O futuro das universidades públicas

Charles Mady é professor associado da Faculdade de Medicina da USP e diretor de unidade do Instituto do Coração (Incor)

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Professor Charles Mady – Foto: Incor-HCFMUSP
As universidades públicas brasileiras, estaduais e federais, estão em constante declínio nestas últimas décadas. As razões são sobejamente conhecidas, mas pouco abordadas de forma construtiva por motivos vários, muitas vezes relacionados a corporativismos poderosos, que deveriam ser enfrentados de forma corajosa. Agudamente, a falta de recursos financeiros é, sem dúvida, causa de enormes dificuldades, além da dificuldade de se aplicar critérios para um melhor emprego do pouco que há. Para comprovar, basta consultar os órgãos da imprensa sobre problemas de gestão nas mais variadas áreas, levando a população a concluir que o dinheiro público está sendo mal administrado.

O impacto sobre os recursos humanos é gigantesco, gerando descrença e desesperança nos funcionários de todos os níveis, mesmo sendo eles, em sua maioria, altamente eficientes. Esses sentimentos constituem o maior veneno para a produtividade de nossas instituições, com queda evidente na qualidade de trabalho. Para complicar, a evasão de cérebros é uma triste realidade, tanto para o setor privado como para outros países. Os que ficam procuram outras formas de subsistência, dedicando seu tempo cada vez menos para as finalidades para as quais foram preparados e contratados. Este perfil se dissemina como uma doença contagiosa, tornando-se até cultural.

As dificuldades financeiras ajudaram muito a colocar, de forma clara e evidente, os problemas maiores enfrentados pelas academias. Nesta questão, além da sobrevivência, há fatos políticos importantes, que estão colaborando muito para afastar professores de elevado nível humano e profissional de nossos centros de ensino. É triste observar indivíduos que dedicaram décadas de suas vidas, com carreiras universitárias exemplares, serem preteridos, indo procurar meios de sobrevivência outros que não as academias, diminuindo muito sua dedicação ao ensino, pesquisa e extensão. Esse lado político é causa importante da decadência intelectual dos recursos humanos. Muitas carreiras brilhantes foram interrompidas por essa associação maligna de fatores. Temos, portanto, uma receita perfeita para o constante declínio de qualidade, apesar de ainda termos centros que se mantêm pela alta resiliência de grupos de docentes e funcionários.

Há solução ou soluções?  Acredito que sim, a longo prazo, com vontade política que gere mudanças no padrão cultural hoje vigente. Muitas opiniões deverão ser colocadas e confrontadas, em sérios e saudáveis diálogos. Vamos aos meus pensamentos.

O professor deve e deverá sentir orgulho de ocupar essa posição, demonstrando um real comprometimento. Ele deve ser professor, e não “estar” professor. Ele deve ter a missão primeira de ser professor, dedicando o tempo necessário para ser um bom professor. Um bom professor deve ensinar ciência e também a arte com ética em exercer a sua profissão. Deve e deverá ser a missão primordial em sua vida profissional. Deve “vestir a camisa” de sua universidade, em detrimento de outras atividades, não se tornando professor empresário, preenchendo integralmente as necessidades de suas instituições, não criando, assim, conflitos de interesse.

Em nosso sistema universitário não há espaço para grandes trocas ou contratações, como comumente ocorre em times de futebol. Nesse sentido, o professor também deve e deverá ser julgado periodicamente por um órgão colegiado, devidamente formado, com análises de produção em todos os setores nos quais deveria atuar. O topo da carreira deveria ser atingido pelo mérito, e não por decisões corporativas, fisiológicas, ou por nepotismos. Deveríamos ter mais titulares, que seriam escolhidos entre os docentes atuantes, com perfis heterogêneos, assim diminuindo o risco da formação de oligarquias dominantes. Teríamos certamente mais eficiência dos funcionários, dada pelo bom exemplo, aumentando a produtividade. Com isso, poderíamos remunerar melhor para que houvesse uma sobrevivência mais digna, tornando a academia um fim em si, e não um meio. Traríamos dignidade e respeito aos corpos docentes, fundamentais para qualquer centro de produção e educação.

Os professores devem se distanciar do pensamento utilitário, voltado à realização unicamente pessoal, e ter em mente a realização institucional, em comum acordo. Infelizmente, predomina o conveniente pessoal, em detrimento do avanço da entidade. Essa forma de pensar se tornou cultural, com raízes profundas, difíceis de serem extirpadas. Se o meu meio de trabalho avança, eu avanço. Como sabiamente disse Cícero: “Cada um deve, em todas as matérias, ter um só objetivo, qual seja, conformar o seu próprio interesse com o interesse geral”.

O mesmo pensamento teve o genebrino Rousseau, um dos ícones do Romantismo, assim como muitos outros pensadores de outras escolas, que têm, ou tinham, opiniões saudáveis sobre sistemas sociais. Não são, portanto, ideias novas, estando presentes com o ser humano desde que ele existe. É só saber explorá-las com sabedoria. Infelizmente, na atualidade, não se faz o certo institucional, mas apenas o conveniente pessoal. As reformas não podem ser cosméticas, para consumo imediato. Portanto, uma mudança cultural profunda deve ser iniciada.

É um árduo trabalho, e esta é a nossa opinião, sempre aberta ao diálogo. Este país dispõe de recursos humanos de alta qualidade intelectual e moral, nos mais diversos setores. Basta reconhecê-los e agrupá-los. Peguem como exemplo o que está ocorrendo na Petrobras. Pensamentos divergentes deverão ser colocados, em saudável diálogo, pois as contradições são positivas e produtivas, gerando evolução. Os resultados dessas iniciativas virão apenas a longo prazo, pois mudanças culturais ocorrem com muito trabalho e discussões, e não com revoluções de momento. Comparo essas mudanças à reforma política em nosso país, difícil de ser feita, mas necessária. É uma bela herança que poderíamos deixar.

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