Baleias e golfinhos do Litoral Norte de SP são identificados pelos sons que emitem

Gravador de sons submarinos capta as emissões sonoras de mamíferos aquáticos e permite levantar espécies existentes na região

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Golfinho nariz-de-garrafa emite assobios curtos, um som extremamente agudo. Ouça o áudio gravado pelo pesquisador - Foto: Acervo LABCMA
Golfinho nariz-de-garrafa emite assobios curtos, um som extremamente agudo (ouça abaixo) – Foto: Acervo LABCMA

“O mar nunca é silencioso, todos os animais produzem sons, é uma verdadeira sinfonia subaquática. A ação do homem está silenciando o mar, e se não há som, não há vida.” É dessa forma que o doutorando Diogo Destro Barcellos, do Instituto Oceanográfico (IO) da USP, resume a pesquisa sobre monitoramento acústico de cetáceos (baleias e golfinhos) pela acústica marinha que realiza no Litoral Norte de São Paulo.  Junto com os pesquisadores do Laboratório de Biologia da Conservação de Mamíferos Aquáticos (LABCMA) ele capta os sons emitidos pelos animais por meio de um gravador de sons submarinos para identificar quais espécies estão presentes nas águas da região. O levantamento, além de avaliar a interferência do tráfego de embarcações no comportamento dos mamíferos aquáticos, também auxilia a realização de ações de preservação.

 

Ouça o golfinho nariz-de-garrafa (áudio)

 

O trabalho, coordenado pelo professor Marcos César de Oliveira Santos, é realizado no canal de São Sebastião, próximo ao porto da cidade, e na Ilha Anchieta, em Ubatuba, e utiliza a técnica de monitoramento acústico passivo. “Antes, os estudos dependiam do acompanhamento de grupos de baleias e golfinhos com embarcações de pesquisa ou alugadas”, diz o pesquisador. “A partir do contato com pescadores e comandantes de embarcações era levantada a posição geográfica dos cetáceos, além do estudo genético das espécies e a fotoidentificação.”

Sons se propagam no mar numa velocidade quatro vezes maior do que no ar - Foto: Acervo LABCMA
Sons se propagam no mar numa velocidade quatro vezes maior do que no ar – Foto: Acervo LABCMA

O equipamento usado na pesquisa, trazido para o Brasil pelo professor do IO em 2012, é produzido pela Loggerhead Instruments, em São Petersburgo, na Flórida (Estados Unidos). Denominado DSG (sigla em inglês para “gravador autônomo de sons submarinos”), ele pode captar emissões acústicas de baleias e golfinhos, mesmo em condições de mar ruins ou na ausência de luz à noite. “Composto de uma placa eletrônica com cartão de memória, baterias e um hidrofone, ele é colocado em uma boia de sinalização e lançado por um cabo vertical a uma profundidade equivalente à metade da coluna de água do mar”, relata o doutorando do IO. “O hidrofone é um sensor, similar a um microfone, que capta as variações de energia acústica no ambiente aquático e as registra no cartão de memória. Assim, é possível captar as emissões sonoras dos animais em todas as direções, aproveitando que o som se propaga na água quatro vezes mais rápido do que no ar.”

Os estudos apontam que as espécies de grandes baleias, ou misticetos, mais comuns no litoral norte paulista são a baleia-jubarte e a baleia-de-bryde. “Elas possuem placas de barbatanas e dois orifícios respiratórios. Para se comunicarem, emitem sons mais graves, que alcançam longas distâncias, na forma de chamados, quando repetem uma mesma nota várias vezes, ou de cantos, que podem durar até 30 minutos, com notas variadas”, descreve Barcellos.  A baleia-jubarte é uma espécie migratória, que vem da Antártida e segue para a região de Abrolhos, no Nordeste do Brasil, onde se reproduz. “Como as emissões sonoras das embarcações são tão intensas quanto as das baleias, os animais não conseguem fazer a comunicação, levando a atropelamentos e mudanças de rotas migratórias.”

Entre os golfinhos, de acordo com a pesquisa, as espécies mais comuns são a toninha, o boto-cinza, o golfinho-nariz-de-garrafa e o golfinho-pintado-do-Atlântico. “Os odontocetos, que possuem dentes, fazem a comunicação e buscam seus parceiros por meio de assobios curtos, um som extremamente agudo que, devido à maior frequência, atinge distâncias menores”, conta o pesquisador.  As emissões sonoras também são usadas para ecolocalização, pois dentro da água elas possuem papel equivalente ao da visão para a orientação espacial dos golfinhos. “Como em certas profundidades marinhas a penetração da luz é limitada, os animais utilizam o reflexo dos impulsos sonoros no ambiente para calcular a distância, textura, tamanho, formato e movimentação de presas, substrato marinho e embarcações.”

Sequência de etapas da colocação do gravador de sons submarinos para captar emissões sonoras de baleias e golfinhos - Foto: Acervo LABCMA
Sequência de etapas da colocação do gravador de sons submarinos para captar as emissões sonoras de baleias e golfinhos – Foto: Acervo LABCMA

 

Tráfego de embarcações

Barcellos menciona o especialista em bioacústica Christopher Clark, da Universidade de Cornell (Estados Unidos), o qual considera que o litoral brasileiro encontra-se em um estágio anterior à intensidade excessiva do tráfego de embarcações verificada em outras regiões do mundo, como no Atlântico norte.

“Nos locais com tráfego intenso, os sons antrópicos, ou seja, produzidos pela ação humana, conturbaram de tal forma o ambiente marinho a ponto de impossibilitarem a presença de animais”, alerta. “Por isso é necessário o monitoramento das espécies, já que as embarcações podem prejudicar suas funções no meio ambiente.”

De acordo com o pesquisador, no Litoral Norte de São Paulo, os planos de ampliação do porto de São Sebastião e a movimentação de navios para instalação de plataformas marítimas de petróleo reforçam a necessidade da identificação dos mamíferos marinhos. “Quando se conhece as rotas migratórias das baleias, por exemplo, é possível fazer com que o trajeto das embarcações não se sobreponha”, ressalta.

Jubarte emite som de longo alcance (Ouça abaixo) - Foto: Acervo LABCMA
Jubarte emite som de longo alcance (ouça abaixo) – Foto: Acervo LABCMA

Os mamíferos aquáticos estão no topo da cadeia alimentar. Os odontocetos, que caçam em grupo, alimentam-se de peixes. As grandes baleias, que são filtradoras, consomem zooplâncton (pequenos animais, como camarões) e fitoplâncton (algas). “Os excrementos desses animais são vetores de nutrientes para as algas existentes no mar”, explica Barcellos. “Quando elas aumentam a taxa de fotossíntese, usando a luz para produzir seu alimento, a oxigenação das águas também cresce, favorecendo o desenvolvimento de outras formas de vida.”

 

 

 

 

Ouça a baleia-jubarte (áudio)

Boto cinza é encontrado no litoral norte (Ouça abaixo) - Foto: Acervo LABCMA
Boto-cinza é encontrado no Litoral Norte (ouça abaixo) – Foto: Acervo LABCMA

 

Por meio de uma parceria com o Parque Estadual da Ilha Anchieta, unidade de conservação ambiental existente na região, os pesquisadores do LABCMA fornecem informações sobre a presença dos animais ao longo do ano. “Isso permite delimitar territórios para proibir a pesca e, dessa forma, preservar e proteger as espécies”, afirma o pesquisador. As conclusões da pesquisa serão reunidas na tese Cetáceos no Estado de São Paulo, Brasil: Identificação das espécies utilizando ferramenta acústica.

Ouça o assobio do boto-cinza (áudio)

Mais informações: email dbarcellos@usp.br, com Diogo Destro Barcellos

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