Bactérias do intestino podem desencadear diabete tipo 1

Descobertas inéditas foram publicadas na revista “The Journal of Experimental Medicine” e podem abrir caminhos para tratamentos da doença

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Cientistas do Laboratório de Imunoparasitologia da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (FMRP) da USP desvendam mecanismo capaz de dar início ao diabete tipo 1, doença autoimune que impede o pâncreas de produzir insulina e responde por 10% de todos os casos de diabete.

O estudo acaba de ser publicado pela revista científica norte-americana The Journal of Experimental Medicine. Os pesquisadores brasileiros verificaram que bactérias são capazes de extravasar a parede do intestino e chegar ao pâncreas, contribuindo com o desencadeamento da doença.

Segundo Frederico Ribeiro Campos Costa, integrante da equipe e primeiro autor do estudo, pesquisas recentes têm relacionado a microbiota intestinal (popularmente conhecida como flora intestinal) com o diabete tipo 1 e revelam composição diferente de bactérias no intestino de pessoas predispostas a essa doença. No entanto, uma pergunta intrigava a comunidade científica: como uma bactéria que está no nosso intestino pode levar à destruição de uma célula que está no pâncreas? Instigados pelo enigma, Costa, com seu grupo de pesquisa, se puseram a investigar.

Foto: Divulgação
Frederico Ribeiro Campos Costa, primeiro autor do estudo – Foto: Divulgação

O diabete tipo 1 é uma doença autoimune que se caracteriza pelo ataque do próprio sistema de defesa do organismo às células beta do pâncreas, confundindo-as com patógenos como vírus ou bactérias. Essas células são as produtoras do hormônio insulina (responsável pelo controle do açúcar no sangue). “Sem elas, a pessoa não consegue produzir sua própria insulina e tem que tomar doses diárias do hormônio pelo resto da vida”, diz o cientista.

Estudando a doença em camundongos de laboratório, Costa descobriu que certas espécies de bactérias conseguiam sair do intestino e chegar até os linfonodos pancreáticos, estrutura que fica ao redor do pâncreas. Quando essas bactérias chegam lá, desencadeia-se uma resposta inflamatória. Nosso sistema de defesa vai reconhecê-las através do receptor NOD2 (proteína que desempenha importante papel no sistema imunológico) e gerar uma resposta pró-inflamatória. Na sequência, esse ambiente pró-inflamatório contribui com o ataque às células produtoras de insulina.

Essas foram as “grandes novidades de nosso trabalho”, assegura o cientista. Pela primeira vez, um estudo mostra que uma bactéria é capaz de sair do intestino e chegar no linfonodo pancreático. E, ainda, que esse fato desencadeia uma resposta pró-inflamatória com a ativação da proteína NOD2 que vai contribuir com a morte das células beta em pessoas com uma predisposição genética a desenvolver a doença.

Mesmo conhecendo os mecanismos pelos quais age essa proteína do sistema imune, NOD2, pouco se sabia sobre seu papel no reconhecimento de bactérias que “escapam” do intestino. Os pesquisadores da FMRP garantem que ela é capaz de reconhecer a bactéria e disparar o processo que acaba com a perda das células beta. “Para provar essa hipótese, tratamos camundongos, antes do início da doença, com um coquetel de antibióticos fortíssimo.”

Segundo Costa, o coquetel de drogas diminuiu ao máximo as bactérias, que não conseguiram mais migrar para o linfonodo e não ativaram a NOD2. O resultado foi observado com o camundongo sem a inflamação e com as células beta pancreáticas íntegras.

Fator ambiental pode explicar aumento da doença

Já é fato que tanto fatores genéticos quanto os ambientais estão envolvidos no desencadeamento de doenças autoimunes como o diabete tipo 1. Essa noção de que fatores ambientais também estão envolvidos surgiu a partir de estudos epidemiológicos e estudos com gêmeos monozigóticos (com DNA idêntico). A primeira constatação intrigante foi a de que a incidência da doença tem aumentado nos últimos anos e o fator genético apenas não explicaria esse fato.

Bactérias intestinais - Foto: Divulgação
Trabalhos do grupo de pesquisa da FMRP continuam agora na identificação das bactérias. Foto: Divulgação

“Se a doença tivesse apenas cunho genético, teríamos que estar tendo cada vez mais filhos para explicar esse aumento na incidência. Algo que não tem acontecido, uma vez que as taxas de natalidade têm diminuído”, conta. Então, outro fator que não apenas o genético deve explicar esse aumento.

A segunda constatação é demonstrada por estudos em gêmeos monozigóticos. Quando um deles tem diabete tipo 1, a chance do outro ter a doença é de aproximadamente 50%. “Então, temos que 50% são resultado de fator genético e 50% de fatores ambientais.”

Várias hipóteses têm surgido para explicar os gatilhos ambientais para a doença e o “nosso grupo de pesquisa aposta na microbiota intestinal, nas bactérias da flora intestinal como um possível gatilho”, arremata o cientista.

Os trabalhos do grupo de pesquisa da FMRP continuam agora na identificação dessas bactérias “para que consigamos desvendar terapias mais específicas possíveis”. O objetivo deve girar em torno da “morte da bactéria ou de fazer com que ela não desencadeie essa resposta pró-inflamatória no linfonodo pancreático”.

Participaram do estudo pesquisadores dos Departamentos de Bioquímica e Imunologia, Biologia Molecular e Celular e Patologia da FMRP; do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP; da Universidade de Yale (EUA) e da Universidade de Utrecht (Holanda).

Por: Rita Stella, do Serviço de Comunicação Social do campus de Ribeirão Preto

Mais informações: (16) 3315-3231; e-mail fredrbcc@gmail.com

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