Uma cidade que as histórias vão desenhando

Alecsandra Matias – ECA

Por - Editorias: Artigos
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Uma cidade desenhada por imigrantes - Foto: Alecsandra Matias
Uma cidade desenhada por imigrantes – Foto: Alecsandra Matias

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Por Alecsandra Matias
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Inicialmente um triângulo, que saltou para além do Vale Anhangabaú e criou um reticulado (…). Depois, com os primeiros bairros modernos, Pacaembu e Jardins, criou-se o oitavado (…). E depois todos esses padrões, com suas anomalias, se projetaram para uma névoa de bairros periféricos que substituíram os subúrbios modestos e bucólicos da época anterior a 1954. De repente, esse sistema de loteamentos populares se amplia; se desdobra e vem uma estrutura nebular no entorno do tentacular.
Aziz Ab’Saber

A cartografia de São Paulo é mediada por muitos desenhos, como lembra Aziz Ab’Saber, no início triangular; depois reticulado; oitavado e, hoje nebular. Todos esses desenhos, delimitados por monumentos, bens patrimoniais e determinantes históricos, constituíram a cidade contemporânea. Tal como um palimpsesto esses lugares de memória agregam o novo, o antigo e as perspectivas vindouras; são marcas de pertencimento do espaço urbano que nestes 463 anos de fundação da cidade evocam indagações e reflexões. Ao tangenciar esses questionamentos, pergunta-se: como desvelar o triângulo histórico e as demais formas da cidade, reconhecendo as memórias que sobrevivem no jogo das relações de poder que existem no espaço urbano? Reconstituir essas memórias parece ser um caminho possível através do mapeamento dos principais monumentos que ainda hoje guardam os desenhos da cidade.

Criado em 25 de janeiro de 1554, a partir da construção do Colégio dos Jesuítas, o povoamento São Paulo tem como principal fator o sítio geográfico – uma elevação estratégica, colinas entre os cursos dos rios que levam ao interior, confirmando o local como caminho mais eficiente para entrar nos domínios do sertão e das minas de ouro. A cidade, nascida ao redor do colégio jesuítico, cresce balizada pelas construções religiosas (São Francisco, São Bento, Carmo e do Colégio) e sobre o Espigão Central, o chamado Triângulo Histórico.

A tradição da invocação de Nossa Senhora da Luz data do século 16 e fornece as condições para as edificações centrais da cidade. O local é, originalmente, chamado de Campo do Guaré, caminho de Santana, às margens do Rio Anhembi. Nesse lugar, se constitui o bairro da Luz e seu primeiro monumento, o convento da Luz, maior testemunho arquitetônico e religioso remanescente do século 17. O bairro adquire nova configuração em meados do século 19, mesmo período, no qual a cidade de barro recebe suas primeiras edificações em tijolos, técnica introduzida pelos ingleses, a partir da construção de estações das estradas de ferro em 1865. A influência dos ingleses na cidade está associada à via férrea e à Companhia City.

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Estação da Luz – milhares de pessoas circulam pela estação todos os dias - Foto: Gisele Falcari Ramos da Silva
Estação da Luz – milhares de pessoas circulam pela estação todos os dias – Foto: Gisele Falcari Ramos da Silva

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Estação da Luz: porta de entrada

A via férrea The São Paulo Railway Brazilian Limited, conhecida como a Inglesa, inicia os trabalhos em 1860, consegue ligar Santos à capital, em 1865, e atinge Jundiaí no ano seguinte. A Estação da Luz transforma-se na “porta de entrada da cidade”. Ao longo da via férrea formam-se novos bairros e instalações fabris instalados ao longo do eixo leste-oeste da cidade, pouco acima das várzeas alagáveis do Tietê (o desenho reticulado se esboça nesse período). O “boom” da imigração traz gente de diferentes costumes. Ao redor da estação surge um novo centro comercial e, em torno da Sorocabana, o bairro residencial aristocrático dos Campos Elísios.

Vista Interna da Estação da Luz – Foto: Gisele Falcari Ramos da Silva
Vista Interna da Estação da Luz – Foto: Gisele Falcari Ramos da Silva

A Estação da Luz,  com as edificações do Museu de Arte Sacra (convento da Luz), da Pinacoteca do Estado de São Paulo (antiga Escola de Belas Artes), Parque da Luz (antigo Jardim Botânico), da Sala São Paulo, Estação Pinacoteca (ambas localizadas em antigos escritórios da Estação Sorocabana e que nas décadas de 1960 e 1970 abrigaram o Deops – Departamento Estadual de Ordem Política e Social de São Paulo) e do Museu da Língua Portuguesa (em dependências da própria Estação da Luz e que hoje passa por recuperação depois de um trágico incêndio no final de 2015), formam, atualmente, o Complexo da Luz – uma aglomeração de aparelhos culturais que está sendo, progressivamente, revitalizada e revigorada pela frequência de milhares de pessoas ao dia.

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Estação da Luz: porta de entrada da cidade - Foto: Alecsandra Matias
Estação da Luz: porta de entrada da cidade – Foto: Alecsandra Matias

 

Do antigo arraial à capital do café

A virada do século 19 para o século 20 marca a transição do regime imperial para o republicano: a República proporciona descentralização política com maior autonomia regional. À época, São Paulo se destaca no país por ter iniciado, em sequência ao ciclo econômico do café, o ciclo industrial. Bairros novos, como os Jardins e o Pacaembu trazem o desenho oitavado da cidade. A cafeicultura altera a passagem do antigo arraial paulistano, de sertanista para a capital do café, com transformações dos lampiões a gás para a energia elétrica dos canadenses, novos bondes e os trilhos da estrada de ferro.

A implantação das estradas de ferro e a ligação com o porto de Santos até o interior facilitam a chegada das levas de imigrantes até a Hospedaria dos Imigrantes (hoje, convertida, significativamente, em Museu do Imigrante), em São Paulo. A Hospedaria dos Imigrantes é construída no bairro do Brás, em 1887, porque nesse local cruzam-se os trilhos das duas ferrovias que servem à cidade: a antiga Central do Brasil, que vem do Rio de Janeiro, onde desembarcam muitos imigrantes, e a São Paulo Railway, que vem de Santos. Da Hospedaria seguem para as fazendas de café no interior do Estado. A Estação da Luz é, praticamente, a primeira visão da cidade para essas pessoas.

A infraestrutura e a economia cafeeira e depois industrial motivam o fluxo imigratório para a área urbana. São Paulo sente a presença de portugueses, espanhóis, negros, germânicos, belgas, franceses, árabes e japoneses. Porém, os italianos transformam-se na grande massa de mão de obra, particularmente, operária e artesã da cidade em permanente construção. Dominam, a partir do emprego do estilo eclético, as técnicas de edificação de prédios e casarios que são realizados por artífices, professores e alunos do Liceu de Artes e Ofícios.

Eles tornam-se os mais disputados arquitetos e construtores, substituindo as linhas francesas pelas neorrenascentistas, como se vê no Edifício-Monumento do Ipiranga, no Teatro Municipal e no Edifício Martinelli. Os monumentos escultóricos dos artistas peninsulares também tomam conta das praças, como os realizados em homenagem ao compositor Giuseppe Verdi, além de Glória Imortal aos Fundadores de São Paulo e do Monumento à Independência no Ipiranga. No bairro dos Campos Elísios persistem marcas dos capomastri, e, especialmente nos bairros da Mooca e do Bexiga, o espírito italiano sobrevive no sotaque, nos costumes e na arquitetura.
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Museu de Arte Contemporânea da USP no prédio desenhado por Oscar Niemeyer - Foto: Alecsandra Matias
Museu de Arte Contemporânea da USP no prédio desenhado por Oscar Niemeyer – Foto: Alecsandra Matias

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Revolução na arte paulista

Nas primeiras duas décadas do século 20, a expansão da cidade além dos centros (velho e novo) exige a implantação de mais viadutos e avenidas. A velocidade dos carros e aviões, bem como as atividades esportivas e as noturnas invadem a cidade. Durante a Semana de Arte Moderna e seus desdobramentos, a “Pauliceia Desvairada”, expressão cunhada pelo crítico de arte Mário de Andrade, poeta e escritor, toma consciência de suas características cosmopolitas, motivando o modernismo e abrigando numerosos artistas estrangeiros. Esses artistas, cada qual à sua maneira, imprimem marcas pela cidade: o Futurismo dos italianos; o Expressionismo dos vindos da Europa Central, as tendências parisienses e os artistas-artesãos (imigrantes ou filhos deles) que juntos revolucionam as artes e a cultura paulista.

A partir de 1934, Getúlio Vargas, então presidente do País, limita a entrada de estrangeiros no Brasil, incentivando o movimento migratório interno, que já vinha ocorrendo em pequenas proporções desde o início do século. Passam a chegar a São Paulo, em número cada vez maior, mineiros, mato-grossenses, goianos, nortistas, nordestinos atraídos pelas oportunidades de emprego, particularmente no setor de construção civil. Esses migrantes também se unem em lugares específicos da cidade, misturam-se na Bela Vista, no Brás, em Santana, entre outros bairros – às vezes em pontos periféricos ou regiões metropolitanas. São Paulo confirma sua vocação de metrópole, por intermédio de cidades nos seus arredores que a servem como “dormitórios”, entre elas, as cidades da região do ABC e outras próximas aos seus limites. Esse é o início da estrutura nebular da cidade que persiste até hoje. Dessas regiões, emerge a mão de obra que ergue os grandes edifícios que nascem na cidade a partir dos anos de 1940 e 1950.

Maria Bonomi e a metáfora de uma cidade em vários planos - Foto: Alecsandra Matias
Maria Bonomi e a metáfora de uma cidade em vários planos – Foto: Alecsandra Matias

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Na década de 1950, São Paulo tem grandes arranha-céus. Torna-se necessária a aquisição de ares internacionais. Nessa tarefa, a criação de museus modernos traz o glamour das artes internacionais para a cidade que, a essas alturas, já está tomada pela ânsia do moderno e desponta como candidata a grande centro cultural com a criação do Museu de Arte de São Paulo, Museu de Arte Moderna e, posteriormente o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo. Com a criação dos museus, a arte moderna, ainda figurativa, assimila a abstração trazida pelas Bienais do Museu de Arte Moderna de São Paulo. O neoconcretismo e o abstracionismo dos grupos formados pelos nipônicos convivem com a abstração geométrica do Leste Europeu e da Itália. Entre 1960 e 1980, as edições das bienais proporcionam o contato com tendências, como a pop art norte-americana, seguida do abstrato expressionista e o pós-modernismo, colocando de vez a arte brasileira nos circuitos das grandes exposições e do mercado mundial.

Retomando a reflexão sobre as transformações históricas e o fluxo imigratório que moldam a cidade nos mais de quatro séculos de sua existência, reconhece-se que os diversos povos que constituem a malha urbana delimitam os espaços de uma memória coletiva singular que traz identidade a São Paulo. Imigrantes da mesma nacionalidade fixam residência em bairros específicos: italianos no Brás, Bexiga, Belém, Mooca e Bom Retiro; japoneses e chineses na Liberdade, alemães no Brooklin e em Santo Amaro; árabes na região do mercado, judeus no Bom Retiro, após 1920 e Higienópolis; coreanos, atualmente, também, no Bom Retiro e arredores; russos, poloneses e, especialmente lituanos, na Vila Zelina, iugoslavos na Mooca e no Belém, armênios na Luz e, outros. Todos eles marcam a cidade através de seus monumentos – rastros de uma memória que lhe é bastante cara.
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Minhocão e a luta polêmica dos paulistanos contra a cicatriz urbana. Foto: Cícero dos Santos
Minhocão e a luta polêmica dos paulistanos contra a cicatriz urbana. Foto: Cícero dos Santos

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Humanização dos espaços públicos

Após a ditadura militar que atinge o Brasil entre 1964 e 1985, acompanhando os movimentos de redemocratização do País, os monumentos erigidos na cidade abandonam o aspecto comemorativo e tentam suprir a necessidade de expressão cultural da cidade – espaços como a Praça da Sé, o Parque Ibirapuera e as estações do Metrô buscam emergir as memórias da cidade, atribuindo mais valor à sensibilidade estética do que ao “sentimento cívico” ou de evocação da história de uma “nação” que se tem anteriormente ao fim da ditadura. Artistas de variadas nacionalidades se incubem da missão de humanização dos espaços públicos a serem vividos por essa população múltipla. Na década de 1990, vale ressaltar um dos espaços de rememoração mais destacado: o Memorial da América Latina, fundado em 1989, no bairro da Barra Funda, principal símbolo da interação dos povos latino-americanos, engendrado a partir dos ideais de Darcy Ribeiro e da arquitetura de Oscar Niemeyer.

Assim, as tradições locais são compartilhadas e transformam São Paulo em verdadeiro mosaico do Brasil. São Paulo é cidade partilhada. Porém, há pedaços desta cidade mais italianos, espanhóis, nordestinos ou orientais, onde o sentimento de identificação é mais forte – esses são os chamados lugares da memória. Os desenhos cartográficos de São Paulo estão ainda presentes, permeados por intervenções contemporâneas e memórias compartilhadas. Os monumentos que marcam a cidade podem ser lidos como a expressão do desejo de estar em todos os lugares e em todos os tempos. São Paulo guarda todos esses lugares da memória em sua contemporaneidade.

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Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais pela ECA, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e pesquisadora do Centro Mário Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes da ECA-USP 

 

 

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