Ali visto pelo nosso campeão Miguel de Oliveira

Miguel de Oliveira conquistou para o Brasil em 1975 o título mundial dos meio-médios-ligeiros, ao derrotar o campeão europeu, o espanhol José Durán.

Por - Editorias: Atualidades
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Miguel de Oliveira, campeão do título mundial dos meio-médios-ligeiros em 1975 - Foto: Divulgação
Miguel de Oliveira, campeão do título mundial dos meio-médios-ligeiros em 1975 – Foto: Divulgação

Ontem, um dia antes do enterro de Muhammad Ali, estive na academia Cia. Athletica Kansas, no Brooklin, para entrevistar um dos nossos maiores boxeadores, Miguel de Oliveira, que em 1975 conquistou para o Brasil o título mundial dos meio-médios-ligeiros, ao derrotar o campeão europeu, o espanhol José Durán.

Ele não aparenta os 68 anos que ostenta  – nasceu na cidade paulista de São Manuel em 30 de setembro de 1947, onde possui sua própria academia de boxe. Sua forma física é privilegiada. Ele vai me mostrando com desenvoltura a academia, imensa, enquanto andamos de uma a outra sala com aparelhos de exercícios. Chegamos, por fim, ao 2º andar, onde está sua sala de aulas de boxe.

Não me animo a dizer a ele que é a primeira vez que entro numa academia de boxe, mas, puxa vida, assisto a lutas desde, pelo menos, os cinco anos de idade. Me passa pela cabeça naquele momento que minha mãe quase chorou de desgosto, em 1965, quando o mito Éder Jofre foi lutar em Tókio contra Harada e perdeu, num resultado muito, muito contestado. Minha mãe herdou do pai – de cinco filhas,

ela era a do meio – o gosto pelo boxe, que ouviam pelo rádio. Lembro que ela, naquele dia, ficou inconsolável.

Pois bem, o ringue se ergue no meio da enorme sala e quando pergunto a Miguel o que ele sentia ao subir no tablado, ele me responde de pronto: “A sensação é indefinível. Quem disser que não está tenso lá em cima, no tablado, nunca subiu num ringue. Todos sentem. Até o Ali sentia”. E aí começamos nossa conversa de fato.

Conversa que foi e voltou várias vezes, tratando de Muhammad Ali, de sua própria carreira como lutador e seu atual trabalho como professor.  Miguel é uma pessoa serena, atenta e atenciosa. Sua voz é grave e sua cabeça é raspada. Leia a seguir os trechos principais da entrevista.

O que leva uma pessoa ao boxe?

A necessidade. Veja você, as pessoas que frequentam essa academia são de uma faixa econômica A +. Elas não vêm aqui, portanto, esperando que eu as treine para uma luta ou um campeonato. Aqui fazemos boxe educativo, recreativo. Não é o caso dos lutadores, de forma geral. Respondendo sua pergunta: o que leva uma pessoa a lutar boxe é uma profunda necessidade, que vem das entranhas. O boxe não vem de fora para dentro. Não, ele vem de dentro para fora. Até nisso, o Ali foi genial. Ele começou a treinar aos doze anos e, veja bem, ele conquistou o ouro olímpico, em Roma, aos dezoito anos. Você sabe o que é isso? É quase inimaginável.

Mas no caso do Ali, aquele foi um furacão em forma humana.  Por que, então?

Quando o Cassius era criança, ele ficou tremendamente indignado um dia em que ele estava andando na cidade com a mãe e não pôde beber água num bebedouro, porque aquele bebedouro só as pessoas brancas podiam usar. Aquilo para ele foi muito humilhante. Agora, some as humilhações, desgostos e frustrações na vida da pessoa, numa cabeça privilegiada como a dele para o boxe, isso vai sendo reprimido até que a pessoa tem que pôr tudo para fora.

Daí a fanfarronice? Mas só aconteceu com ele.

Isso, agora, a fanfarronice muito pior era a que ele fazia durante a luta, com as provocações o tempo todo. Na luta contra o Foreman, ele ficava falando que a mãe o acordava com pancadas mais fortes que o soco do Foreman. Falar uma coisa dessas para o sujeito considerado o mais forte do mundo, é de uma audácia sem limite. Ele vivia repetindo aquela máxima, que ficou famosa: “Flutuo feito borboleta e ferroo como abelha”. Aquilo era o máximo.

Ontem eu comentei com você ao telefone que ele tinha apanhado muito do Foreman e você me respondeu de imediato que tinha apanhado nada, que ele ia para a corda, fechava a guarda ou aplicava um clinch. E que aí ele esperou o Foreman cansar de verdade e o jogou na lona. Simples assim. Revi o tape da luta e vi que você tem razão.

Mas foi o que aconteceu, o Foreman era só força, inteligência e técnica quem tinha era o Ali.

O Ali fez o público se bandear para o lado dele e gritava “Ali, Ali” o tempo todo.

Foi. Ele aprendeu algumas palavras na língua deles, alguma coisa como “mate ele, Ali”. (risos) Foi engraçado. Agora, teve também as três lutas contra o Frazier.

A primeira eu vi e sofri muito com a derrota dele.

Na primeira, de 71, ele apanhou mesmo. Na de 74 ele venceu e a última, de 75 foi a pior. Imagine dois lutadores em pé no décimo quarto round de uma luta de quinze assaltos. Os dois exaustos cambaleando no tablado. No décimo quinto round o Frazier não voltou do córner. Não conseguiu se levantar do banco! Sobre essa luta, o Ali chegou a afirmar que foi o mais perto da morte que ele chegou. Para um sujeito como ele dizer uma coisa dessas, dá pra imaginar o que aconteceu.

E o Tyson, que também era intratável?

Não, esse era outro caso. Por que você acha que as lutas dele acabavam tão rápido? Porque ele não suportava muito tempo em cima do ringue. Quando o Evander Holyfield esticou a luta, o desespero do Tyson foi tão grande, que ele arrancou a orelha do sujeito com uma mordida. Ele ficou desesperado!

Você foi campeão mundial em 1975, certo?

Sim, mas já tinha tentado outras duas vezes. Em 1973 lutei pelo título em Tókio, contra Koichi Wajima. Eu o joguei no chão no primeiro round. Fomos até o décimo quinto. Os juízes deram a vitória para ele. Tudo bem. Havia 11 mil pessoas assistindo à luta.

No ano seguinte, voltei para fazer a segunda luta contra ele. E aí, veja você, público japonês (maior, 15 mil pessoas), jurados japoneses e juiz japonês. Outra derrota. No ano seguinte eu me habilitei a outro combate contra ele. Só que aí eu não concordei com outra luta em Tókio. Wajima disse que não lutaria fora do Japão.

E o que aconteceu?

Aconteceu que tiraram o cinturão dele e o título ficou vago. E então a WBC resolveu promover uma luta em Monte Carlo entre eu e o campeão europeu, José Duran para definir o título. Acontece que na primeira fila, atrás do meu córner estava o príncipe Rainier, de Mônaco. Atrás do outro córner estava o filho dele, Albert II. E também vi os atores Jean-Paul Belmondo e Alain Delon, que depois da luta foi ao vestiário, me cumprimentar pela vitória. Preciso dizer que eu bati muito no Duran, no combate todo. Lá pelas tantas, meu técnico me disse o seguinte: “Miguel, esse é o décimo terceiro round. Agora é só manter o ritmo, porque a vitória está assegurada”. Sabe o que respondi a ele? “Mas já é o décimo terceiro?” (risos). Eu nem tinha visto o tempo passar. Nessa luta havia 5 mil pessoas no ginásio.

Uma festa, então, com tudo a que você tinha direito.

Calma. Naquela mesma semana haveria a corrida de Fórmula 1 em Mônaco. A luta foi na quarta-feira à noite, no mesmo dia em que os carros chegaram. Ou seja, trânsito interditado. Acabou a luta e meu empresário veio me perguntar: o que vamos fazer agora? Eu disse: vocês eu não sei, eu quero é jantar, estou faminto. Aí saímos andando pela cidade eu e todo o meu pessoal. Chegamos a um restaurante chique e sem reserva nos disseram que não conseguiríamos mesa. Aí o promotor da luta chamou o mâitre e lhe falou que o recém campeão mundial de boxe estava sendo impedido de entrar. O sujeito ficou espantado, nos disse para esperar um pouco e desapareceu atrás do biombo que ficava quase  na porta. Esperamos quase meia hora e já estávamos desistindo, quando nos deixaram entrar. Fui ovacionado de pé pelo restaurante inteiro, imagine minha surpresa. Tinham levado meia hora para aprontarem a festa. E aqui – que deram apenas algumas linhas de jornal antes da luta – me levaram em carro de bombeiro de Congonhas até a minha casa, em Osasco. Morei a vida toda em Osasco e aquilo foi inesquecível.

 

 

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