Revisão nas falas? (4)

Mario Fanucchi é Professor Aposentado da Escola de Comunicações e Artes da USP

Por - Editorias: Artigos - URL Curta: jornal.usp.br/?p=141997
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Mario Fanucchi – Cecília Bastos/USP Imagens
Antes de responder às questões formuladas pelos leitores sobre o apelo que fiz no capítulo anterior (lembram-se?… eu comentava sobre como é importante  a opinião do maior número de pessoas, quando se trata de proteger a nossa língua), sinto-me na obrigação de registrar um acontecimento digno de nota: assistindo a um telejornal, um dia depois das festas natalinas, não captei uma só falha dos atores  em cena! Apresentador, repórteres, depoentes, pessoas do povo – enfim, a cadeia de indivíduos que representam a amostra ideal para uma pesquisa sobre comportamento humano (e, particularmente sobre o uso das palavras) sairam-se muito bem. Se eu fosse um ”revisor de falas”, numa hora dessas, ficaria feliz. Foram uns vinte minutos sem sobressaltos, sem murmúrios irritados de minha parte, para desgosto de quem estava assistindo à tevê comigo.

Bem, dada essa boa notícia, tratemos de aproveitar os bons ventos para arriscar um passo adiante neste projeto, que, como é óbvio, precisa de muito apoio para prosperar. Na verdade, os leitores  mais fazem perguntas do que contribuem com respostas. A exceção é aquele meu amigo (do capítulo anterior – lembram-se?), que eu vivo importunando com minhas consultas,  cada vez que me sinto inseguro sobre determinada ideia. Já disse que ele é  um especialista, cioso, portanto, de zelar por seu nome. Enquanto eu – o que sou mesmo? Visionário? Sonhador?  Qual o melhor adjetivo?

Depois de garantir mais uma vez que jamais revelaria sua identidade, perguntei se ele acha que já é hora de esboçar algumas fórmulas para demonstrar a viabilidade do projeto, mesmo sem ouvir um bom número de interessados.  Resposta:

-Minha área é a Gramática. É bom você arranjar um especialista em planejamento.

–E você pode me indicar alguém? Uma pessoa como você… de boa vontade?…

–Está bem. Mas fique aqui pra responder a algumas perguntas, se ele se interessar… — e pegou o celular.

Foi uma conversa de meia-hora. Apresentei os meus melhores argumentos, até ele concordar e prometer ajuda… desde que eu mantivesse em segredo sua colaboração naquilo que ele definiu como uma “curiosa experiência”.   Agradeci, entusiasmado, não vendo a hora de chegar em casa para  repassar tudo que eu já havia desenvolvido até aquele momento e, talvez, escrever outro capítulo da  revisão nas falas. Mas, depois de um dia tão cheio de novidades, o cansaço me venceu e dormi o sono dos justos. Na manhã seguinte, esperei até um horário razoável para telefonar ao meu novo colaborador e ouvi-lo sobre Planejamento, palavra mágica capaz de dar novos rumos ao projeto.

Pena que ele tivesse saído, mas deixei recado. Depois, pensei: nada de ir com muita sede ao pote… cada coisa na sua hora. Em seguida, liguei meu radinho, e comecei a pesquisar … Encontrei uma estação que quase só tocava música de gosto duvidoso, mas, nos intervalos, achava tempo para cometer as maiores barbaridades em matéria de linguagem “coloquial”, ao criticar o pessoal da limpeza-pública sobre o entupimento dos bueiros. “Tudo mundo sabe que no começo do ano chove  prá caramba“ ! (Lá vem, outra vez, aquela expressão sobre a qual um dia contarei uma história real, verdadeira ! – com perdão do pleonasmo…)

No fim da tarde, veio o retorno do meu chamado matutino, e tive o prazer de ouvir o meu … (como direi?… bem, o homem do Planejamento) afirmar  que estava muito animado com a ideia de colaborar comigo em tão bela missão, mas que isso devia ficar para o segundo trimestre, quando ele voltasse das férias. Agradeci e desejei-lhe um belo Carnaval. O dia vazio de novidades nada mais prometia e preparei-me  para uma nova pesquisa, desta vez nos noticiosos noturnos da televisão. Aciono o controle e lá vem uma notícia do Trump (cada vez que ele aparece na tevê, me lembro daquelas  garotinhas cantando uma paródia  de  Over there! (1942), enquanto imitavam James Cagney, tudo isso para vender o candidato republicano, que, não obstante, ganhou a eleição!…)   Mais  umas poucas notícias e, finalmente, o inesperado, o inaudito, o pavoroso quadro capaz de nos tirar o sono: uma retrospectiva do ano que acabou. Cenário: o nosso PARLAMENTO. Personagens: seus ocupantes – de direito e por força do mérito – ou seja, os Parlamentares (“parlare” — falar, mover os lábios, emitir o som das palavras) Resultado: os berros, os palavrões, a histeria dos nossos representantes na Casa do Povo, construída por um Niemeyer, e conspurcada por quem???

Por favor, nos poupem de rever esse filme (não sei se é película cinematográfica, fita magnética ou outra coisa qualquer, mas essa coisa deve ser queimada!) Lembrar é preciso – dirá alguém.  Fechar os olhos para o feio, o impróprio, o indigno, é inadmissível. Corrigir os erros, reparar os malfeitos, é a única solução. É nosso dever fazê-lo! Mas, por favor, queimem essa coisa!

Comentário: (hoje, sem comentário).

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