“Diálogos na USP” celebra os 100 anos da Faculdade de Saúde Pública

Convidadas comentam a história e os méritos da faculdade ao longo de seu centenário

Por - Editorias: Atualidades, Rádio USP

atualizado em 21/02/2018

Faculdade de Saúde Pública da USP – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

A Faculdade de Saúde Pública da USP comemora, nesta sexta-feira (9), os 100 anos de seu surgimento. Vinculada à Faculdade de Medicina, ela nasceu como Laboratório de Higiene, em 1918. Em 1934, o instituto foi incorporado à Universidade de São Paulo, com o nome de Escola de Higiene e Saúde Pública.

Nesta edição, o programa Diálogos na USP conta um pouco mais da história da faculdade. Para tanto, recebe a professora Patrícia Helen de Carvalho Rondó, vice-diretora da instituição, e a historiadora e doutoranda em Saúde Pública, Mariana de Carvalho Dolci.

Mariana de Carvalho Dolci, Patrícia Helen de Carvalho Rondó e Roberto Castro. Rádio USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens

Para conferir a entrevista editada, leia abaixo. Ou se preferir ouvir o programa na íntegra, clique nos players acima.

Roberto Castro: Este é um programa festivo porque estamos comemorando 100 anos da Faculdade de Saúde Pública da USP, essa faculdade tão importante que deu e dá enormes contribuições à sociedade brasileira. A Faculdade de Saúde Pública da USP tem sua origem no Laboratório de Higiene, fundado exatamente há 100 anos, no dia 9 de fevereiro de 1918, como uma cadeira da Faculdade de Medicina, e graças a um convênio firmado entre o Governo do Estado de São Paulo e a Fundação Rockefeller, dos EUA. Em 1922, quatro anos depois da criação, o Laboratório de Higiene, sob a liderança do professor Geraldo Horácio Paula Souza, se desvinculou da Faculdade de Medicina, e foi rebatizado com o nome de Instituto de Higiene. Tal instituto nasceu já com uma visão interdisciplinar do tema higiene, e passou a oferecer o curso de especialização em Saúde Pública para médicos, engenheiros e outros profissionais sanitaristas. Anexo ao instituto surgiu o primeiro Centro de Saúde do Brasil, que serviu como referência para os estudantes desse curso de especialização. Em 1939 foi fundado o curso de graduação em Nutrição, o primeiro do Brasil, criado pelo professor Paula Souza com o objetivo de melhorar a saúde dos trabalhadores da indústria através da alimentação. Em 1934, com a criação da USP, o Instituto de Higiene foi incorporado à universidade, agora com o nome de Escola de Higiene e Saúde Pública.

Nós vamos tratar justamente disso aqui no programa, que recebe a professora Patrícia Helen de Carvalho Rondó, vice-diretora da Faculdade de Saúde Pública da USP, e a historiadora e doutoranda da Faculdade de Saúde Pública Mariana de Carvalho Dolci. Eu gostaria de começar lembrando as origens da Faculdade de Saúde Pública. A Mariana, que é especialista nisso, está fazendo uma tese de doutorado sobre a história da Faculdade de Saúde Pública. Mariana, hoje que nós comemoramos 100 anos, que aspecto das origens da faculdade você poderia nos lembrar aqui, por favor.

Mariana Dolci: A Faculdade de Saúde Pública tem origem como um braço da Faculdade de Medicina e Cirurgia de São Paulo, em 1912. Ela foi fundada pelo Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho, e o fundador do Instituto de Higiene era médico e professor da Faculdade de Medicina. Em 1918, já sob os auspícios da Fundação Rockefeller, que já vinha, desde o início da década, pensando em formar e construir escolas de saúde pública, firmou um convênio com o Governo do Estado. A partir do Dr. Arnaldo Vieira de Carvalho começa essa prática de tirar uma cadeira da faculdade para então começar os trabalhos de higiene. Nós estamos falando de higiene e também de sanitarismo, o que a gente vai chamar de saúde pública. Paula Souza e seu companheiro de faculdade Francisco Borges Vieira foram os dois professores escolhidos pela Fundação Rockefeller e pela Faculdade de Medicina para ir estudar na Faculdade Johns Hopkins, em Baltimore, que também foi construída com dinheiro da Fundação Rockefeller. Isso foi um acordo que a fundação fez com a Faculdade de Medicina pedindo que esses dois professores fossem se formar nos Estados Unidos. Aí já tem um grande aspecto da formação do instituto, porque a nossa matriz de sanitarismo era francesa, e eles vão se formar na matriz americana. Quando voltam ao Brasil, dois anos depois, formados pela universidade, eles vão trazer toda essa ideia americana de saúde pública e começar a implantá-la dentro do Instituto de Higiene.

Roberto Castro: Foi vantajoso ou não trocar o modelo francês pelo americano?

Mariana Dolci: Teve vantagens e desvantagens. A maior desvantagem, no início, foi realmente trazer ideias novas para um modelo que já estava vigorando. E o Paula Souza vai lutar muito tempo, talvez a vida toda – ele não viveu muito, morreu relativamente jovem –, para introduzir as suas ideias. Principalmente quando assume a direção do Serviço Sanitário em São Paulo, no ano de 1922. Ele já era diretor do Instituto de Higiene, e passa, então, a Diretor do Serviço Sanitário, onde vai refazer o código sanitário da cidade de São Paulo com as ideias americanas de saúde pública. Uma delas, talvez a mais chamativa da época, foi a criação de um Centro de Saúde Modelo, que temos até hoje, é o primeiro da América do Sul.

Roberto Castro: E o impacto, Mariana, da criação do Laboratório de Higiene na saúde pública da cidade e do estado, naquele momento?

Mariana Dolci: A higiene naquele momento era crucial no sentido de educação. Essa é uma das ideias que o Paula Souza traz dos Estados Unidos, algo como a educação em higiene, mais tarde educação sanitária, que seria a ideia de formar professoras primárias dentro de um curso de higiene para que elas conseguissem passar noções para as crianças que depois passariam em suas casas também. Mais tarde ele vai criar o curso de visitadoras sanitárias, que vão às casas das pessoas, no sentido de se conseguir evitar epidemias e doenças que estavam se alastrando na época e que poderiam ter algum tipo de prevenção caso você fosse educado na higiene. Então esse é um aspecto dessa formação.

Roberto Castro: Professora Patrícia, qual o impacto dessa origem hoje na faculdade?

Patrícia Rondó: Eu acho que o papel da Faculdade de Saúde Pública sempre foi extremamente importante para o país, para o estado e para o município. A faculdade sempre se envolveu na prevenção e na promoção da saúde. Quando do seu surgimento, nós sabemos que no Rio e no estado de São Paulo havia grandes epidemias: a febre amarela e a própria tuberculose, que persiste ainda hoje como um grande problema de saúde pública. Então eu acho que a saúde pública, como ela atua com uma equipe multidisciplinar e também de maneira interdisciplinar, é vista de uma maneira mais abrangente. De acordo com a definição da OMS, a saúde é um estado de perfeito bem-estar físico, mental e social. Nesse sentido, então, essa visão da saúde pública deve ser ampla e se adequar à realidade do país. Por isso que é muito importante que os alunos de graduação e pós-graduação estejam mais próximos da nossa realidade. Uma questão muito importante que nós vivenciamos, não só no Brasil, mas também no mundo todo, é a questão da desigualdade social, e decorrente dela surgem inúmeros problemas, inclusive de saúde, que estão diretamente relacionados com a pobreza. E mesmo se olharmos para os grandes centros como, por exemplo, a cidade de São Paulo, a cidade mais rica do país, quando nós chegamos na periferia veremos indivíduos vivendo em condições de países muito pobres como, por exemplo, Paquistão e Bangladesh. Se nos dirigimos às regiões mais ricas da cidade de São Paulo, temos indivíduos com um padrão de vida comparado a países muito ricos, como França e Holanda. A saúde pública, então, por trabalhar com profissionais de diferentes áreas – médicos, enfermeiros, engenheiros, advogados e nutricionistas –, tem esse olhar mais abrangente para a questão da saúde.

Roberto Castro: Mariana, a gente pode dizer que essa visão interdisciplinar da saúde pública e da higiene foi inaugurada pelo Laboratório de Higiene?

Mariana Dolci: Sim, essa foi uma ideia também que eles trouxeram de sua formação, que é o que nos difere da medicina. A saúde pública tem essa tendência interdisciplinar e multidisciplinar, é o que faz com que esse campo seja tão aberto e se consiga dar uma outra visão para a saúde. As ciências humanas têm muito a contribuir com esse olhar.

Roberto Castro: Gostaria agora que as senhoras citassem de forma bem objetiva quais as grandes contribuições da Faculdade de Saúde pública para a sociedade brasileira.

Patrícia Rondó: No que diz respeito àquela definição de saúde da OMS, bem lembrada pela Mariana, na Faculdade de Saúde Pública, nós temos também sociólogos e historiadores. Então a visão é mais relacionada à questão socioeconômica, que está diretamente relacionada com a saúde. Assim, as pesquisas em andamento, na Faculdade de Saúde Pública, estão na área biológica, na área social e em diversas outras áreas: por exemplo, temos o direito sanitário, a saúde ambiental, onde atuam engenheiros. Só para se ter uma ideia, de acordo com dados do Credit Suisse Wealth Report, de 2016, para cada unidade monetária que é despendida em saneamento básico, economiza-se de 4 a 5 unidades monetárias em sistemas de saúde, incluindo unidades básicas, hospitais e tratamentos. Então, o impacto do saneamento básico para a saúde é fundamental e nós observamos, nos últimos anos, uma diminuição da mortalidade infantil no Brasil, e um dos fatores relacionados a essa diminuição foi a melhoria do saneamento básico. Nós temos muito ainda o que fazer nesse sentido. Se pensarmos que mais de 60% do nosso corpo é constituído de água, então é importante uma água de qualidade, e nós sabemos que no mundo como um todo o acesso à água é extremamente difícil. Dentro da Faculdade de Saúde Pública existem seis departamentos: o Departamento de Epidemiologia, o Departamento de Nutrição, o Departamento de Ciclos de Vida, o Departamento de Saúde e Sociedade, o Departamento de Política e Gestão em Saúde e o Departamento de Saúde Ambiental. Dentro desses departamentos temos diferentes profissionais, mas a ideia é trabalhar de forma interdisciplinar, para que esses departamentos conversem entre eles e também com outras unidades da universidade. Nós estamos hoje comemorando os 100 anos da Faculdade de Saúde Pública, mas é importante lembrar que a saúde é muito abrangente. Como a gente pode tratar a saúde mental dentro da saúde pública se não houver uma interação com o Instituto de Psicologia da USP? Então acho que é muito importante que as unidades dentro da Universidade de São Paulo conversem entre elas e também com outras universidades no estado de São Paulo e no Brasil. Acho importante a gente lembrar de três fenômenos que estão acontecendo no Brasil e em outros países, que são as chamadas transições nutricional, epidemiológica e demográfica. O que seria isso? A transição nutricional é a chamada má nutrição, mas com a coexistência de desnutrição com sobrepeso e obesidade, e ainda o que nós chamamos de fome oculta. Ainda no Brasil nós temos, principalmente nas regiões mais pobres, crianças desnutridas, juntamente com o aumento dos casos de sobrepeso e obesidade, pois a população de maneira geral, no mundo todo, está aumentando de peso. Nós temos, ao mesmo tempo, a chamada fome oculta. O que é a fome oculta? É a deficiência do que nós chamamos micronutrientes, que são vitaminas e minerais. Só para se ter uma ideia, existem vários pesquisadores dentro da Faculdade de Saúde Pública que trabalham nessa área, no combate à deficiência de micronutrientes. Um problema da saúde pública no Brasil é a deficiência de ferro e vitamina A, que acarreta uma série de consequências, como distúrbios de imunidade, déficit de crescimento e déficit de atenção em crianças. Essa é a transição nutricional que estamos vivenciando. O que seria a transição demográfica? Estamos observando um envelhecimento da população, a nossa população está envelhecendo, e não só no Brasil, como também em outros países do mundo. Existe uma dificuldade de se lidar com o idoso, não existe um preparo dentro do país em termos de saúde pública para lidar com essa situação. E o que isso acarreta? Um aumento de doenças crônicas não transmissíveis. Quais são as doenças crônicas não transmissíveis? O diabetes, o câncer e a própria obesidade. Então, essa transição demográfica e epidemiológica faz com que, em termos epidemiológicos, nós ainda lidamos com uma série de doenças com as quais lidávamos no começo do século passado, como, por exemplo, a tuberculose. E agora estamos observando um aumento no número de casos de febre amarela, que voltou, e de outras doenças infectocontagiosas que não eram comuns no Brasil, como dengue, zika e chikungunya.  Ao mesmo tempo temos essas doenças de país desenvolvido, que são doenças crônicas não transmissíveis. Estamos vivenciando essas transições e isso é um desafio para a saúde pública, porque temos ao mesmo tempo doenças de países subdesenvolvidos e doenças de países desenvolvidos. E os profissionais têm que lidar com esses dois tipos de problema.

Roberto Castro: Mariana, fale mais dessa questão das grandes contribuições da Faculdade de Saúde Pública para a sociedade brasileira.

Mariana Dolci: Eu acho que a gente podia ficar os próximos 100 anos falando sobre as contribuições, porque são inúmeras. Desde a sua fundação, o laboratório, depois instituto, depois escola, depois faculdade,  foram 100 anos de contribuições importantes. Uma delas, talvez, seja a do nosso fundador Paula Souza, que foi membro-fundador da Organização Mundial de Saúde, passando parte da sua vida viajando a Genebra para contribuir com a organização. A OMS ainda é um órgão regulador muito importante. Também demos grande contribuição no que se refere ao preenchimento dos atestados de óbito no Brasil, contribuição do grupo do professor Ruy Laurenti, já falecido, e isso foi muito importante, porque os atestados de óbito geram dados de saúde para a população, porém, quando mal preenchidos, eles não ajudam. Esse é um curso que frequentemente tem que ser feito, para as pessoas aprenderem a preencher de forma padrão os atestados de óbito. Outra coisa é que, em 100 anos do Instituto de Higiene, nos transformamos em Faculdade de Saúde Pública. Isso é muito importante. Discutir saúde pública e saúde coletiva com essa visão realmente multidisciplinar só trouxe contribuições para a história da saúde pública em São Paulo e no Brasil.

Roberto Castro: Nós temos conquistas da sociedade brasileira, me parece, que são devidas à Faculdade de Saúde Pública e que a gente nem sabe. Por exemplo, as pesquisas sobre fluoretação da água para diminuição da incidência de cáries em crianças, que levaram à iodação obrigatória do sal de cozinha, e as pesquisas e ensino no combate à tuberculose são contribuições da faculdade que a gente não percebe. Agora, professora, dentro do que a senhora falou, me ocorreu o seguinte: a faculdade faz pesquisas sobre nutrição, sobre o envelhecimento, mas os resultados dessas pesquisas chegam efetivamente à sociedade? Muitas vezes os meios de comunicação não emitem informações que são justamente o contrário daquilo que as pesquisas mostram? Como é que essas pesquisas conseguem chegar efetivamente na sociedade?

Patrícia Rondó: É uma excelente questão. Inclusive, esse é um tópico que vem sendo bastante discutido nos congressos de maneira geral, na área de saúde. Qual a importância de fazer uma pesquisa se ela não for aplicada? Eles estão dando tanta ênfase à aplicabilidade da pesquisa que os jornais científicos, agora, estão priorizando pesquisas que são aplicadas. Na Faculdade de Saúde Pública, por exemplo, eu poderia citar o Guia Alimentar da População Brasileira, idealizado dentro da faculdade e que está servindo de modelo para inúmeros países. Existe uma ligação muito forte de docentes de todos os departamentos da Faculdade de Saúde Pública com o Ministério da Saúde, inclusive como consultores do Ministério, da OPAS e da própria Organização Mundial da Saúde. Então, a faculdade tem essa característica, a de tentar se incluir com serviços de saúde. Agora, a divulgação das pesquisas é um problema não só do Brasil como de outros países. Como divulgar melhor as pesquisas que são realizadas dentro das unidades da USP? Como isso pode chegar mais facilmente à população? Porque não faz sentido você desenvolver uma pesquisa e essa pesquisa não ser aplicada em benefício da população. E, lembrando de novo o relatório do Credit Suisse, imaginem que nós vivemos em um mundo no qual 1% da população detém 51% da renda mundial, sendo que no Brasil a concentração é ainda maior: seis brasileiros detêm a mesma renda que metade da população. Como trabalhar em saúde pública nesse contexto, com tanta desigualdade? E nós sabemos, por exemplo, que nos países da Escandinávia, que têm o maior IDH do mundo, a desigualdade é mínima, e, apesar de não serem os países mais ricos do mundo, têm pouca dificuldade para trabalhar na área de saúde e educação devido a essa população relativamente homogênea, em termos socioeconômicos. Em todas as pesquisas da Faculdade de Saúde Pública nós olhamos essa questão socioeconômica, porque sabendo a renda do indivíduo, a renda per capita e a renda familiar, é possível prever alguns tipos de problema. Agora, a questão da água, como você colocou e a Mariana também. É fundamental olhar para a questão do saneamento básico, pois, sem saneamento básico, não adianta investir em hospitais, em unidades básicas de saúde, etc. Em relação a sua pergunta sobre o papel da Faculdade de Saúde Pública no contexto da saúde do país, é importante lembrar que o SUS, o Sistema Único de Saúde, o maior sistema de saúde pública do mundo, em termos numéricos de atendimento à população, onde todos têm acesso universal a essa saúde, gratuita e integral, nele, vários professores da faculdade trabalharam nesse sentido, para que ele surgisse em 1988. Então, é um avanço imenso se a gente lembrar que o nosso Sistema Único de Saúde se baseou em um sistema britânico. Mas nós avançamos mais ainda, como costumo dizer, porque nós atendemos não só os cidadãos brasileiros, mas também cidadãos de outros países, que estão no Brasil e que, se sofrem algum tipo de problema, são atendidos pelo SUS, coisa que não ocorre, por exemplo, no Reino Unido.

Roberto Castro: Essa era a próxima pergunta, professora, a respeito do SUS. Só esclarecendo, eu queria saber a sua visão sobre o SUS atual, que, me parece, vem sofrendo várias pressões. Como a senhora vê essa conquista do Brasil atualmente?

Patrícia Rondó: Eu acho que nós temos que lutar muito por esse sistema de saúde, considerando-se que ele deve ser aprimorado. Com os cortes que estamos sofrendo por 20 anos, tanto na educação como na saúde, logicamente enxergamos isso como uma ameaça para o nosso sistema de saúde. E quando pensamos no SUS, eu acho que a maior parte da população desconhece que ele atua tanto na atenção básica, quanto na secundária, terciária e quaternária. E é importante lembrar, só dando um exemplo, que no caso dos transplantes de órgãos realizados no Brasil, 95% são realizados pelo SUS, só para dar uma dimensão da ameaça que nós estamos sofrendo com o nosso sistema de saúde. E eu vou colocar minha posição, não a posição da Faculdade de Saúde Pública. Eu acho que educação e saúde são fundamentais. Não deveria haver cortes na educação e na saúde, porque isso vai repercutir posteriormente, o que seria mais dispendioso para o governo a médio e longo prazos.

Roberto Castro: Essa situação está afetando também o Centro de Saúde da Faculdade de Saúde Pública, fundado pelo professor Paula Souza em 1925?

Patrícia Rondó: Sim. O Centro de Saúde Escola Geral de Paula Souza. Além dele, Faculdade de Saúde Pública também possui um outro serviço chamado Serviço Especial de Saúde de Araraquara. Então, na realidade, temos dois serviços de saúde: um em São Paulo e outro em Araraquara. E esses dois serviços também estão sendo ameaçados. O Centro de Saúde Geral de Paula Souza, quando foi criado, era para que os alunos tivessem uma visão dos problemas dos centros urbanos. E o de Araraquara, que completou 70 anos em 2017, era para que os alunos tivessem uma visão dos problemas de saúde pública em áreas mais rurais. Logicamente esses dois serviços estão sendo ameaçados. Por exemplo, a cobertura populacional do nosso sistema de saúde abrange 100 mil habitantes, a maioria idosos, porque nós sabemos que Pinheiros é a região de São Paulo que concentra a maior parte dos idosos. Então a população que é atendida nesse centro de saúde é composta por idosos que, na maior parte dos casos, não conseguem manter seus planos de saúde. Normalmente o que a gente mais ouve é: “Essa região é uma região rica”. Em termos, porque no dia a dia o que a gente observa no Centro de Saúde é uma população que não tem condições de arcar com plano de saúde e procura, então, nosso atendimento. Estamos tentando um convênio com a Secretaria Municipal de Saúde principalmente, porque nós temos um convênio com a Secretaria Municipal de Saúde, que está em fase de renovação, com contratação de pessoal também. E se esse convênio não for viabilizado existe, sim, um risco para toda essa população. E é importante frisar que o nosso Centro de Saúde possui uma Associação de Usuários, relativamente recente, criada em 2013 ou 2012. E eles são extremamente ativos, porque, como trabalhamos com saúde pública, nós acreditamos que as mudanças têm que começar da comunidade, dos usuários dos serviços. Nós somos muito temerários em relação aos programas verticais, que vêm do ministério. Então é a população que sente as mudanças, é a população que sabe o que precisa. Voltando de novo à aplicabilidade das pesquisas: como se pode fazer uma pesquisa sem pensar no impacto dessa pesquisa a curto, médio e longo prazos para a população? Isso não cabe mais em nenhum país do mundo.

Roberto Castro: Mariana, você estava me falando que a Faculdade de Saúde Pública foi responsável pela implantação de uma visão preventiva na saúde pública no Brasil. Gostaria que você explicasse isso para os nossos ouvintes.

Mariana Dolci: A ideia do preventivismo vem um pouco depois e já é um movimento que reuniu muitos intelectuais na área da saúde, com a reforma sanitária, que vai trazer a ideia da saúde coletiva. O preventivismo no Brasil é relativamente jovem. Acredito que o Paula Souza não tinha essa palavra na cabeça, porém ele vai pensar o Centro de Saúde modelo dele com uma visão de integralidade do corpo. O Centro de Saúde, hoje, ainda ainda é muito confundido pelas pessoas com o posto de saúde, porque o Centro de Saúde tem um pouco desse modelo de prevenção. Você vai lá para tratar a longo prazo seus problemas, e não só quando entra numa crise ou qualquer outro tipo de coisa. Então, quando o Paula Souza desenha um modelo do que vai ser esse Centro de Saúde, ele vai pensar nessa visão integral do corpo. O Centro de Saúde começou atendendo em sua maioria crianças e hoje ele atende em sua maioria idosos. Tem essa mudança no perfil da população, inclusive porque ele está localizado em Pinheiros, dentro da Faculdade de Saúde Pública, no mesmo terreno, em uma casa histórica, uma casa tombada porque foi uma casa modernista. Lá moraram Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, e quem doou essa casa para o Governo do Estado foi a família do Oswald de Andrade. Ele perde essa casa por conta de dívidas de impostos, porque ele gastava grande parte da sua riqueza em jogos. E aí ele passa, então, a casa para a Fazenda do Estado e é no terreno dessa casa que vai ser construída a Faculdade de Saúde Pública em 1930. No final na década de 20, início de 30, 31, eles já estão mudando para aquele prédio. E na década de 50, a gente ganha um anexo, uma parte nova que foi feita ali no prédio, que não comportava mais as atividades. Então, dentro do Centro de Saúde, ele vai implantar cozinha dietética, vai ensinar as mães a fazer as comidas para as crianças, a dar banho nas crianças, melhores banhos, os mais perfeitos. Vai atender doenças infecciosas, vai dar aulas de prevenção de doenças. Enquanto você ficava na sala de espera, tinha uma pessoa que ensinava os homens sobre doenças sexualmente transmissíveis, também atendia as mulheres, as crianças. Era uma ideia realmente mais ampla de atendimento. Ele não pensava necessariamente no preventivismo, como se pensou o preventivismo depois no Brasil, mas já era uma ideia de prevenção. Então você vai ter um movimento no Brasil bastante forte, que depois vai culminar com a reforma sanitária, e isso é bastante importante na visão do Centro de Saúde, que, inclusive, era chamado por ele de Centro de Saúde Modelo. Foram fundados mais dois na cidade de São Paulo, um no Brás e um no Bom Retiro, porém, com a mudança depois na diretoria do serviço sanitário, vai ficar só esse, que está sobrevivendo há 92 anos.

Roberto Castro: Professora Patrícia, essa ideia de prevenção, que nasceu lá com o professor Paula Souza, continua presente hoje na Faculdade de Saúde Pública?

Patrícia Rondó: Eu acho que o papel da Faculdade de Saúde Pública é prevenir e tratar. Os nossos serviços de saúde, a meu ver, deveriam trabalhar mais na área de prevenção, mas o que nós observamos na prática é que a maior parte dos indivíduos, quando chegam ao serviço de saúde, à unidade básica, vêm procurando atendimento para um problema já existente. Então acaba sobrando pouco espaço para a prevenção. Eu posso até ilustrar mais ou menos isso que a gente está discutindo, com um caso ocorrido no Centro de Saúde, ainda quando eu estava na sua direção, de um profissional geriatra que estava atendendo uma senhora com mais de 70 anos. Ele perguntou: “Qual a queixa da senhora?”. E ela disse: “Doutor, eu estou ótima, estou muito bem, não tenho problema nenhum e vim aqui pra saber como continuar assim”. O médico ficou assustado, porque não é o usual, mas ela está certa. Esse serviço foi desenhado e concebido para principalmente prevenir os problemas. Atenção básica é prevenção de problemas e, logicamente, tratar os problemas existentes. Quando a gente fala em prevenção, normalmente se pensa: “Ah, eu não tenho problema nenhum”, mas nós podemos prevenir complicações de diabetes, problemas vasculares que podem ser decorrentes do diabetes. Existe esse tipo de prevenção também. Prevenir sequelas de um AVC, prevenir problemas consequentes a um infarto, e por aí vai. É o nosso papel, já que estamos nessa região de São Paulo em que a prevalência de problemas crônicos é alta, de doenças crônicas não transmissíveis, que têm a ver com a questão da transição epidemiológica, com o aumento do número de pessoas com idade acima de 60 anos. Os problemas que surgem ali são problemas mais crônicos. Então, os profissionais têm que estar atentos a isso, de como prevenir sequelas em pessoas que já têm problema crônico. Quando a gente fala de prevenção também é nesse sentido de prevenir as complicações.

Roberto Castro: Então as pessoas tinham que ter a consciência de buscar o Centro de Saúde para fazer a prevenção. Mas o Centro de Saúde estaria preparado?

Patrícia Rondó: Eu acho que temos vários tipos de problemas. Nós atendemos uma população que é muito grande, são 100 mil habitantes, então a procura é alta por aquele serviço de saúde, mas é nosso papel realmente atuar nesse sentido. E uma das questões essenciais, de novo, é a importância da comunidade, dos usuários se manifestarem. Eu acho que os serviços de saúde têm que ter um espaço para ouvir a comunidade, senão fica uma coisa unilateral, com o profissional de saúde achando que está trabalhando adequadamente e, de repente, não está atendendo realmente as necessidades da população. E quando eu falo em necessidades não estou só falando em problema físico, mas também mental e social. A tendência, geralmente, de quando a gente é recém-formado, de quando a gente sai da graduação, é de falar muito. Depois, com a idade, a gente começa a ouvir para realmente se adequar à realidade da população. Como a do indivíduo que mora em favela, com esgoto a céu aberto, enfim, com uma série de situações que fazem com que o profissional tenha que se adequar. Ao tipo de alimento que ele pode adquirir, ao ambiente que ele vive… Até para poder direcionar o tratamento desse indivíduo e a prevenção de uma maneira mais adequada.

Roberto Castro: Mariana, você estava me falando também sobre esse trabalho da Faculdade de Saúde Pública de prevenção de tuberculose nos presídios. Pode falar sobre isso?

Mariana Dolci: Na verdade a faculdade desde sempre trabalha com a questão da tuberculose e assim desenvolve um trabalho muito importante, que é um estudo da transmissão de tuberculose dentro dos presídios. Uma vez que você tem um indivíduo doente dentro da prisão, existe uma série de problemas por conta de ser uma doença transmissível. Por muitos anos, os exames para detecção de tuberculose eram feitos na Faculdade de Saúde Pública, no laboratório que nós temos lá até hoje. Porque, por incrível que pareça, essa é uma doença que nunca desapareceu, ainda é uma doença que contamina muitas pessoas, mas não há conhecimento sobre isso. Inclusive, sobre o modo de se tratar tuberculose, porque é um tratamento demorado, que requer paciência, em que você passa muito mal, mas tem que tratar, e as pessoas começam a tomar o remédio e, quando começam a se sentir um pouquinho melhor, largam o tratamento. Hoje existem umas campanhas publicitárias falando da tuberculose, principalmente porque teve gente famosa com tuberculose: o Thiago Silva, da seleção brasileira, um cantor… A gente tem que divulgar, mas acredito que a divulgação ainda é pequena sobre a doença. É uma doença que mata; não só mata, como também é transmitida quando você não é tratado. Também temos a hanseníase e outras doenças que o Centro de Saúde trabalha na questão de divulgação e prevenção. Porque, quando você começa a ter os sintomas, deve procurar o serviço de saúde para ver qual doença tem. Muitas vezes, se for uma doença transmissível, a gente tem que tomar as precauções para isolar esse indivíduo.

Roberto Castro: Quer acrescentar alguma coisa, professora?

Patrícia Rondó: Eu acho que é importante a dermatologia sanitária do nosso Centro de Saúde. Ela é referência para o Brasil inteiro. Todos os anos recebemos estudantes de várias faculdades de medicina que fazem estágio no nosso Centro de Saúde, no serviço de dermatologia sanitária. Ele atua principalmente na prevenção e tratamento de doenças sexualmente transmissíveis e também da hanseníase. É considerado modelo e tem um programa muito interessante para prevenção de câncer de pele, que a gente está observando um aumento da prevalência no país.

Mariana Dolci: A dermatologia sanitária foi um ramo de fundamental importância para a saúde pública, porque os médicos que trabalhavam com dermatologia na Faculdade de Saúde Pública sabiam que tratavam de assuntos que eram tabu para a sociedade, como a questão das doenças sexualmente transmissíveis. O que eles faziam, então? Eles iam até as pessoas que estavam doentes. Por exemplo: eles iam ao encontro das prostitutas no centro de São Paulo, porque sabiam que essas mulheres muito provavelmente estariam contaminadas, mas, por conta do preconceito, tinham receio de aparecer no Centro de Saúde e de repente sofrer algum tipo de represália. Então os médicos marcavam, às vezes à noite ou de madrugada, e iam até essas pessoas para fazer a detecção dessas doenças e também ajudar no tratamento, não só das prostitutas, de outras pessoas também. Porque, como até hoje ainda, é um problema tratar desses assuntos, eles iam ao encontro dessas pessoas. A dermatologia sanitária foi e ainda é fundamental no tratamento das doenças de pele e sexualmente transmissíveis.

Roberto Castro: Professora Patrícia, o que a senhora pode nos dizer sobre a pós-graduação da Faculdade de Saúde Pública?

Patrícia Rondó: A Faculdade de Saúde Pública, desde o tempo do seu fundador, o professor Geraldo Horácio de Paula Souza, na década de 20, publicou inúmeros artigos. Ela tem esse papel e está muito direcionada para a pesquisa, para o ensino e extensão. Em relação à pós-graduação em saúde pública, ela foi criada em 1970  e foi pioneira no país nessa área, tendo formado praticamente quase 2 mil indivíduos mestres, mais de mil doutores, sendo que houve, e ainda ocorre, uma procura de profissionais de outros países pelos cursos de pós-graduação. Pelos dados que nós temos, 110 profissionais de outros países vieram fazer a pós-graduação na Faculdade de Saúde Pública. Essa foi a primeira pós-graduação em saúde pública. Hoje nós temos outros programas de pós-graduação: o programa de nutrição em saúde pública, saúde global e sustentabilidade, epidemiologia, entomologia e um mestrado profissional de vigilância em saúde pública e de ambiente, saúde e sustentabilidade. Atualmente são esses os programas que nós temos na pós-graduação.

Roberto Castro: Mariana, houve uma mudança de perfil do aluno da Faculdade de Saúde Pública, que antes era mais voltada para sanitaristas e hoje a gente vê jornalistas, engenheiros e profissionais de várias áreas. É isso mesmo?

Mariana Dolci: Como o Instituto de Higiene nasceu como um braço da Faculdade de Medicina, nos primeiros anos realmente eram cursos que estavam mais voltados para a área médica. Formavam-se médicos, enfermeiros, também engenheiros sanitários, que eram os que trabalhavam em conjunto com essas pessoas. Mas desde sempre, apesar de ter um caráter médico, já se formavam profissionais diferentes, de outras áreas. Hoje o perfil é muito abrangente. Qualquer profissional pode fazer o curso na Faculdade de Saúde Pública, desde que tenha interesse. Aliás, é muito interessante que essas visões cheguem até nós, para que a gente possa contribuir de alguma forma para a sociedade. O Paula Souza, apesar de farmacêutico e médico, tinha dupla formação, e ele dizia desde sempre, em seus textos, que a faculdade tinha que abrir mais e não só ficar formando médicos especialistas em saúde pública, os chamados sanitaristas, mas outros profissionais, para que pudessem contribuir com a nova visão de saúde pública que ele trouxe.

Roberto Castro: Isso fortalece o caráter interdisciplinar da unidade. A faculdade também tem riquezas entre o acervo dela, uma delas é a Coleção Entomológica. O que é essa coleção, Mariana?

Mariana Dolci: A Coleção Entomológica de Referência está no Laboratório de Entomologia, que agora, em 2017, completou 80 anos. A chamada entomologia médica, que então foi uma junção de saberes, entre o saber entomológico, bastante importante no estudo dos insetos e das espécies, com a visão de saúde pública, hoje é fundamental para estudos das doenças que estão na moda, como dengue, zica, chicungunha, febre amarela, malária, leishmaniose. Essas doenças, que então eram epidemias, precisavam dos estudos sobre a questão de detectar os vetores da doença, como ela é transmitida, a quem se transmite. E, por incrível que pareça, apesar de todo esse conhecimento, ainda hoje existe um desconhecimento também muito grande sobre esse assunto. Exemplo disso é quando a gente lê no jornal que as pessoas matam os macacos achando que eles são os transmissores da febre amarela, quando na verdade eles são tão vítimas como nós. Então a Coleção Entomológica… A gente possui dentro da Faculdade de Saúde Pública um museu, o Museu Forattini, em homenagem a um dos fundadores da entomologia médica, Oswaldo Paulo Foratinni, que trabalhou em colaboração com outro professor bastante importante, chamado John Lane. Esse museu é aberto à visitação, desde que você marque a visita. Ele fica dentro da faculdade e lá você pode ver algumas espécies, você pode ver um pouco do trabalho da entomologia, que ainda é desconhecida do público. O entomologista é um profissional fundamental para a visão de saúde pública e para a prevenção de doenças, porém, é um profissional ainda bastante desconhecido. Então fica o convite para as pessoas irem visitar o Museu Forattini e aprender um pouco sobre esse assunto.

Roberto Castro: Professora Patrícia, a Faculdade de Saúde Pública é conhecida também pela alta produção científica. Tem uma revista, Revista de Saúde Pública, muito importante na área. Pode comentar esse tema, por favor?

Patrícia Rondó: Eu acho que nossa Revista de Saúde Pública, que completou 50 anos já, é uma revista que, na área de saúde, é a que possui o maior impacto entre as revistas científicas brasileiras. E a Faculdade de Saúde Pública, entre as unidades da USP, é a que edita o maior número de revistas. Isso é um ganho muito grande para a faculdade, mostrando a importância da pesquisa dentro da instituição.

Roberto Castro: Mariana, o que é o projeto Faculdade de Saúde Pública Sem Muros?

Mariana Dolci: É um projeto da comissão de preparação para o centenário da faculdade, justamente sobre o que a gente vem conversando. Desde agosto de 2017, a gente propôs palestras semanais, nas quartas-feiras, tratando de temas de saúde pública de interesse da população. A ideia de chamar de “Faculdade de Saúde Pública Sem Muros” justamente foi porque é um duplo convite: para que as pessoas conheçam a Faculdade de Saúde Pública e seu trabalho e também possam ouvir profissionais da área falando de temas de interesse. Nós já tivemos palestras sobre água de qualidade, sobre diabetes, sobre câncer. As últimas palestras serão sobre questões de espiritualidade, saúde… são grandes temas que vão continuar. Nós vamos continuar com o projeto e é um convite para que as pessoas venham até a faculdade nessas quartas-feiras para assistir essas palestras, porque é importante que a comunidade saiba sobre esses assuntos. Esse é um projeto que integra a parte das nossas comemorações do centenário.

Roberto Castro: Neste programa, que comemora os 100 anos da Faculdade de Saúde Pública, não poderia deixar de pedir para as senhoras comentarem os nomes de grandes professores da história da Faculdade de Saúde Pública, começando, claro, pelo fundador, o professor Geraldo Horácio Paula Souza. Mas temos vários outros: o professor Oswaldo Forattini, o professor Ruy Laurenti. Queria que as senhoras lembrassem a contribuição desses grandes professores.

Mariana Dolci: A gente teria que falar o nome de todos os professores, porque todos são importantes, nenhum deixa de ser importante na produção de conhecimento. Nós tivemos os ícones, o próprio Paula Souza, que já era de família importante, porque o pai dele é um dos fundadores da Escola Politécnica; o Francisco Borges Vieira, que também foi a Baltimore para estudar e trazer as ideias para fundar o instituto… Nessa primeira leva de professores, também o John Lane, que eu mencionei na questão da entomologia; o Alfredo Viegas, que era dentista; o Pedro Egídio, na área de estatística, que é outra área na qual a faculdade contribui muito com os dados para os ministérios; o Lucas de Assunção, que também trabalhava na área da entomologia. Nós tivemos, antes de o professor Paula Souza assumir, dois professores americanos, que foram diretores do Instituto de Higiene e já trabalhavam com a questão das epidemias, enquanto o Paula Souza se formava em Baltimore. O primeiro diretor foi o Samuel Darling. Enfim, são inúmeros… O professor Ruy Laurenti, grande epidemiologista, que a gente perdeu recentemente e que liderou, então, a questão do atestado de óbito e também o código, a CID, que hoje é tão usual e que ele foi responsável pela tradução em língua portuguesa. O professor Oswaldo Forattini, um dos responsáveis também por mostrar para todo mundo como era feita a transmissão da dengue. Hoje seus estudos continuam lá no laboratório de entomologia, apesar de ele ser falecido. Em todas as áreas nós tivemos grandes nomes, que integraram ministérios ou secretarias, como Rodolfo Mascarenhas, Walter Leser… São nomes que a gente não vai lembrar todos, mas são todos muitos importantes.

Patrícia Rondó: Eu acho que o professor Walter Belda, um dos organizadores do serviço de dermatologia sanitária e um dermatologista de renome; o professor Edmundo Juarez, que contribuiu muito com o software na área de vigilância epidemiológica, e que inclusive foi adotado pelo Ministério da Saúde; o professor Gandra, o responsável pelo programa de suplementação nacional com iodo. São tantos… mas, talvez, sejam esses os mais importantes.

 

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