Suicídios – tantos porquês

Maria Julia Kovacs é professora associada do Instituto de Psicologia da USP e coordena o Laboratório de Estudos sobre a Morte

Por - Editorias: Artigos
Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail

Maria Julia Kovacs – Foto: via YouTube / LLC

A morte ainda é tema tabu na atualidade e o suicídio é o ápice no espectro das interdições. Sempre foi difícil abrir espaço para falar sobre o tema, mas hoje dois eventos abriram a discussão sobre a questão que normalmente é calada, pois o principal aspecto sempre aventado é que falar sobre suicídio pode induzi-lo, pelo contágio.

Nos últimos meses, o assunto viralizou no Facebook, redes sociais e recentemente também em notícias de jornal e TV. Essa onda atual começou com o game Baleia Azul e a série da Netflix – 13 razões por quê (Thirteen reasons why). Observamos que do silencio partimos para o escancaramento do tema, com várias inserções cotidianas, e ainda pouca elaboração reflexiva.

O suicídio é morte inesperada, repentina e violenta que atinge de forma impactante 6-8 pessoas, que imediatamente se tornam enlutados de risco, pelo alto grau de culpa que suscita, sendo denominados de sobreviventes por essa razão. Observa-se intensa busca de explicações, que nunca parecem satisfazer a necessidade de compreender o que não tem explicação.

A série 13 razões por quê se baseia na necessidade de explicar a morte por suicídio de Hannah Baker, uma jovem de 17 anos que deixa treze fitas destinadas aos seus amigos próximos, apresentando o que não conseguiu que fosse ouvido, enquanto estava viva. Essas fitas têm o caráter de uma carta acusadora, praticamente enlouquecendo seus ouvintes, que ficam muito abalados com o que ouvem. Esse é o ponto contraditório da série, porque implica que pessoas à volta de Hannah são responsáveis pelo suicídio. É preciso ressaltar que o suicídio é responsabilidade de quem o consumou.

O suicídio é responsabilidade, ou seja, é a possibilidade de responder a uma dada situação. Na série são apresentadas situações de bullying, estupro e outras situações de violência. A protagonista menciona em várias cenas que se sentia isolada e invisível. Os sentimentos e percepções apresentados são parte de sua experiência, portanto legítimos, o que está em discussão é que essas percepções sejam apontadas como causa do suicídio. O bullying, a violência, o isolamento, a não consideração de seus anseios podem ser fatores que precipitaram o ato suicida, mas a atribuição de causalidade nos leva a uma avaliação simplista e por isso incorreta. O suicídio é um caminho de ação possível, mas não o único. Inúmeras outras respostas poderiam ser dadas como observamos nos colegas e amigos de Hannah, que também tiveram seus conflitos e sofrimento e responderam com conversas, briga, aceitação, afastamento, atos agressivos, entre outras tantas possibilidades. O suicídio envolve uma longa história que tem seu início nas primeiras ideações, pensamento recorrente, planejamento e tentativa, finalizada com o ato suicida. A série insinua que amigos próximos e os pais são responsáveis pelo suicídio. Essa atribuição causa, além da dor da perda, o ônus da culpa, o que é muito penoso para os enlutados.

Nos últimos meses, o assunto viralizou no Facebook, redes sociais e recentemente também em notícias de jornal e TV. Essa onda atual começou com o game Baleia Azul e a série da Netflix – 13 razões por quê (Thirteen reasons why). Observamos que do silencio partimos para o escancaramento do tema, com várias inserções cotidianas, e ainda pouca elaboração reflexiva.

A importância da série é abrir o diálogo, discussão e reflexão, permitindo que se aprofundem questões relativas ao suicídio. Nunca se falou tanto sobre esse tema numa época em que o número de suicídios entre jovens cresce exponencialmente. Portanto, é interessante discutir a série em casa no meio familiar, na escola, nas universidades.

Baleia azul é um game que se iniciou como notícia falsa na Rússia e se espalhou em vários países do mundo, chegando agora ao Brasil. Como jogo, tem suas regras e seus curadores (nome estranho para quem dirige esse jogo), que têm como objetivo propor desafios que devem ser cumpridos pelos jogadores jovens, com o risco de, se desistirem ou deixarem de cumprir uma etapa, serem ameaçados de retaliação. São 50 passos culminando com o ato suicida. Há referencia de jovens que morreram em função do jogo, inclusive no Brasil.

Tanto a minissérie quanto o jogo aumentaram de forma significativa as consultas ao Centro de Valorização da Vida (CVV) para poderem falar e serem ouvidos.

O que motiva o jogo pode ser curiosidade, mas também a busca de respostas para uma vida sem sentido ou como um desafio com mais adrenalina. Ao descobrir a intenção do jogo é possível sair dele, mas o que fazer quando o medo de sair do jogo supera o instinto de proteção da vida? Em meio a um grande número de jovens isolados, deprimidos, vulneráveis, esse jogo cai como bomba. Perguntas são inevitáveis, por que o jogo foi criado? O que querem os seus curadores? Por que há pessoas que têm interesse em levar pessoas ao suicídio? Por que um jovem não abandona o jogo ao se sentir tão ameaçado? Por que precisa ir até o fim? Para que se possam buscar compreensões, esse jogo precisa ser informado, socializado e discutido em vários fóruns.

Tanto a minissérie quanto o jogo aumentaram de forma significativa as consultas ao Centro de Valorização da Vida (CVV) para poderem falar e serem ouvidos. Estimularam também a necessidade de que pais e professores conversem mais com seus filhos e alunos, e observem comportamentos: mudanças de comportamentos habituais, isolamento, queda do rendimento escolar e depressão. Como reação ao game Baleia Azul, surgiu o Baleia Rosa com passos que envolvem busca de situações de valorização da vida.

Suicídios nos trazem mais questões do que respostas. Mais do que calar é preciso refletir e discutir o tema com os jovens, e eles poderão nos orientar nessa difícil tarefa em casa e na escola. Observamos que algumas instituições educacionais já promoveram reuniões com jovens para discutir a questão.

Acreditamos que a melhor forma de compreender e prevenir suicídios é abrir espaço para conversas e reflexão e não simplesmente interditar o tema. Há uma falsa compreensão de que falar sobre suicídio pode incentivar o suicídio. Pelo contrário, ignorar ou não falar sobre os sinais de risco referidos acima leva ao risco de que o suicídio seja a única saída possível. É fundamental nesses casos encaminhar os jovens para atendimento psiquiátrico e psicológico e para ONGs como o Centro de Valorização da Vida.

Compartilhar no FacebookCompartilhar no Google+Tweet about this on TwitterImprimir esta páginaEnviar por e-mail