Quem tem medo do Estado Islâmico?

Marilia Fiorillo – ECA

Por - Editorias: Artigos
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O autoproclamado Estado Islâmico, ou Daesh, é um fenômeno novo, diferente do jihadismo que conhecíamos. É um catalisador de ressentimentos avulsos, sem qualquer ligação orgânica com o grupo, uma espécie de Internacional da Violência amadorística. Nisso está seu maior perigo.
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Marilia Fiorillo é professora de Filosofia Política e Retórica da Escola de Comunicações e Artes da USP. Entre seus trabalhos publicados mais recentes está O Deus Exilado. Prêmio Jabuti em 1981 e 1999, trabalhou como jornalista em Veja e Folha de S. Paulo, e foi editora de política internacional na revista Isto É – Foto: Alexandre Gennari/USP Imagens

 

Os principais alvos da violência do autointitulado EI, Isis, Isil ou Daesh foram e são os milhares de muçulmanos diariamente assassinados na Síria e no Iraque e os milhões de refugiados da região, que tentam escapar das atrocidades do Daesh e de tiranos locais,  e se tornaram aquilo que o filósofo italiano Giorgio Agamben chama de homo sacer, isto é , o “não cidadão”, alguém privado de qualquer direito, civil ou humano, e que foi reduzido à mera existência biológica.

A flagrante  maioria dos agredidos e dizimados por essa malta jihadista é, sim, muçulmana. É claro que seria imoral contabilizar mortes, como se uma vida valesse menos que centenas ou milhares… Toda vida é preciosa. Diz um provérbio judaico: “Se você salva a vida de uma pessoa, é como se tivesse salvado o mundo inteiro”.

Do mesmo modo, matar  um ser humano é atentar contra a humanidade. Mas não podemos fechar os olhos para o fato incontestável de que a maioria das vítimas do Daesh são mulheres, crianças e homens muçulmanos.  O jornal New York Times estampou a seguinte manchete logo após a matança em Nice, na França: “Um terço dos mortos no ataque do caminhão em Nice eram muçulmanos”.

Matar  um ser humano é atentar contra a humanidade (diz o provérbio judaico). Mas não podemos fechar os olhos para o fato incontestável de que a maioria das vítimas do Daesh são mulheres, crianças e homens muçulmanos.

Portanto, seja no Oriente Médio, maciçamente, seja em cidades europeias, o alvo acaba sendo a própria comunidade muçulmana, espalhada pelo mundo inteiro. Isso, inclusive, em atentados que  nem mesmo são programados ou protagonizados pelo Daesh, mas que o Daesh,  de modo oportunista, capitaliza para si.

Num momento em que a xenofobia e, sobretudo, a islamofobia se alastram como a peste na Idade Média, e no qual até pessoas cultas e informadas tendem a confundir extremismo islâmico com a comunidade islâmica (em Nice, por exemplo, o líder da mesquita rapidamente se pronunciou condenando duramente o ataque), nessa nova era dos extremos, é  vital frisar  tal diferença.

Muito cuidado: não se pode demonizar o muçulmano, transformando-o no bode expiatório da vez. Intolerância e racismo geram mais intolerância e racismo. E sabemos o que houve nos anos 30, 50 ou 70 do século passado quando o bode expiatório era o judeu (e os falsos Protocolos do Sião), ou o comunista (que comia criancinhas, segundo as ditaduras ocidentais), ou os chamados traidores da causa socialista (os processos de Moscou, forjados por Stalin para se livrar de seus próprios camaradas).

O Daesh inaugurou uma nova modalidade de terror e  vandalismo, graças às redes sociais. Neste sentido, ele é completamente diferente de grupos terroristas como a Al-Qaeda, da qual, diga-se de passagem, a facção fundada por Al-Baghdadi , o Daesh, foi expulsa em 2014 por excesso de radicalismo!

Sim, nem a Al-Qaeda de Bin Laden suportou o  grau de caos, a confusão ideológica e os métodos do Daesh, e o defenestrou.  O jihadismo que conhecíamos antes  possuía alto grau de organização e hierarquia, engenho logístico e propósitos claros (embora pouco benignos). O Daesh  (basta ver algum documentário sobre ele, na BBC ou Al-Jazeera), mais se parece a uma gangue de bandidinhos juvenis, com o típico comportamento de  tribo adolescente,  com direito a tapinha nas costas, e, sabe-se lá, um “e aí, brother?” em árabe.

E, vale ressaltar,  inspirar é muitíssimo  diferente de organizar e realizar.  Os ataques às torres gêmeas de NY foram organizados e realizados  pela Al-Qaeda, e exigiram no mínimo a capacidade de pilotar aviões. Nos atentados atualmente atribuídos ao Daesh, basta um caminhão, van ou uma das abundantes armas vendidas a granel nos EUA. O tiroteio na boate Le Pulse, em Orlando, foi cometido pelo Daesh? Que indícios há? Nenhum, a não ser uma declaração tresloucada de última hora de seu perpetrador homofóbico, que, aliás, posava no Facebook  com camiseta de grife ocidental descolada.

O Daesh inaugurou uma nova modalidade de terror e  vandalismo, graças às redes sociais. Neste sentido, ele é completamente diferente de grupos terroristas como a Al-Qaeda, da qual, diga-se de passagem, a facção fundada por  Al-Bagdahdi , o Daesh, foi expulsa em 2014 por excesso de radicalismo!

O atentado de Nice foi do Daesh? Mas seu perpetrador  não freqüentava a mesquita, tomava álcool e, pior, bebia inclusive no Ramadan, mês do jejum. E esse afegão  de 17 anos que  agrediu a machado e faca passageiros de um trem em Wurzburg, na Alemanha, e gravou um vídeo de dois minutos definindo-se como  “um soldado do califado”?

O chamado “lobo solitário” é cria da sociedade do exibicionismo e voyerismo. É o João-Ninguém , o zero à esquerda, o não cidadão, que vislumbra uma única chance de existir: virar mártir e herói. E o Daesh, sem nenhum esforço, continua  sequestrando os dividendos desses revoltados anônimos.

É  aí que mora o verdadeiro perigo. O Daesh tornou-se uma espécie de catalisador de todo e qualquer  ódio e ressentimento avulso. Uma  Internacional da Violência amadorística, em que qualquer um tem mandato, a pretexto deles. E note-se que eles, o Daesh,  são rápidos e bons de marketing ao abocanhar a repercussão e visibilidade dos ódios privados.

O Daesh é uma terra de ninguém que pode ser usada como pretexto para todos e qualquer um desses “não cidadãos” que mencionamos antes, como válvula de escape da frustração, raiva, e da condição mesma de pessoa de segunda classe. Tais  jihadistas de 25a hora não militam nem nunca militaram no Daesh, são convertidos instantâneos que inclusive nem precisam ser treinados.

Basta improvisar um juramento na Internet, frequentemente sem sequer o conhecimento do Daesh. Deles, apenas usam  as palavras de ordem, tão vagas quanto confusas e virulentas. Sem dúvida, trata-se de um fenômeno também geracional, além da inestimável ajuda virtual. 

Talvez pudéssemos interpretar o Daesh , e essa onda de cólera indiscriminada (vale lembrar que o assassino da deputada trabalhista Jo Cox era um fanático de extrema-direita), mais como sintoma, um dos tantos sintomas dos acenos da barbárie que vivemos hoje.

 

 

 

 

 

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