Acesso de deficientes visuais ao cinema é desbravado em pesquisa

Pesquisador explora dificuldades, facilidades e possíveis soluções que envolvem a problemática de tornar acessível a experiência do cinema a quem não enxerga

Por - Editorias: Ciências
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Foto: Wikimedia Commons
Foto: Wikimedia Commons

Se para o cineasta Orson Welles o cinema não tinha “fronteiras nem limites”, para boa parte do público, formado por deficientes visuais, seu lugar nas salas ainda é um território que precisa ser conquistado.

Na dissertação Design para acessibilidade: inclusão de pessoas com deficiência visual ao serviço de cinema, apresentada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP, Diego Normandi procurou explorar dificuldades, facilidades e possíveis soluções para tornar acessível a experiência de cinema a quem não enxerga, com o foco no acesso físico e sensorial, pelo viés do design.

De acordo com o censo demográfico apresentado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em 2010, cerca de 45 milhões de pessoas com alguma deficiência estão vivendo no Brasil, dentre as quais 35 milhões são deficientes visuais formação, Normandi se interessou pelo tema quando trabalhava em uma campanha para inclusão de pessoas com deficiência. O então estudante passou, pela primeira vez, a se questionar sobre o acesso a essa experiência – o cinema – por pessoas com deficiência visual.

Com formação publicitária, Normandi se interessou pelo tema quando trabalhava em uma campanha para inclusão de pessoas com deficiência. O então estudante passou, pela primeira vez, a se questionar sobre o acesso a essa experiência – o cinema – por pessoas com deficiência visual. A escolha do design como campo de estudo foi motivada por sua visão específica da área. “Na minha percepção, a publicidade orienta sua atuação no sentido do produto ao ser humano, pois busca, a partir de suas ferramentas, estimular a compra de artefatos por parte dos consumidores”. Já o design, explica, caminha no sentido oposto, com foco no “desenvolvimento de produtos e serviços orientados à necessidade dos indivíduos”.

Sessão com audiodescrição – Foto: deficienteciente.com.br

Metodologia inovadora

O trabalho final apresenta uma pesquisa não propositiva sobre acessibilidade dos deficientes visuais em salas de cinema, considerando toda a complexidade que envolve essa experiência, desde, por exemplo, a produção de filmes até a experiência propriamente dita nos espaços de projeção. A metodologia envolveu uma pesquisa com abordagem qualitativa e enfoque exploratório e descritivo, auxiliada por conhecimentos em design, além de uma elaborada revisão bibliográfica e da legislação brasileira sobre o assunto.

Partindo de perguntas como “quais dificuldades um cego enfrenta no processo que envolve a experiência de assistir um filme no cinema?”, “o que diz a legislação brasileira sobre a inclusão de deficientes visuais a conteúdos culturais?” até uma investigação detalhada sobre como as ferramentas assistivas, utilizadas por usuários cegos, podem contribuir no acesso a salas de cinema, o trabalho verteu na elaboração de uma proposta para o serviço de cinema atual que inclui a acessibilidade em diversas etapas como divulgação, experiência e distribuição.

Esquema de instalação e utilização da ferramenta (Fonte: http://whatscine.es)
Esquema de instalação e utilização da ferramenta – Foto: whatscine.es

Dentre as ferramentas apresentadas estão desde as mais conhecidas, entre elas, a tecnologia de audiodescrição (exemplificada nos aplicativos Whatscine e MovieReading), que consiste na descrição objetiva de todas as informações que compreendemos visualmente e que não estão contidas nos diálogos, tais como expressões faciais e corporais que comuniquem algo, informações sobre o ambiente, figurinos, efeitos especiais, mudanças de tempo e espaço, até leitores de livros, o uso de cães-guia, e aparelhos como o Blitab, que exibem conteúdo em braile.

A partir daí, a pesquisa envolveu a elaboração de um mapa de stakeholders, uma espécie de representação visual do conjunto de indivíduos que se relacionam, de alguma forma, a um processo, fenômeno, ou evento pesquisado e seguiu-se com a criação de metodologias particulares como a criação de personas e a indução de relatos.

A indução é “um procedimento de coleta de informações baseado na técnica tradicionalmente conhecida como storytelling, que, por sua vez, é um modelo para compartilhamento de insights, a partir da construção de narrativas”, explica Normandi, acrescentando que um de seus objetivos é revelar facetas de utilização de artefatos ou de experiências não imaginadas por quem as projetou.

Grande parte das ferramentas de design que encontrei tem forte dependência de estímulos visuais, o que impossibilita a interação de pessoas com severa deficiência.

Após essas etapas, foram criados mapas de expectativas de usuários na utilização de determinado serviço que foram contrastados com entrevistas com especialistas, incluindo dois audiodescritores, dois cineastas, dois exibidores de filmes em cinema e dois distribuidores de filmes.

Para o especialista, há a necessidade de novas ferramentas e procedimentos para desenvolvimento de produtos e serviços orientados a pessoas com deficiência sensorial, sobretudo cegos ou pessoas com múltiplas deficiências. Os designers seriam, assim, parte dos profissionais capazes de solucionar tais demandas. “Designers se especializam, durante sua formação, em resolver problemas tomando como perspectivas diversos olhares diferentes, como aspectos sociais, humanos, tecnológicos, prazos, modelos”, enumera, ao destacar a versatilidade do campo.

Engajamento

Catálogo de lmes (alguns) oferecidos com recurso de audiodescrição pelo site do aplicativo MovieReading. Foto: Reprodução/MovieReading

Filho de um pai que sofre com uma deficiência motora há 31 anos, o pesquisador lembra-se de que foi pelo audiovisual, ao assistir uma trama televisiva que envolvia um personagem deficiente, que verdadeiramente se deu conta das dificuldades enfrentadas pelo pai e por tantos outros. Eram “situações que vivenciei com meu pai e nunca tinha entendido direito, como quando ele deixava de ir a determinados lugares pois não conseguia passar pela porta ou pelo corredor”, conta ele. “Essas coisas nunca haviam me chamado a atenção, nem parecia provocar algum tipo de indignação do meu pai com a situação, como se fosse normal todo o modelo excludente pelo que nossa sociedade se orienta”, revela.

Na conclusão do trabalho, Normandi defende que para se atingir resultados eficientes seria preciso considerar o conjunto de fatores que envolvem o processo de ir a uma sala de cinema, que passa pela adaptação de filmes a uma linguagem acessível, mas também pelo treinamento de profissionais prontos a atender às diferentes necessidades das pessoas com deficiência, pela garantia de mobilidade e transporte urbano confortável e seguro para o deslocamento desse público, pela sensibilização dos agentes que financiam, produzem, distribuem e exibem os filmes e, em especial, pela aplicação e fiscalização de leis e normas de inclusão.

Ao final, o pesquisador afirma ter sua visão sobre acessibilidade transformada pelo estudo. “Hoje, não consigo ficar calado diante de situações de desrespeito aos direitos dos cidadãos, de imposição do capital frente ao benefício social”, aponta.

A dissertação de mestrado foi orientada pela professora Cibele Haddad Taralli, do Departamento de Projetos da FAU.

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