaria a produtividade do arroz? “Era o momento de a pesquisa agronômica dar sua contribuição e responder uma questão de ordem prática com a devida fundamentação científica”, afirma.

Comparando regimes de irrigação

De acordo com o agrônomo, o manejo por inundação contínua é amplamente difundido em regiões tradicionais de cultivo de arroz, como o Rio Grande do Sul, Ásia e Estados Unidos. “Esse manejo proporciona pleno atendimento da demanda hídrica das plantas, além de favorecer a absorção de nutrientes.” O gasto de água, entretanto, é relativamente elevado.

O regime de irrigação com o solo insaturado apresentou-se como o mais adequado para a região – Foto: André Reis

Assim, para propor um manejo alternativo seria necessário entender os motivos pelos quais a relação solo-água-planta seria diferente naquele ambiente de várzea tropical, e como a ausência de lâmina de água contínua impactaria a absorção de nutrientes, em particular o nitrogênio, que é o mais requerido pela cultura de arroz.

Para responder a essas questões, Reis analisou por três anos os resultados de um experimento de campo no município de Lagoa da Confusão (TO), cerca de 200 km a sudoeste de Palmas (TO). Cinco regimes de irrigação foram testados: a tradicional lâmina contínua; duas combinações de alternância entre inundação e drenagem em diferentes ciclos; solo saturado (quando todos os seus poros estão preenchidos com água) sem a formação de lâmina sobre a superfície; e solo insaturado com teor de umidade próximo à capacidade de campo, que é a quantidade de água retida pelo solo após a drenagem ter ocorrido.

Em todos os regimes foram aplicadas doses de nitrogênio para determinar se o manejo de irrigação seria capaz de interferir na produtividade da cultura. “Foi ainda utilizada ureia enriquecida com o isótopo 15 N (variante do elemento químico nitrogênio) para investigar o destino do nitrogênio proveniente do fertilizante”, detalha o autor do trabalho.

Resultados

  • Menos água

O estudo mostrou que os solos da região apresentam características hidráulicas que permitem maior movimentação de água e, portanto, as plantas acessam facilmente a água necessária às suas funções fisiológicas mesmo em condição insaturada. Assim, estava quebrado o paradigma da várzea inundada. “Os solos da várzea tropical apresentam pronunciada macroporosidade. Suas características permitem condutividade hidráulica até 10 mil vezes maior que solos das regiões tradicionais de cultivo.”

Desta forma, ficou evidente a menor necessidade de aplicação de água por irrigação – o que, por consequência, diminui a a perda por lixiviação e evaporação direta da lâmina de água. “Nas três safras foram economizadas até 50% ao ano de água, quando comparamos ao manejo tradicional de lâmina contínua”, comemora o autor.

Menos perda de nitrogênio

As avaliações de balanço de nitrogênio trouxeram outros aspectos importantes, mostrando como o regime de irrigação impacta nos processos de transformação do nutriente. O excesso de água, independente do manejo, favorece perdas, seja por desnitrificação (eliminação de nitrogênio na forma gasosa por bactérias do solo), seja por lixiviação (espécie de “lavagem” de sais minerais e substâncias presentes no solo).

O regime de irrigação com o solo insaturado apresentou-se como o mais adequado para a região. “A recuperação do nitrogênio do fertilizante foi 25% maior nesse regime, o que indica uma relevante diminuição das perdas desse nutriente”, conta o agrônomo. Tal eficiência do aproveitamento torna os resultados ainda mais favoráveis, pois perdas de nitrogênio são nocivas ao ambiente.

Produtividade

A economia de água sem restringir o crescimento das plantas e a maior recuperação de nitrogênio permitiram que o arroz tivesse melhor desempenho. “Nos três anos a produtividade foi de 5% a 15% maior no tratamento com o solo insaturado em comparação ao de lâmina contínua e, ainda, com diminuição da dose de fertilizante”, complementa.

Assim, os resultados demonstraram que é possível repensar o manejo de irrigação de arroz em planícies de inundação, e que a tecnologia de manejo deve ser desenvolvida com base nos atributos dos solos da região, ao invés de incorporar recomendações de outros agroecossistemas. “A economia de água a partir do regime de irrigação com o solo insaturado permitirá ampliar a área plantada e produzir mais arroz com menos recursos hídricos, fertilizantes, e o aumento da rentabilidade da atividade agrícola”, diz Reis. Para ele, também é vocação da pesquisa pública no Brasil estar atenta aos desafios técnicos que a agricultura enfrenta.

A tese de doutorado teve orientação do professor José Laércio Favarin, do Departamento de Produção Vegetal, e foi recentemente defendida no Programa de Pós-Graduação em Fitotecnia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) USP.

O trabalho contou com apoio da Fazenda Dois Rios, que cedeu a área e ajudou na condução do experimento; do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por meio de bolsa de estudos; da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), com aportes estruturais ao Laboratório Multiusuário de Produção Vegetal; e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), com auxílio na etapa de doutorado sanduíche, realizado nos EUA.

Caio Albuquerque/Divisão de Comunicação Esalq, com edição do Jornal da USP

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