Segundo turno das eleições aumenta preocupação com violência eleitoral

Os episódios de violência ocorridos durante o primeiro turno das eleições municipais despertaram a atenção para a exacerbação do sentimento de intolerância

Por - Editorias: Atualidades, Rádio USP
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Wikimedia Commons com modificação / Jornal da USP
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Acompanhe a entrevista da repórter Simone Lemos com a professora Nancy Cardia, vice-coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP:

Passado o primeiro turno, o País vai para o segundo turno das eleições. Até aqui, vem chamando a atenção o aumento da violência nas campanhas eleitorais. Na semana anterior ao primeiro turno, bombas explodiram durante um comício em Mirassol, duas delas sobre o palanque, deixando feridos uma candidata a vereadora e um candidato a prefeito. Anteriormente, foi lançada uma bomba na casa de um candidato a prefeito na região de Sorocaba. Ao que se sabe, episódios de violência já foram registrados em 17 Estados, e nada menos que 28 políticos/candidatos foram assassinados.

Foto: Marcos Santos
Foto: Marcos Santos

Em entrevista à Rádio USP, a professora Nancy Cardia, vice-coordenadora do Núcleo de Estudos da Violência da USP (NEV), diz não poder afirmar se a violência eleitoral está mesmo aumentando, “mas certamente está se tornando mais visível e, a partir da explosão de bombas, menos usual”. Ela revela que, durante mais de dez anos, o NEV produziu relatórios sobre direitos humanos que cobriam todo o território nacional. Esses documentos deixaram claro que as ocorrências de violência contra candidatos, em época de eleições, eram uma realidade, principalmente em municípios do interior, contradizendo a percepção inicial dos pesquisadores de que aconteciam somente em regiões fronteiriças, onde “os padrões de disputa política eram marcados por uma competição exacerbada”. Ledo engano, pois episódios de violência ocorriam em municípios de norte a sul do País. No entanto, “como eram poucos casos, e os municípios pequenos, não chamavam muita atenção”, nem mesmo quando as vítimas dos atentados eram jornalistas e radialistas locais.

Para a professora Nancy, o que se percebe agora é uma exacerbação dos casos de violência em períodos eleitorais. Pouco antes da realização do primeiro turno, o candidato a vereador Marcos Vieira de Souza, o Falcon, foi friamente assassinado a tiros em Madureira, zona norte do Rio de Janeiro. Há que se ater, ainda, a um cenário que não está restrito somente aos romances policiais, ou seja, à tentativa do crime organizado de estender sua influência aos poderes constituídos.

Foto: Adriano Lima
Foto: Adriano Lima

Produzido em 2000, o relatório da CPI do Narcotráfico estabeleceu vinculação entre o crime organizado e os políticos em todos os Estados do País. Ao lado desse fenômeno, a vice-coordenadora do NEV admite a possibilidade de estar havendo uma certa radicalização da política e o esvaziamento de qualquer sentimento de tolerância, o que vai contra os princípios da democracia. Por outro lado, esse fenômeno de exacerbação da violência não parece estar restrito somente ao Brasil, atingindo todo o planeta. “Parece que esse tipo de comportamento se tornou menos inaceitável”, constata a professora Nancy.

De todo modo, as preocupações voltam-se agora para o segundo turno das eleições e para o eventual surgimento de novos casos de violência. Não se pode esquecer também que, em 2018, ocorrerão eleições para a Presidência da República, governo do Estado, Senado e Câmara dos Deputados. Impossível prever o que pode acontecer até lá. “Tudo vai depender muito do discurso político, da economia, do funcionamento da Justiça. Se, principalmente nas cidades menores, houver processos de investigação”, com a consequente responsabilização criminal das pessoas que atuarem de forma violenta, predominará o sentimento de que ninguém ficará impune. Caso contrário, novos episódios de violência estarão propensos a ocorrer.

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