“Educação é fundamental para reduzir a desigualdade”, diz professor

Em conferência sobre desigualdade no Brasil, professores da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP tratam das causas e efeitos do fenômeno

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Nesta quarta-feira, 26 de outubro, o ciclo de conferências Repensar o Brasil, promovido pela Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP em comemoração aos seus 70 anos, apresentou o tema “A desigualdade no Brasil”.

Os professores da FEA Carlos Roberto Azzoni e Naercio Menezes Filho  apresentaram uma série de dados para abordar a desigualdade ao longo da história do Brasil e no território do País. Azzoni diz que a desigualdade (de renda, de condições sociais, de oportunidade) é um dos elementos que configuram o conceito de disparidade; o outro é a concentração (populacional, do Produto Interno Bruto (PIB), de inovações). Segundo o professor, é preciso analisar ambos para entender o cenário nacional.

Azzoni mostra que há uma enorme concentração industrial, de potencial inovativo, de cientistas e de diversas áreas do conhecimento na Região Sudeste. Além disso, na metrópole de São Paulo há também uma grande concentração do dinheiro, do mercado e do poder aquisitivo na região central. “O quadro de concentração regional desde 1872 é muito semelhante ao de hoje, o que é impressionante. O que ocorre aqui é uma grande concentração e uma grande desigualdade, ambas muito persistentes”, afirma.

Carlos Roberto Azzoni no Ciclo de Conferência Repensar o Brasil "A desigualdade no Brasil". Foto: Cecília Bastos/Usp Imagens Local: FEA
“Os novos ventos estariam empurrando o velho moinho produtor de desigualdades?”, questiona o professor Carlos Roberto Azzoni – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Diversos gráficos e estatísticas apresentados pelo professor ilustram o movimento dos grandes polos de desenvolvimento econômico no Brasil ao longo das décadas. Na maioria das situações, eles se mantiveram na Região Sudeste, expandindo para o Norte em determinado momento graças, principalmente, à atividade na Zona Franca de Manaus e também para o Centro-Oeste, graças à presença de Brasília e à importância do agronegócio na região;  somente no início dos anos 2000 a curva teve uma leve inclinação ao Nordeste, com o incentivo das políticas sociais adotadas no período. No geral, porém, é amplo o domínio do Sudeste, e o Nordeste se mostra a região com menos expressividade nesse aspecto ao longo do século passado.

Segundo o professor, uma análise feita friamente e do ponto de vista econômico mostra que, para as pessoas e empresas da região de concentração, o fenômeno é benéfico. “Apesar dos problemas como o trânsito, o alto custo de vida, a violência e outras desvantagens dos grandes centros urbanos, ainda é mais vantajoso para quem ocupa essas áreas que haja a concentração, pois ela traz as empresas mais ricas e os profissionais mais qualificados todos para lá, o que gera grande potencial inovativo e econômico”, explica. Azzoni pondera que há o outro lado, que acaba carente de recursos para se desenvolver, e isso gera uma desigualdade. “Economicamente, porém, não temos uma resposta clara sobre o que é melhor, concentrar ou não.”

Ele ressalta os “novos ventos” do desenvolvimento tecnológico como potenciais impulsionadores das regiões menos desenvolvidas, bem como das mais favorecidas pela concentração, no futuro. “A questão é: os novos ventos estão soprando novos moinhos, ou são os mesmos velhos moinhos produtores de desigualdade que são movidos mais rápido pelos ventos novos? Não é claro se os moinhos mudaram e, se mudaram, em qual direção”, questiona.

Depois do panorama geral traçado por Azzoni, o professor Naercio Menezes Filho direcionou a questão da desigualdade para um foco principal: a educação. “A educação é uma das poucas áreas que promovem avanços nas frentes social e econômica ao mesmo tempo: investindo em educação, melhora tanto o crescimento econômico quando a justiça social. Educação é fundamental para reduzir a desigualdade”, afirma.

Naercio Menezes Filho no Ciclo de Conferência Repensar o Brasil "A desigualdade no Brasil". Foto: Cecília Bastos/Usp Imagens Local: FEA
“O Brasil acordou para a educação a partir de 1990, e aí a desigualdade caiu”, afirma o professor Naercio Menezes Filho – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Baseado nisso, Menezes apresentou dados sobre a educação no Brasil no decorrer do século passado para indicar que o cenário de desigualdade atual é fruto da demora para que se iniciassem os investimentos em políticas educacionais no País. “Na década de 1950, 40% dos brasileiros eram analfabetos. De 1907 a 1960, a escolaridade em regiões do Brasil como o Sudeste e o Nordeste cresceu muito, porém em ritmos diferentes. Com mais investimentos em educação no Nordeste, talvez a desigualdade hoje fosse menor entre essas regiões”, analisa.

Menezes diz que é interessante tentar compreender por que não houve esse investimento no Nordeste, e por que ele demorou tanto a acontecer no Brasil em geral. Para ele, a vinculação de recursos públicos para financiar a educação instituída pela Constituição de 1988 foi fundamental para o avanço educacional que começou nos anos 1990, fato que o faz questionar a Proposta de Emenda à Constituição 241, a PEC do Teto de Gastos, que estabeleceria um limite para as despesas do orçamento em políticas públicas. “O Brasil acordou para a educação a partir de 1990, e aí a desigualdade caiu”, resume.

Ainda assim, Menezes mostra que no Brasil a desigualdade de renda entre os 10% mais ricos e os 10% mais pobres segue muito alta. “Aqui, ela é da ordem de 40 vezes, enquanto na Finlândia, o salário do presidente da empresa é apenas cinco vezes maior do que o do faxineiro, no máximo.”

O professor aponta também uma distorção: enquanto entre 1965 e 1970 o Brasil dobrou a produtividade apenas investindo na industrialização e negligenciando a educação, depois que os investimentos educacionais passaram a ser aplicados o País viu a desigualdade diminuir, mas não cresceu em produtividade. “Cabe entender por que uma coisa (melhor educação) não implicou na outra (produtividade)”.

Para Menezes, os motivos que podem explicar isso são complexos e variados, como inflação e falta de infraestrutura e outras políticas sociais deficientes como a saúde; a soma desses fatores externos levaria a uma compensação negativa, que inibiria a melhora na produtividade esperada através da educação. Outro problema é a própria qualidade da educação no Brasil. Segundo o professor, embora o número de alunos nas escolas do País e o número de anos que eles passam nelas tenham aumentado, esses alunos muitas vezes não estão de fato aprendendo, devido à falta de investimento num sistema eficiente. “Isso não é apenas uma questão de dinheiro. É também (e até mais) um problema de gestão, de enfrentamento de interesses corporativistas, de criar medidas que estimulem a permanência dos alunos nas escolas e que valorizem e qualifiquem os professores.”

Na quinta-feira, 27 de outubro, o ciclo de conferências Repensar o Brasil segue com o tema “Repensar São Paulo para repensar o Brasil”, apresentado pelo professor James Wright, da FEA, às 11h15, no Salão de Conferências da faculdade.

Ouça abaixo entrevista do repórter Diego Smirne com o professor Naercio Menezes Filho para a Rádio USP:

 



 

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