Será que a China dará ao agronegócio mais um presente?

Marcos Fava Neves é professor titular da Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto da USP

Por - Editorias: Artigos
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Marcos Fava Neves – Foto: João Neves
Antes de falar de outro presente chinês, além do grande consumo dos nossos produtos, vamos aos números do mês. A Conab de setembro projeta a safra de grãos 2016/2017 em 238,8 milhões de toneladas, sendo 28% a mais que as 186,6 milhões de 2015/16 ou simplesmente 52,2 milhões de toneladas de grãos. A área cultivada chega a quase 70 milhões de hectares (4,4% maior que a anterior) somando mais de 2,5 milhões de hectares à produção. Analisando-se por algumas culturas, no algodão já quase terminamos a colheita, com 1.529,5 mil toneladas de pluma e 2.298,3 mil toneladas de caroço. De amendoim foram 438,8 mil toneladas, também 13% acima. O arroz também veio forte, com 12,33 milhões de toneladas de produção. A soja manteve as 114 milhões de toneladas e o milho ajudou a dar este incrível salto, chegando a 97,71 milhões de toneladas, somando-se as duas safras. Por fim, de trigo ainda temos riscos, mas devemos produzir algo ao redor de 5,22 milhões de toneladas. Grãos e mais grãos!

Outra boa notícia foi a performance nas exportações. Foram US$ 9 bilhões trazidos pelo agro (46,4% das vendas totais do País) em agosto, praticamente 18,5% a mais que agosto de 2016, deixando um superávit de US$ 7,8 bilhões. No acumulado de janeiro a agosto o agro trouxe US$ 65,4 bilhões, quase 8,3% acima de 2016. O superávit deixado no ano já esta em US$ 56 bilhões (7,5% acima). Os produtos da soja vêm sendo o destaque do ano e em julho foram exportados mais US$ 2,7 bilhões. Só de soja grão foram quase 6 milhões de toneladas. No milho exportamos US$ 818 milhões, quase 90% a mais. Em carnes exportamos 20% a mais, trazendo mais de US$ 1,5 bilhão neste mês. Dólares e mais dólares!

O índice de preços de commodities alimentares da FAO chegou a 176,6 pontos, 1,3% abaixo de julho e 6% acima de agosto de 2016. Cereais (5,4% de queda), açúcar (1,7%) e carnes (1,2%) derrubaram o índice, mesmo com o aumento de óleos vegetais (2,5%) e dos lácteos (1,4%). A FAO estima que a produção de grãos em 2017 vai atingir o recorde de 2,611 bilhões de toneladas e utilizar 2,591 bilhões, praticamente 1% a mais que em 2016 ou 23 milhões de toneladas a mais. Cerca de 403 milhões de toneladas serão comercializadas internacionalmente, 2,2% acima do ano anterior, jogando também os estoques para valores recordes de 719 milhões de toneladas (2% acima).

Outra boa notícia foi a performance nas exportações. Foram US$ 9 bilhões trazidos pelo agro (46,4% das vendas totais do País) em agosto, praticamente 18,5% a mais que agosto de 2016, deixando um superávit de US$ 7,8 bilhões.

Isso trouxe reflexos nos preços e no ânimo dos produtores. Pelos números do Valor Data os preços da soja recuaram quase 5,5% em agosto e 4,6% em relação a agosto de 2016. Os do milho recuaram 5,7% em relação ao mês passado mas estão 10,3% acima do ano passado. O trigo caiu também 13,3% no mês e está 6,23% acima em relação ao ano passado. As demais commodities também caíram em agosto e em relação ao ano anterior, nos seguintes valores: cacau (34,72%), açúcar (28,99%), suco de laranja (26,22%), café (5,18%) e algodão (1,95%).

As expectativas da safra que se inicia (2017/18) não são das melhores em preços. Como vimos no balanço da FAO, tem muito grão sendo produzido e elevados estoques no mundo, a safra americana veio razoavelmente bem. Com esta análise, o USDA projeta os preços para este próximo ciclo ligeiramente piores. A soja deve ficar entre US$ 8,35 e US$ 10,05 por bushel (27,2 kg), pois a situação de estoques é muito confortável, e para o milho, esperam entre US$ 2,80 e US$ 3,60 por bushel (25,2 kg). Portanto muito cuidado agora, pois o cobertor de preços estará bem curto, agravado pela valorização do real.

Sempre temos como melhorar em custos de produção. Apenas um exemplo, o EsalqLOG trouxe interessante estudo sobre a infraestrutura brasileira e o prejuízo ao setor de grãos, com destaque para soja e milho, que em 2015 tiveram perdas de 2,4 milhões de toneladas, ou praticamente R$ 2 bilhões, no transporte (incluindo transbordos) e armazenagem distante das fazendas. Mais de 2,3% da carga transportada é perdida.

Enfim, as notícias de final de agosto e setembro no geral foram de muita produção, muita exportação, mas queda de preços dos principais produtos e valorização do real. Também continua a bagunça no cenário político, com denúncias e condenações sequenciais, mas que não têm contaminado um relativo otimismo na economia.

10% de etanol

Quando o mês caminhava para terminar na mesmice, vem uma bomba, não da Coreia do Norte, mas uma boa bomba da China. A China também anunciou que estuda proibir as vendas de carros movidos a combustíveis fósseis em 2040 e fez um anúncio que pode ser a grande notícia do mês: a partir de 2020 toda a gasolina vendida, neste que é o maior mercado de carros do mundo, passará a ter 10% de etanol. Esta é uma excelente informação aos produtores de grãos, significando quase que literalmente a queima dos estoques chineses de milho, sem colocar um grão sequer no mercado. Estima-se que para fazer o E10, ao consumo de hoje, seriam necessários 45 milhões de toneladas de milho por ano. Que bela notícia ao agro brasileiro e mundial, abrem-se oportunidades de produção.

Contato: favaneves@gmail.com

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