Novos métodos assessoram no diagnóstico e tratamento do Alzheimer

A doença atinge indivíduos com mais de 65 anos e é a principal causa de demência dessa população

Por - Editorias: Atualidades
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Foto: Marcos Santos/USP Imagens
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Esquecer acontecimentos recentes é um sintoma que deve ser avaliado com muito cuidado entre os idosos. Muitas vezes esse comportamento pode estar associado ao Alzheimer, doença degenerativa cerebral. Essa patologia atinge, geralmente, os indivíduos com mais de 65 anos. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS),
47,5 milhões de pessoas sofrem de demência e há 7,7 milhões de novos casos por ano. O Alzheimer é uma das causas mais comuns dessa doença e pode contribuir com uma média entre 60% e 70% dos casos.

O Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP tem realizado diversos estudos para melhorar os instrumentos de diagnóstico, tratamento e conhecimento desse distúrbio neurológico.  De acordo com o professor e médico Orestes Forlenza, do Laboratório de Neurociências do IPq, existem dois mecanismos patológicos importantes que causam o Alzheimer. O primeiro está associado à formação de placas senis (ou neuríticas) no tecido cerebral; essas placas são originadas pelo acúmulo de um peptídeo neurotóxico conhecido como beta-amiloide. Esse fragmento proteico é gerado a partir de uma clivagem (corte) anormal da proteína precursora do amiloide, chamada APP.  O pesquisador explica que, em condições normais, a clivagem da APP não gera o beta-amiloide, mas sim outro fragmento proteico com funções protetoras ao metabolismo neuronal.

Orestes Forlenza, professor e médico do laboratório de Neurociências do IPq - Foto: Reprodução/Ed. Manole
Orestes Forlenza, professor e médico do Laboratório de Neurociências do IPq – Foto: Reprodução/Ed. Manole

Um segundo mecanismo associado ao desenvolvimento da doença de Alzheimer decorre do colapso da estrutura que dá sustentação às células nervosas (o citoesqueleto neuronal). De acordo com o professor, esse processo ocorre por conta do excesso de fosforilação de uma proteína denominada Tau, que é responsável por estabilizar o citoesqueleto. Quando ocorre a hiperfosforilação da Tau, ela perde essa função e ocorre colapso progressivo dos neurônios, formando-se os filamentos helicoidais pareados (PHF), que são ricos em Tau hiperfosforilada. Este processo leva à formação dos emaranhados neurofibrilares. As placas neuríticas e os emaranhados neurofibrilares são os marcadores patológicos da doença de Alzheimer e a sua formação está ligada ao desenvolvimento dos sintomas clínicos da doença.

O IPq vem desenvolvendo diversas linhas de pesquisas relacionadas ao Alzheimer. No Laboratório de Neurociências (LIM-27), Forlenza coordena um grupo de pesquisadores no desenvolvimento de uma tecnologia inovadora para assessorar o diagnóstico dos distúrbios da memória. Este estudo se baseia no monitoramento da movimentação ocular durante uma sessão de testes de memória, por meio de um aparelho denominado Eye-tracker. Segundo ele, pacientes acometidos pela doença de Alzheimer apresentam um padrão de movimentação ocular diferente de pessoas normais. “Essa informação poderá auxiliar na identificação de casos com sintomas muito leves”, menciona o médico.

Eye-tracker: aparelho que monitora a movimentação ocular durante uma sessão de testes de memória - Foto: Brandee Winstead
Eye-tracker: aparelho que monitora a movimentação ocular durante uma sessão de testes de memória – Foto: Brandee Winstead

Outro estudo em que a equipe é pioneira no Brasil realiza o diagnóstico clínico da doença a partir de marcadores biológicos. Esses biomarcadores podem ser determinados em fluidos corporais, tais como no líquor (líquido cefalorraquidiano) e em sangue periférico (por exemplo, plasma, leucócitos ou plaquetas), e refletem alguns dos processos patológicos cerebrais característicos da doença. Outra forma de estudo dos biomarcadores consiste no uso de métodos de imagem cerebral, tais como a ressonância magnética e a PET (tomografia por emissão de pósitrons). Por meio dessas tecnologias, é possível identificar correlatos da deposição do peptídeo beta-amiloide e do acúmulo da proteína Tau, bem como das consequências desses processos patogênicos, sem a necessidade de examinar diretamente os tecidos cerebrais.

No caso dos biomarcadores liquóricos, essas informações podem ser obtidas a partir do exame do líquido que banha o sistema nervoso, obtido por meio de uma punção lombar. De acordo com Forlenza, mede-se a concentração do peptídeo beta-amiloide, da proteína Tau total e de sua forma fosforilada no líquor; dependendo da combinação desses resultados, é possível estimar o risco de desenvolvimento futuro de doença de Alzheimer em indivíduos com sintomas muito discretos.

No LIM-27, também são realizados estudos para avaliar a eficácia de intervenções terapêuticas para pacientes com doença de Alzheimer. Um deles, que é realizado pelo laboratório do IPq, consiste no uso do lítio no tratamento de pacientes com doença em estágio inicial. O professor menciona que há décadas esse medicamento é usado para tratar várias doenças psiquiátricas, como, por exemplo, o transtorno bipolar. Recentemente, foram revistas as propriedades dessa substância e descobertas novas propriedades neuroprotetoras. Os pesquisadores fizeram alguns testes controlados, ministrando lítio para os pacientes com queixas de memória, e perceberam tanto uma diminuição do declínio cognitivo/funcional como também a modificação de parâmetros biológicos relacionados à formação do beta-amiloide e à fosforilação da proteína Tau.

Outra forma de tratamento é por métodos não farmacológicos. O IPq desenvolve intervenções de reabilitação cognitiva e funcional através de um programa de hospital-dia geriátrico, onde os pacientes frequentam oficinas terapêuticas. O professor também destaca a atenção que deve ser dada aos familiares e cuidadores dos idosos com Alzheimer. Geralmente, por carregarem uma quantidade de trabalho muito grande, além do sofrimento inerente ao fato de terem um familiar acometido, os cuidadores de pacientes com demência acabam desenvolvendo transtornos psíquicos variados, geralmente relacionados à sobrecarga, tais como insônia, depressão e ansiedade.

Tratamento

Foto: Wikimedia Commons
Foto: Wikimedia Commons

Embora ainda seja incurável, existe muito a se fazer pelos pacientes acometidos pela doença de Alzheimer. Para que o tratamento seja mais eficaz, o ideal é estabelecer o diagnóstico nas suas fases iniciais. Os familiares precisam estar atentos aos sintomas que acometem os idosos, como perda da capacidade de lembrar fatos recentes e a dificuldade de raciocínio.

Os medicamentos aprovados para o tratamento da doença de Alzheimer compensam algumas deficiências no funcionamento cerebral, fortalecendo a capacidade cognitiva do indivíduo e melhorando eventuais alterações do comportamento; porém, não alteram o processo que leva à destruição neuronal. Assim, a pessoa pode restabelecer parcialmente a sua capacidade funcional, mas esse benefício não se sustenta por muito tempo e o paciente acaba tendo, posteriormente, uma deterioração adicional. Forlenza ressalta que os tratamentos hoje disponíveis são apenas sintomáticos, pois não impedem a progressão da doença. Entretanto, se os doentes não são medicados, esse processo pode ser ainda mais acentuado e a evolução como um todo tende a ser pior.

História 

O Alzheimer foi descrito pela primeira vez em 1901, por um neurologista alemão. Ele diagnosticou uma rara doença neurodegenerativa do córtex cerebral na paciente Auguste Deter, de 51 anos.  Em uma conferência, o médico definiu a patologia neurológica como uma demência que tinha como sintomas déficit de memória, alterações de comportamento e incapacidade para executar atividades rotineiras. Posteriormente, Emil Kraepelin nomeou a patologia como Alzheimer, nome do pesquisador que a descreveu pela primeira vez.

 

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