Restam 100 milhões de toneladas de cana para processar

Marcos Fava Neves é professor titular da Faculdade de Economia e Administração de Ribeirão Preto/USP

Por - Editorias: Artigos
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Marcos Fava Neves –
Foto: Francisco Emolo / USP Imagens

 De acordo com a UNICA, a moagem acumulada desta safra até o dia 1º de setembro foi de 467,17 milhões de toneladas, contra 476,24 no mesmo período do ano passado (2% de atraso). Já foram produzidos 29,23 milhões de toneladas de açúcar (27,88 milhões em 2016), e no etanol 19,42 bilhões de litros (-2,75%). O hidratado caiu 5,7%, para 11,04 bilhões de litros e o anidro subiu 1,43%, para 8,37 bilhões de litros. Como já observamos no último mês, o etanol está buscando os números do ano passado.

No ATR houve boa melhoria, chegando a 136,18 kg/ton (2,57% acima). Fizemos nesta última quinzena um mix de 53,4% para etanol, o que ajudou na estratégia geral de construção de valor. Está quase 4 pontos acima do mesmo período do ano passado. Com isto produzimos 11,5% a mais de etanol.

Preocupa muito o tempo seco, que já traz reflexos na produtividade desta safra e deve afetar a próxima. A amostra do CTC estima em 79,6 toneladas/ha desde o início desta safra, contra 80,9 do mesmo período de 2016.

No mês de setembro vendeu-se pelas usinas (não significa consumo) 2,15 bilhões de litros para o mercado interno e quase 158 milhões de litros para exportação. De hidratado foram 1,38 bilhão de litros. Enfim, moemos cerca de 5% a menos de cana na quinzena, com 10% a mais de sacarose.

Estudo da RPA Consultoria indica 52 unidades em recuperação judicial e 27 em falência num total de 444 unidades. Acreditam que existem 25 prestes a solicitar recuperação judicial. O estudo indica que 45 usinas não serão reativadas, pois foram desmontadas. Triste nota num setor que precisa crescer.

Para o Nordeste, uma boa notícia: o Sindaçúcar/PE espera uma produção de 44 milhões de toneladas (4,7% a mais).

Nas notícias das empresas, neste mês a CerradinhoBio (sudoeste de Goiás) anunciou investimentos em cogeração, dobrando sua capacidade para 850 gigawatt-hora (GWh). Em 2016/17 faturou R$ 811 milhões na última safra e inaugura hoje a expansão das operações de cogeração em sua usina em Chapadão do Céu. A moagem subiu de 4,8 milhões em 2015/16 para 5,4 milhões nesta, pulando para 5,7 milhões em 2018/19 e chegando a 6,3 milhões em 2021. Nas caldeiras estão testando sorgo, braquiária e cavaco de eucalipto. Também está nos planos avaliar o processamento do milho. As metas são chegar a R$ 880 milhões nesta safra e EBITDA de R$ 440 milhões.

Enfim nas notas do mês de outubro, tivemos pouca renovação de cana, pouca chuva, um pouco mais de investimentos em fertilizantes… a safra do ano que vem pode ser ainda menor que esta. São bastante divergentes ainda as opiniões de produção esperadas. No caso do açúcar, de 33 a 36 milhões de toneladas, 26 a 28 bilhões de litros de etanol, e no caso da cana, de 560 a 625 milhões de toneladas. Ou seja, na melhor das hipóteses, mais um ano em que a agrícola andará de lado.

Para o Nordeste, uma boa notícia: o Sindaçúcar/PE espera uma produção de 44 milhões de toneladas (4,7% a mais).

Em relação ao açúcar, neste momento devemos mirar as produções da União Europeia, Índia, Tailândia e Paquistão, seus climas e a influência dos preços recebidos nas perspectivas de plantios futuros. O USDA prevê a Índia com 27,7 milhões de toneladas, 25% a mais. Também deve ser visto qual o impacto dos preços menores na demanda mundial por açúcar.

As usinas estão demorando a fixar preços para 2018. Segundo a Archer Consulting, apenas 15,5% haviam sido fixados até o dia 30/9, um total de 4,2 milhões de toneladas a um preço médio de 16,31 centavos de dólar/libra-peso (R$ 1.223/ton, com dólar médio de 3,26). Na safra anterior eram 27%. Em 82% dos últimos 17 anos os preços mais altos foram encontrados entre outubro e fevereiro, o que, segundo a empresa, pode justificar este atraso.

Setembro foi excelente para as exportações de açúcar. Foram 3,5 milhões de toneladas (2,94 milhões de toneladas de demerara e 552,1 mil toneladas de refinado), quase 27% a mais que agosto e 10% a mais que setembro de 2016. Este volume trouxe uma renda de US$ 1,282 bilhão (22,3% a mais que agosto) e 26% a mais que setembro do ano passado. Até início de outubro vendemos 21,708 milhões de toneladas (mais 0,6% ante 2016), com renda de US$ 8,884 bilhões (mais 20,5%), fruto principalmente dos travamentos feitos ano passado. Os dólares estão vindo ao setor.

Segundo o USDA, a demanda dos EUA em 2017/18 será de 11,361 milhões de toneladas e a produção, 8,1 milhões de toneladas. A demanda vem crescendo cerca de 1,5% ao ano. Terão que aumentar as importações, principalmente do México, devendo passar de 3 milhões de toneladas.

A Kingsman já reviu sua estimativa de excedente na safra 2017/18 para 3,87 milhões de toneladas, 1 milhão abaixo da anterior. Acreditam agora que usinas no Centro-Sul alocarão 47,6% da cana para açúcar, contra 48,3% da estimativa anterior, reduzindo em 300.000 toneladas a produção de açúcar.  Para o exercício 2018/19 estimam ser menor ainda, caindo para 46,3% e colocam que a safra será menor em 2,9%, devido à seca, ficando em 575 milhões de toneladas e produzindo 34 milhões de toneladas de açúcar. Ainda nas estimativas da Kingsman, a Tailândia produzirá 11,03 milhões de toneladas (10% a mais), a UE 20,5 milhões de toneladas (260 mil a mais) e a Índia produzirá para 25,5 milhões de toneladas. Um alento para os preços começarem a se recuperar, pois caíram 24% neste ano. Uma das matérias-primas que mais perderam valor nas commodities.

A União Europeia, com a liberalização total da produção, deve passar a exportar de 2 a 2,5 milhões de toneladas por ano e reduzir as importações de 3,5 para 1,5 milhões de toneladas. De deficitária em 2016 (2 milhões de toneladas) até 2026 pode passar a ser superavitária em quase 4 milhões de toneladas. A tarifa de importação da UE (mais de 300 euros) protege o mercado local e impede que indústrias de alimentos e consumidores tenham acesso aos preços do mercado internacional de açúcar. Esta proteção precisaria cair para que a competição fosse adequada. O Brasil consegue vender à UE cerca de 700 mil toneladas com tarifa de 98 euros/ton.

Em relação ao açúcar, neste momento devemos mirar as produções de União Europeia, Índia, Tailândia e Paquistão, seus climas e a influência dos preços recebidos nas perspectivas de plantios futuros. O USDA prevê a Índia com 27,7 milhões de toneladas, 25% a mais.

Outra má notícia na ponta do consumo é a queda nas vendas de refrigerantes no Brasil. Segundo a Mintel, o mercado caiu 6,1% em 2016 e deve cair 4,6% em 2017, apesar do faturamento crescente, graças aos reajustes de preços. A empresa acredita que este mercado continuará caindo entre 5 e 6% até 2021. Sucos, águas e chás, além de suas misturas, têm ganho espaço. Uma das razões da queda (para 36%) é o açúcar em excesso e a indústria vem reagindo aumentando os lançamentos de produtos sem calorias ou com menos calorias, que já são mais de um terço do total.

Precisamos torcer por moagens menores e mix bem mais alcooleiro para ver preços reagirem, e alguma má notícia climática no Hemisfério Norte. Ainda aposto em 16 cents/libra peso para dezembro contra os 13,54 no fechamento desta coluna.

Em relação ao etanol, segundo a Datagro, a importação de gasolina no primeiro semestre do ano cresceu 77%, chegando a 3,05 bilhões de litros. Uma triste notícia sabendo do potencial de expansão do etanol. A FGV energia publicou estudo sobre carros elétricos. Segundo esta, a frota mundial de elétricos e híbridos era de 2 milhões de veículos de passeio em 2016, e deve chegar a 13 milhões até 2020 e 10% da frota total de carros em 2030. No Brasil as vendas ainda estão abaixo de 0,5%. A EPE estima que em 10 anos a frota nacional ainda será menor que 0,5%.  Em artigo n’ O Estado de S. Paulo, o professor Plinio Nastari destaca algumas dificuldades do carro elétrico, a saber: nas baterias, são usados lítio e cobalto e seu suprimento em grande escala é duvidoso. Existe o problema ambiental de descarte das mesmas, o problema do reabastecimento destas. O carros a etanol no Brasil emitem menos que os carros elétricos europeus.

Está em discussão a Resolução 67/2011 (formação de estoques de etanol anidro), no sentido de dar mais rigor ao cumprimento da formação de estoques e considerar importadores de etanol também obrigados a cumprir esta regulação, carregando estoques de janeiro a março.

Foi publicado estudo pelo Instituto Mauá de Tecnologia que contesta a referência de 70% para o desempenho do etanol em relação à gasolina. Em algumas condições testadas, a referência de empate ficou ao redor de 75%.

Em agosto, o consumo de hidratado foi de 1,16 bilhão de litros, longe dos 1,3 bilhão esperados. Resta esperar que setembro tenha sido bem menor e outubro prometa. De abril a agosto vendemos 1,14 bilhão de litros a menos.

No fechamento da leitura o hidratado estava R$ 1,67 e o anidro R$ 1,77/litro (spot CEPEA). Meu viés para o etanol também é altista, pelos mesmos motivos antecipados na coluna anterior: aumento do consumo de combustíveis agora com as férias e crescimento da economia, seca persistente, o petróleo com ligeira alta e a perspectiva de safra menor agora e no ano que vem.

Termino com dois pedidos: que São Pedro libere água para nós, pois as perdas estão grandes, incêndios, produtividades… e que as usinas diminuam a moagem diária e façam o máximo possível de etanol com estas 100 milhões de toneladas que faltam. Teremos menos açúcar para vender a maior preço, portanto faturando a mesma coisa, e ainda toda a diferença de etanol a mais para ser vendida. Com isto conseguiremos reverter a queda no valor do ATR e tentar ainda buscar um 0,62 como média desta safra.

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