Uma doença brasileira negligenciada: a mansonelose

Luís Marcelo Aranha Camargo é professor do Instituto de Ciências Biomédicas e coordena o ICB5, em Rondônia

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Luís Marcelo Aranha Camargo – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Mansonella ozzardi é o agente etiológico da mansonelose. Esta espécie de filária descende da M. perstans, provavelmente introduzida na América Central durante a escravidão nos idos de 1500. A distribuição geográfica desse helminto está limitada às Américas Central e do Sul e é transmitido por duas famílias Diptera (Ceratopogonidae e Simuliidae, “mosquito-pólvora” e “borrachudo”, respectivamente), a princípio, entre humanos.

Foi descrito pela primeira vez em 1949 no Brasil no município de Manaus, no Estado do Amazonas, pelos professores da USP Leônidas e Maria Deane. As prevalências ao longo da população ribeirinha da Amazônia (rios Purus, Ituxi, Negro e Solimões) variam de 10% a 70%. Os sintomas da mansonelose em seres humanos têm sido extensivamente estudados e os indivíduos infectados podem apresentar: febre moderada, pernas frias, artralgia, adenite, tontura e cefaleia. Questiona-se a ocorrência de dano ocular (como ocorre com frequência na oncocercose). Até o momento poucos estudos avaliaram o tratamento farmacológico da infecção por M. ozzardi e em nenhum destes foi utilizado um grupo com placebo como controle.

O ICB5/USP, por meio do projeto de pesquisa de pós-doutorado do prof. dr. Sergio de Almeida Basano (pela Universidade Federal de São João del Rei), está estudando a eficácia da ivermectina no tratamento desta filariose amazônica. Para tal, está avaliando o uso de ivermectina e placebo para estudar a redução da microfilaremia in vivo e a ocorrência de efeitos adversos em pacientes portadores de M. ozzardi no município de Lábrea, Amazonas, 700 km de Monte Negro, sede do ICB5/USP.

Os sintomas da mansonelose em seres humanos têm sido extensivamente estudados e os indivíduos infectados podem apresentar: febre moderada, pernas frias, artralgia, adenite, tontura e cefaleia

Foram selecionados portadores da filariose distribuídos aleatoriamente em dois grupos de 20 pessoas cada: um recebeu a ivermectina e outro recebeu o placebo (fármaco inócuo). Esses grupos foram acompanhados por dez dias e avaliados, antes e depois do tratamento, em relação à redução de parasitas no sangue, alterações bioquímicas laboratoriais dos rins, fígado e sangue e a ocorrência de efeitos colaterais clínicos.

A equipe do ICB5/USP, em parceria com a Prefeitura Municipal de Lábrea (Amazonas) e a Fiocruz/Rondônia, ficou ao longo de dez dias navegando pelo Rio Purus. A Prefeitura forneceu o barco-hospital, tripulação e alimentação e o ICB5/USP, além de testar o fármaco, prestou assistência médica à população local, estimada em aproximadamente 300 pessoas. Os habitantes locais receberam assistência médica, realização de preventivo de câncer de colo uterino, avaliação oftalmológica, doação de óculos para presbiopia (em parceria com o Instituto da Visão da Unifesp), avaliação para a ocorrência de diabete, hipertensão arterial, dislipidemia, hanseníase e outras dermatoses, HIV, hepatites B e C, sífilis, anemia, parasitoses intestinais e avaliação antropométrica (para avaliar obesidade). Alunos de iniciação científica e pós-graduação acompanharam as atividades.

A eventual eficácia do fármaco, parcialmente aprovado em outro estudo preliminar, levado a cabo em 2013 pelo prof. Sergio Basano (tese de doutorado pela USP), poderá abrir portas para uma potencial estratégia de controle desta parasitose que acomete boa parte de uma população desassistida e longe dos centros de assistência à saúde.

Seria o tratamento em massa, como se faz com a oncocercose (Onchocerca volvulus, que ocorre em Roraima/Venezuela), eficaz, uma vez que o controle do “borrachudo”, inseto silvestre, seria impossível? São questionamentos, entre outros, que se abrem após a realização deste estudo.

Outra questão que chama a atenção é que a endemia não ocorre em Rondônia (sede do ICB5/USP), muito embora os vetores (“borrachudos”) sejam da mesma espécie no Amazonas e Rondônia e o rio Purus (Amazonas) diste apenas em média 200 km do Rio Madeira (Rondônia). O prof. Basano já examinou 7.000 ribeirinhos (rios Madeira, Ji-Paraná, Mamoré e Guaporé)  e 2.500 espécimes de “borrachudo” e não encontrou nenhum parasito.

Qual o fator determinante para a ocorrência da endemia no Amazonas e não em Rondônia?  Será apenas uma questão de tempo? Será que em alguns anos chegará às terras rondonienses? Será que há uma falta de adaptação do vetor (”borrachudo”) rondoniense em relação ao amazonense? Falta hospedeiro humano suficiente em Rondônia para que ocorra a transmissão? Acredita-se, até agora, que haja apenas hospedeiros humanos envolvidos no ciclo biológico do parasito. Será? Por que não outros primatas? Há outros fármacos mais eficazes e/ou mais baratos que a ivermectina?

Como se vê, muita vezes a ciência gera mais questionamentos que respostas. Porém, existe algo mais instigante que novos questionamentos? Que novas ideias? Assim roda a ciência, assim roda o ICB5/USP na Amazônia.

 

 

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