O revisor entre o sagrado e o profano

Jurandir Renovato é escritor, crítico de literatura, revisor e editor-executivo da Revista USP

Por - Editorias: Artigos
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Jurandir Renovato, jornalista da Revista USP – Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Eu costumo pensar que se uma editora (ou redação) fosse o cenário de um romance policial, o revisor na certa seria o mordomo. Sua presença só é notada quando ocorre um deslize, ou melhor, um “crime”. Até aí, nada de mais, afinal ele é um profissional pago para não deixar passar erros. E ser discreto, claro.

O problema é que, como acontece com os mordomos, a culpa nem sempre é dele. E no afã de ressuscitar um texto moribundo, muitas vezes é confundido com o verdadeiro assassino. Como se, bulindo no escrito dos outros, carregasse em si uma predisposição congênita à culpabilidade, sobretudo para aqueles que se julgam – e às vezes são mesmo – bons escritores.

De fato, salvo raríssimas exceções, autores nunca se dão bem com revisores. Quando muito os consideram um mal necessário. Concordo que trocar “onde” por “em que” é mesmo de tirar do sério qualquer um, mas ter de ouvir de alguém que aquela incoerência estrutural em seu texto é proposital e parte de um certo “estilo” convenhamos que também não é fácil de engolir.

O curioso é que muitos escritores foram revisores. Graciliano Ramos, por exemplo, trabalhava em dois jornais na época da mudança ortográfica que trocou o “z” por “s” em “Brasil”. Como os jornais eram rivais e um deles não adotara a reforma, o autor de Vidas Secas teve de se virar utilizando uma ortografia para cada um deles e uma terceira, diferente das outras duas, inventada, como ele mesmo conta, para consumo próprio.

E no afã de ressuscitar um texto moribundo, (o revisor) muitas vezes é confundido com o verdadeiro assassino. Como se, bulindo no escrito dos outros, carregasse em si uma predisposição congênita à culpabilidade, sobretudo para aqueles que se julgam – e às vezes são mesmo – bons escritores

O poeta recém-falecido Ferreira Gullar também foi revisor durante muito tempo e sempre se orgulhou disso. Osman Lins dedicou um bom trecho de capítulo aos revisores no seu belíssimo ensaio Guerra Sem Testemunhas. José Saramago fez de um revisor, Raimundo Silva, o protagonista de um de seus melhores romances, A História do Cerco de Lisboa; o argentino Julio Cortázar fez o mesmo em Os Prêmios.

Mas o melhor foi Nabokov. Quando perguntado, numa das famosas entrevistas da Paris Review, se algum editor já lhe havia dado conselho sobre literatura, o autor de Lolita respondeu o seguinte: “Por ‘editor’ imagino que você queira dizer revisor. Entre esses conheci criaturas brilhantes, de tato e gentileza ilimitados, que discutiriam comigo um ponto e vírgula como se isso fosse uma questão de honra – e que, na realidade, quase sempre é uma questão de arte”.

Mas a maioria não morre de amores por revisor, essa é a verdade. E isso desde priscas eras, quando, inclusive, se usava essa expressão, quando os livros eram impressos em tipografia, e os revisores trabalhavam em duplas, batendo na mesa com a caneta para marcar a pontuação, quando, enfim, não existia o Google nem as marcas de revisão do Word.

Até mesmo o amigo e editor de Kafka, Max Brod, que revisou os textos do autor checo e depois os publicou, volta e meia é enxovalhado por ter mexido demais onde não devia. Mas, pensando bem, será que o Kafka que conhecemos e aprendemos a amar teria o mesmo sucesso sem a interferência (ou mediação, como quer Roger Chartier) do amigo copidesque?

Jorge Luis Borges disse que o livro, de todos os instrumentos inventados pelo homem, é o único que não é uma extensão de seu corpo, mas da sua mente e imaginação. Talvez por isso o livro seja um objeto tão sacralizado. E para todo tipo de gente, inclusive analfabeta, que vê no livro, ou na palavra que não consegue decifrar, um poder quase sobrenatural.

O fato é que a palavra impressa tem a capacidade de se transformar na Palavra em caixa alta. Ou no Verbo, como queiram. Não à toa as três maiores religiões do planeta possuem cada uma o seu livro, e cada um deles é o livro. E vai você se meter a besta de dizer que todos eles passaram ao longo dos anos por várias traduções, adaptações, revisões etc., que foram modificados e até adulterados.

Mas, pensando bem, será que o Kafka que conhecemos e aprendemos a amar teria o mesmo sucesso sem a interferência (ou mediação, como quer Roger Chartier) do amigo copidesque?

O revisor, nesse sentido, então, seria uma espécie de profanador de um território sagrado. Um herege, vamos dizer assim. Como o Raimundo Silva, da História do Cerco de Lisboa, que ainda vai mais longe e introduz um “não” onde devia ser “sim”, alterando não só o texto do livro como também os rumos da história de Portugal. Isso é sacrilégio puro! O que, de resto – claro que não do modo sabotador proposto por Saramago –, todo revisor faz.

Um exemplo disso foi quando comprei meu primeiro carro, lá nos anos 80. O vendedor, para preencher um cadastro de financiamento, perguntou a minha profissão. Após informar que trabalhava como revisor ele quis saber em qual oficina. Eu expliquei que não era revisor mecânico, mas de textos. Ele ficou me olhando, com a expressão vazia.

Para fazê-lo entender, disse que era revisor de livros, que corrigia livros. Sua feição agora alternava incredulidade e zombaria: “Você corrige livros?! Tá bom… Então você sabe mais que os livros?!”. E dava muita risada. Só me restou rir também.

 

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