Um detetive de nosso tempo

Jacó Guinsburg – ECA

Por - Editorias: Artigos
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Jacó Guinsburg é professor emérito da ECAUSP, crítico de teatro e editor - Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Jacó Guinsburg é Professor Emérito da ECA-USP, crítico de teatro e editor – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

 

No Brasil a obra do escritor cubano Leonardo Padura, que já se fizera representar em tradução por quase uma dezena de títulos, chamou a atenção em anos mais recentes por dois livros que causaram forte impressão nos seus leitores.

O primeiro é o romance policial-político sobre o assassinato de Leon Trotsky, magistralmente focalizado em O Homem que Amava os Cachorros. No fio de sua trama “kremlimnológica” e de seus agentes-personagens o que se desvela é um quadro surpreendente em termos de realidade histórica, com base em uma recriação ficcional dos fatos, das figuras e das relações que o compõe.

Assim, as causas motivadoras de seus feitos no plano ideológico e político e o papel que neles exercem os indivíduos em confronto, pelo modo de ser de seu psiquismo, tecem a rede em que a luta pelos mais altos valores éticos e humanos de uma nova ordem social e política, tomados no contexto concreto dos fatos efetivamente registrados pela crônica da época, se convertem na maquinação das mais baixas e criminosas ações cometidas pelos militantes e em nome de seus direitos de instauração de um regime dos iguais.

O segundo romance, em que a mescla do detetivesco, do histórico-político e da análise sociopsicológica também prevalece e forja o instrumental da matéria narrativa, coloca-se sob o título em si dúplice, mas indicativo, de Hereges. O relato não se constitui de uma peça inteira que conduza seus personagens e suas peripécias por uma estrada real, única, do começo ao fim. Na verdade, ele se compõe de três narrativas até certo ponto autônomas entre si, mas, em última análise, ligadas ou permeadas por um conceito e um objeto comum. O conceito é o da liberdade, ou melhor, o da busca da liberdade, e o objeto é um suposto quadro de Rembrandt. Eles são a luz e a estrela polar do navegante cubano, na condição de autor e do seu alter ego, o detetive Conde.

O primeiro é o romance policial-político sobre o assassinato de Leon Trotsky, magistralmente focalizado em O Homem que Amava os Cachorros. No fio de sua trama “kremlimnológica” e de seus agentes-personagens o que se desvela é um quadro surpreendente em termos de realidade histórica, com base em uma recriação ficcional dos fatos, das figuras e das relações que o compõe

O narrador desenvolve sua trama em um jogo de três lances que ocorrem em Havana no período pré-revolucionário, com extensão pós-revolucionária e na Flórida dos exilados, na Holanda e na Polônia do século 17 e, finalmente, nos dias de hoje, em Cuba.

Nesse tríptico se repõe o embate com as repressões políticas, sociais e culturais vestidas com tropical, brejeira e garrida criatividade romanesca em problemas atuais e antigos de opressão do meio, de corrupção de dirigentes e burocratas, de preconceitos religiosos e intolerância, de busca de realização na arte e de insatisfações pessoais que levam à fuga e à morte.

A incorporação desses temas se dá, sobretudo, em figuras de jovens, ora individualizadas nas personagens centrais, ora difundidas em grupos. E, para deslindá-los em suas encarnações, o autor vale-se da bonachona, mas onipresente figura do detetive que faz o contraponto da razão lógica procurando pesquisar as causas das situações e descobrir os seus responsáveis.

Hereges é, portanto, um thriller de alto e profundo voo, mas cujas rotas não vale a pena especificar, particularizando-as, para não tirar o prazer do encontro e da descoberta pessoal do leitor. Pois, com certeza, ele terá neste romance o gosto de investigar e descobrir um relato profundo de vida de nosso tempo e de outros tempos.

 

 

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