Vez e hora da Faculdade de Filosofia

Paulo Martins – FFLCH

Por - Editorias: Artigos
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Paulo Martins é professor livre docente e vice diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP) - Foto: Divulgação
Paulo Martins é professor livre- docente e vice- diretor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP) – Foto: Divulgação

Quae uolumus et credimus libenter

Júlio César, De bello ciuili 2.27.2

 

O mês de outubro de 2016 marca o início de uma nova gestão da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Fundada em 1934, alma mater da USP, nossa faculdade é tão grande quanto são os desafios de gestão, inerentes à sua complexidade.

Seus 12.176 alunos (Graduação e Pós-Graduação), 461 docentes e 330 funcionários técnico-administrativos são responsáveis diretos pelo exercício de um trabalho acadêmico crítico e sério que historicamente nos caracteriza e nos diferencia no concurso das faculdades de mesmo cerne no Brasil e no mundo.

O último Ranking QS Top Universities (2016) aponta acentuada elevação do patamar da USP. Sua posição em 2015 era a de 143o, e em 2016 passamos a ocupar o 120o lugar. Esse mesmo instrumento indica que habilitações/cursos da FFLCH, bem além da posição geral da Universidade, ocupam lugar de destaque entre os 50 melhores cursos no mundo, a saber, Letras (Linguística e Línguas Estrangeiras), História, Geografia, Filosofia, Ciências Sociais (Antropologia, Sociologia e Ciência Política), o que nos torna um centro de excelência na própria USP, portanto responsável essencial por seu desempenho internacional.

A Comissão de Cooperação Internacional (CCint) da faculdade apresenta outro dado interessante que, em certa medida, corrobora nossa posição internacional, a saber, 20,51% dos alunos intercambistas (297/1.448 alunos) que procuraram a USP no último ano letivo, optaram por cursar a Faculdade de Filosofia; contudo uma pequena distorção ocorre nesse dado, já que apenas 4,43% dos alunos intercambistas da USP (137/3.089 alunos) no mesmo período são oriundos da nossa unidade.

Sob a perspectiva da avaliação Capes, entre os cursos de Pós-Graduação da faculdade, somos responsáveis por cinco programas com nota máxima (sete) – Filosofia, Linguística, Sociologia, Ciência Política e Geografia Humana –, por três programas avaliados com nota seis (Literatura Brasileira, Antropologia Social, História Social), por cinco programas com nota cinco (Filologia e Língua Portuguesa, Estudos Comparados de Literatura de Língua Portuguesa, Geografia Física, Língua e Literatura Alemã, Teoria Literária e Literatura Comparada) e por dez programas cuja nota é quatro.

Tais dados denotam a importância da faculdade no âmbito da produção de conhecimento e na nucleação de pessoal de nível superior no Brasil, bem como sua inserção em contexto mundial.

O último Ranking QS Top Universities (2016) aponta acentuada elevação do patamar da USP. Sua posição em 2015 era a de 143o, e em 2016 passamos a ocupar o 120o lugar.

Assim é certo dizer que nossa atividade de pesquisa é muito bem avaliada, em que pese, entretanto, certa tendência em âmbito nacional de minimizar a importância de nossos cursos de Pós-Graduação em nome de uma suposta distribuição “democrática e descentralizada de recursos”, ou tendo em vista uma fictícia “ditadura científica da USP”, desconsiderando-se nesse caso dados concretos concernentes à mesma produção científica nacional que apontam a USP como a principal instituição de pesquisa de nosso país, afinal é responsável por metade de toda a produção científica do Estado de São Paulo e por mais de 25% da brasileira.

A avaliação atual da Capes, a meu ver, não leva em consideração, entre outras questões imperiosas, o caráter, amiúde, exclusivo nacionalmente de parcela dos nossos programas. Explico: muitos de nossos programas de pós existem, como área de conhecimento, apenas na USP e, ainda assim, não são tão bem avaliados quanto desejaríamos ou quanto uma lógica razoável deveria determinar.

Uma questão importante a ser ponderada também é o descompasso entre as avaliações internacionais e a avaliação da Capes, dado que, muita vez, entram em franca contradição. De acordo com o instrumento de avaliação externa aqui já apresentado (QS), o curso de Odontologia da USP é o nono colocado, no entanto, entre seus dez programas de Pós-Graduação nenhum tem nota máxima Capes e apenas um é considerado de excelência com nota 6.

Além de sua tradicional capacidade formadora do pensamento em Humanidades no Brasil e na América Latina, a Faculdade de Filosofia possui uma acentuada e digna importância social, uma vez que é responsável por 21,96% das vagas oferecidas em cursos noturnos (686/3.123 vagas), via Fuvest, e 29,53% dessas vagas oferecidas por intermédio do SiSU – Sistema de Seleção Unificada do MEC (171/579 vagas).

Nesse sentido, é inequívoco dizer que somos a unidade mais inclusiva da USP e, portanto, efetivamente cumprimos um papel social relevante. Porém, em momento algum, dado o seu caráter inclusivo, abrimos mão do mérito ou da qualidade acadêmica. Ainda sob essa perspectiva, a Faculdade de Filosofia também ampliou seu sistema de cotas étnico-raciais e sociais, dado que até 2015 as vagas oferecidas para alunos de baixa renda, para os oriundos de escolas públicas e para os autodeclarados PPI (pretos, pardos e indígenas) eram de 20% e em 2016 passaram a ser de 30% para os ingressantes via SiSU já para o ano de 2017.

Assim é certo dizer que nossa atividade de pesquisa é muito bem avaliada, em que pese, entretanto, certa tendência em âmbito nacional de minimizar a importância de nossos cursos de Pós-Graduação em nome de uma suposta distribuição “democrática e descentralizada de recursos”, ou tendo em vista uma fictícia “ditadura científica da USP”.

A faculdade, não obstante apresente esse quadro alentador quanto às suas inegáveis qualidades, atravessa momentos decisivos de ordem vária, que apontam para nossa dificuldade de financiamento, para a desagregação do corpo social e para um apequenamento de nosso papel crítico na discussão dos problemas que envolvem o País.

Assim, parece-me que a adequação entre aquilo que somos, aquilo a que temos direito histórica e meritoriamente e aquilo que se dissemina levianamente a nosso respeito constitui-se como o maior desafio de nossa gestão acadêmica, de sorte que devemos, parafraseando Júlio César em seu comentário Acerca da Guerra Civil,  “de bom grado acreditar naquilo que desejamos”.

Os anos que sucedem 2013 marcam o início de um quadro orçamentário descendente, determinado pelo panorama recessivo que assola o Brasil por motivação diversa. Contudo, a faculdade, muito antes de ter suas dificuldades quanto ao seu financiamento, atravessou desde sempre importante dificuldade quanto ao seu planejamento de gastos, isto é, ainda que o orçamento destinado a ela seja menor que o necessário se a compararmos com outras unidades de mesma ordem de grandeza como a Escola Politécnica, por exemplo, a faculdade possui uma frágil política de realização orçamentária.

Tal anomalia, por assim dizer, impacta-nos negativamente, já que o orçamento de um ano é baseado nos recursos realizados no ano anterior. Afora essa questão, é digno de ressalva que a FFLCH não possui fundações de apoio, tampouco concorre com recursos advindos da iniciativa privada.

Assim, no quadro de composição orçamentária da Universidade, a faculdade deveria ser contemplada com uma parcela normalizadora a fim de que esta desigualdade orçamentária fosse dirimida. Estes dois ajustes podem, em boa medida, minimizar os efeitos produzidos pelo estado de penúria que faz inclusive degradar seu patrimônio físico – o prédio de História e Geografia é um ícone – e que faz perpetuar limites financeiros impeditivos da valorização da atividade acadêmica.

Por outro viés, devido ao estado político polarizado e de recrudescimento das relações em que a sociedade brasileira se vê imersa, de um lado, e em função da própria estrutura de poder constituída na USP que dificulta o diálogo, de outro lado, a faculdade enfrenta, talvez, seu problema mais sério.

Mais ainda, penso eu, que o orçamentário, já que diz respeito às relações entre os atores que compõem nosso corpo social. A desagregação entre setores ou nos próprios setores transformou aliados históricos em inimigos atávicos. Tal estado de coisas deve ser enfrentado com muita firmeza.

Uma questão importante a ser ponderada também é o descompasso entre as avaliações internacionais e a avaliação da Capes, dado que, muita vez, entram em franca contradição. De acordo com o instrumento de avaliação externa aqui já apresentado (QS), o curso de Odontologia da USP é o nono colocado, no entanto, entre seus dez programas de Pós-Graduação nenhum tem nota máxima Capes e apenas um é considerado de excelência, com nota 6.

Não podemos deixar que nossa histórica vocação para o discurso prolífero e profícuo, para o dissenso sadio, para reafirmação de posições, ceda lugar à intolerância, ao dogmatismo, ao silêncio e ao imobilismo que impossibilita nossa vocação civilizatória e republicana, em que a cosedura de consensos é o único meio capaz de reduzir as distâncias entre posições antagônicas.

Não podemos nos permitir mais viver sob a égide dos tribunais de exceção, em que, apontado o suspeito, imediatamente tem-se um julgamento e, por fim, a decretação da pena sem que seja dado ao adversário amplo direito de expressar seu ponto de vista, no caso, sua defesa.

O maniqueísmo obtuso há que ser substituído por uma valorização constante e intransigente da vivência entre os diferentes. Como diz amiúde Maria Arminda do Nascimento Arruda, nossa diretora, temos de resgatar a política de pares. Na verdade, penso eu, temos de ressuscitar a política em seu sentido estrito em função de nosso bem maior.

Por fim, é importante salientar que, num quadro geral de descrédito das Humanidades, a Faculdade de Filosofia é alvo preferencial, afinal, é centro de referência dessas discussões no Brasil.

Dessa forma, mesmo apresentando dados que a dignificam como instituição, ainda existem pessoas que, sistematicamente, vilipendiam a FFLCH, interna e externamente à USP, alegando um sem-número de problemas – muitos deles, é certo dizer, reais, mas outros tantos absolutamente não verídicos.

Esse juízo de valor visa a limitar o poder que lhe é inerente, visa a apartá-la do cenário das decisões políticas da Universidade e do País, visa a solapar a autoestima de docentes, alunos e funcionários. A autovalorização de nossas atividades e a constante integração com a sociedade são soluções imperiosas para resgatarmos nossa inserção no debate político e recuperarmos nossa condição histórica como formuladores de políticas acadêmicas que seguramente podem elevar ainda mais o nome da Universidade de São Paulo.

Todas essas tarefas que nos impusemos e que foram compreendidas por parcela significativa de colegas são tarefa ingente que exige de nós, gestores, muito mais do que boa vontade. Talvez exija uma dose de ousadia, talvez de força, não sem nos esquecermos de certa dose de “boa fortuna” em seu sentido antigo, a tyché grega, ou de uma boa dose de sorte para nós, pós-modernos.

Entretanto e sobretudo, vale lembrarmos nesse caso as palavras de Virgílio no canto 10 (v. 284) da Eneida: audentis Fortuna iuuat  (“A Fortuna ampara aqueles que ousam”), ou as de Plínio, o Jovem numa epístola do livro 6: fortes Fortuna iuuat  (“A Fortuna ajuda os fortes”). Tenho certeza de que estamos absolutamente preparados para enfrentar tais desafios com coragem, firmeza de propósitos, ética e muito respeito a todos que compõem a comunidade acadêmica, sem deixarmos, é lógico, de ousar e sem deixarmos de lado nossa força e voz, nossa vez e hora.   

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