O ser, o tempo e o ponto

Rubens R. Ricciardi é professor titular da FFCLRP-USP e Barbara K. M. Reis é diretora de Governança e Transparência de Jacareí

Por - Editorias: Artigos
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Rubens Russomanno Ricciardi – Foto: Divulgação/FFCLRP
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Barbara Krysttal Motta Almeida Reis – Foto: Arquivo Pessoal
Um constrangimento ronda a USP – o constrangimento do ponto eletrônico. Todos os servidores não docentes, ditos funcionários, do básico ao nível superior, estão sendo obrigados a registrar seus horários de trabalho por meio do ponto eletrônico. Em algumas poucas unidades, no início e no fim do expediente. Na maior parte delas, também na hora do almoço.

Numa reiteração insana, mesmo kafkiana, há que se passar o “dedão” na máquina quatro vezes por dia. Em antagonismo a um plano de ação dinâmico e moderno de RH, o ponto é um indicador pobre frente às demandas universitárias. Acumula novos obstáculos à forte burocracia administrativa existente e faz com que o cotidiano dos funcionários se torne uma triste fusão de alienação com brutalidade física e psicológica.

Não há comprovação de que este regramento contribua para a melhoria na qualidade dos trabalhos, desempenhos e respectivos resultados. Mas ainda assim os funcionários da USP se tornaram reféns do relógio do ponto. A partir de agora, no horário de trabalho se planeja prioritariamente o atendimento à sua pontualidade compulsória.

Eis que as atividades de apoio ao ensino, à pesquisa e à extensão são interrompidas e desconcentradas. Como dizia Péricles, “aquele que só se ocupa de assuntos particulares não é apenas um cidadão acomodado, mas sim um ser humano inútil”. Tornou-se a pontualidade do ponto uma nova e inusitada atividade-fim da USP? Uma minoria de funcionários que antes não trabalhava devidamente, não vai agora, de uma hora para outra, otimizar seu desempenho.

Mas, com certeza, a grande maioria dos funcionários que é altamente dedicada à USP vai trabalhar menos. E não se pode negar a importância fundamental da atuação dos funcionários para o desempenho da USP como um todo, não apenas nas atividades-fim, mas também na assistência prudente de sua administração.

Claro que há entre os funcionários aqueles que preferem a norma. Mas a aceitação por parte de alguns seria suficiente para se justificar o ponto? Até que ponto o ponto garante a eficiência, a eficácia, a efetividade, a economicidade e a dignidade da ética na USP? E muitos, mas muitos funcionários de fato, estão sofrendo pela incontornável indignidade deste constrangimento. Os funcionários deixam um pouco de lado sua condição humana e se tornam peças de uma engrenagem automatizante e desprovida de racionalidade.

Numa reiteração insana, mesmo kafkiana, há que se passar o “dedão” na máquina quatro vezes por dia. Em antagonismo a um plano de ação dinâmico e moderno de RH, o ponto é um indicador pobre frente às demandas universitárias. Acumula novos obstáculos à forte burocracia administrativa existente e faz com que o cotidiano dos funcionários se torne uma triste fusão de alienação com brutalidade física e psicológica.

Não devemos por bem discutir se sequer esta normalidade do ponto é necessária? O estabelecimento do ponto eletrônico é um mero procedimento administrativo ou uma norma drástica com fortes implicações na vida acadêmica, podendo mesmo interferir no desempenho das atividades-fim da USP? Que fique claro: não estamos aqui defendendo a impossibilidade de se registrar o trabalho realizado, nem a presença do funcionário na instituição ou nas atividades externas aos campi da USP.

Mas o procedimento de controle deve levar em consideração o dinamismo das realizações da USP. O problema se deve a eventuais irregularidades que podem estar ocorrendo, desde o descumprimento da carga horária, até talvez os casos de funcionário fantasma. Contudo, se a questão é de se ter sempre à mão uma documentação que comprove o exercício da função por meio dos sistemas de controles internos e a assiduidade do funcionário, há que se levar em consideração a diversidade dos trabalhos departamentais, laboratoriais, artísticos e, ainda em especial, das atividades de extensão. Além do constrangimento por conta do espaço, há também o constrangimento da hora, porque muitas atividades são realizadas fora dos muros da USP e em períodos e dias alternativos, para além das normas redutivas do ponto.

Tomando um exemplo, sobre o qual podemos falar concretamente, há concertos musicais de alunos da USP à noite, em teatros municipais, cuja preparação (transporte de instrumentos e adequação do palco) ou mesmo o ensaio geral da orquestra foi realizado pela manhã, necessitando a presença dos mesmos funcionários nos dois períodos. Tais atividades devem ser canceladas a partir de agora pela não adequação à inflexibilidade do ponto?

Que fique claro: não estamos aqui defendendo a impossibilidade de se registrar o trabalho realizado, nem a presença do funcionário na instituição ou nas atividades externas aos campi da USP.

Bertolt Brecht dizia que “devemos construir o país não para a estatística, mas sim para a história”. Assim, cabem aqui vários questionamentos: que USP queremos construir? Será que optamos por uma universidade rígida quanto às regras, mas sem rigor filosófico, na qual se elimina toda e qualquer possibilidade de exceção? Será que na USP a regra está matando a exceção? Mas a grande ciência e a grande arte não são construídas justamente com exceções às regras e aos padrões cristalizados?

Vamos priorizar a lógica da quantidade estatística em detrimento da singularidade qualitativa? Ou vamos ainda nos tornar uma mera extensão não pensante das linhas de produção do mercado? Queremos que na USP prevaleça a “arbitrariedade planejada” e a “humanidade desumanizada”? – lembrando aqui outras expressões de Brecht. Vamos cada vez mais burocratizar e automatizar nosso trabalho e, ainda pior, deteriorar as relações entre professores e funcionários, prejudicando também a interação com os alunos? E em relação ao controle interno, pretendemos uma USP acomodadamente burocrática ou com modelo gerencial e dinâmico, orientado para resultados?

Não vamos sequer abordar a questão jurídica da USP dispor de dois regimes de trabalho, separando professores (autárquicos) de funcionários (celetistas) – discussão esta que ainda vai se desdobrar. Nem ao menos cabe aqui qualquer polêmica trabalhista.

Mas é de se esperar que haja troca de ideias e discussões institucionais sobre tal medida, ainda mais quando implica diretamente a qualidade do nosso trabalho e atinge sobremaneira o cotidiano de departamentos, laboratórios e núcleos de pesquisa e extensão das unidades mais dinâmicas e produtivas da USP. Não é nossa lição de casa desenvolver um questionamento permanente para encontramos os melhores meios e caminhos para o funcionamento da USP?

Queremos que na USP prevaleça a “arbitrariedade planejada” e a “humanidade desumanizada”? – lembrando aqui outras expressões de Brecht. Vamos cada vez mais burocratizar e automatizar nosso trabalho e, ainda pior, deteriorar as relações entre professores e funcionários, prejudicando também a interação com os alunos?

Além destas questões todas, o maior constrangimento do ponto eletrônico é ainda de caráter filosófico. Lembremo-nos de Hannah Arendt, para quem os crimes dos suboficiais nazistas não deveriam ser atribuídos à maldade, mas sim à incapacidade de pensar. Professores e funcionários podem e devem pensar a USP. Juntos e solidários, podem propor uma solução melhor e alternativa no caso dos registros da pontualidade e permanência dos funcionários nos locais de trabalho, respeitando-se a multifariedade das ações da USP.

Por fim, lembremo-nos também do principal mestre de Arendt, Martin Heidegger. Em seu livro O ser e o tempo, de 1927, um clássico da filosofia do século 20, Heidegger diferenciou o tempo físico do tempo histórico. A existência contempla várias dimensões de tempo, sendo cronologicamente incomensurável o tempo do pensamento e da vida. É heterogêneo e não homogêneo. É qualitativo e não quantitativo. O tempo do ser, portanto, não é o tempo do relógio (do ponto).

 

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