O espírito olímpico

Katia Rubio – EEFE

Por - Editorias: Artigos
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Katia Rubio é professora associada da Escola de Educação Física e Esportes (EEFE-USP) e membro da Academia Olímpica Brasileira – Foto: Marcos Santos – USP/Imagens

 

Agora é pra valer. Chega de treino, de ensaio, de faz de conta. Por mais horas que se tenha gastado com planos e projetos é possível saber quem é quem ali, ao vivo. Não falo apenas das atletas que desde quarta-feira, dia 3 de agosto, com o futebol ainda antes da cerimônia de abertura, estão competindo em busca de uma medalha, mas daquela situação que todos que brincaram de pega-pega na rua sabem. Tá valendo. Aqui não tem espaço para café com leite. Todos os olhos do planeta estão voltados para o Rio de Janeiro, seja produzindo o espetáculo, seja competindo.

Os melhores do mundo já estão fazendo os jogos olímpicos acontecer. E o espírito olímpico está no ar, no mar e na terra, fazendo da cidade maravilhosa um espaço de materialização de algo tão etéreo, tão desejado e tão temido, diante das circunstâncias que marcaram seus preparativos.

A começar da cerimônia de abertura, produzida como o desfile de uma grande escola de samba, com mais enredo do que samba, para ser apresentada no centro de um estádio de futebol. Ufanismos à parte, em matéria de narrativas somos imbatíveis. Alguns sambas-enredo se eternizaram cantando eventos da história brasileira, deixando professores de história a ver navios (e não são as caravelas portuguesas) em matéria de didática.

Numa analogia propícia teríamos Fernando Meirelles como o grande carnavalesco da festa deixando Joãosinho Trinta absolutamente orgulhoso. Numa terra onde bossa nova convive com maracatu, meio ambiente, funk e empoderamento, o recado foi dado com mérito, elegância e sem precisar recorrer a discursos politicamente corretos.

A força da cultura popular foi mostrada ao mundo causando encantamento e impacto. Uma história que não começou com a chegada dos portugueses ao Brasil, mas recorrendo àquilo que já é de pertencimento de milhares de anos. Sem concessões, apontou para as contribuições e conflitos dessa pan-pátria entendida por nós, mas tão desconhecida e incompreendida por gringos bem e mal intencionados.

Nossa festa custou apenas 10% do que foi a cerimônia dos Jogos Olímpicos de Londres! Sem preconceito e dando sentido a termos pejorativamente consagrados como gambiarra, a abertura dos Jogos do Rio explicou aos estrangeiros uma característica que tanto pode ser um potencial como a nossa ruína.

A “gambiarra” celebrada em prosa e verso é a brasileira arte de fazer do nada, ou de um problema, algo magnífico como foi a festa, ou a solução para a falta de alternativa. Esses jogos já provam isso. Diante de tantas dificuldades era possível que muita coisa já tivesse dado errado, mas os jogos já estão fluindo e o mundo nos olha espantado procurando pelo zika e todos os outros argumentos usados para justificar a ausência na festa do esporte.

Numa analogia propícia teríamos Fernando Meirelles como o grande carnavalesco da festa deixando Joãosinho Trinta absolutamente orgulhoso

É um lamento ver essa arte se transformar em espaço e oportunidade para as saídas escusas e danosas como a corrupção, porque o encantamento produzido por ela poderia ser o diferencial nesse mundo previsível e dominado pela formatação.

Não é só na gambiarra que os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro se diferenciam. Nunca antes na sua história o principal mandatário do Movimento Olímpico se posicionou tão abertamente, tão enfaticamente, em relação às questões gerais da política internacional.

Olhou nos olhos das grandes potências com a serenidade que o poder lhe confere e disse não à tolerância em relação ao doping. Campeão olímpico de esgrima em Montreal, Thomas Bach sabe muito bem o que representa um duelo dessa natureza. Não conseguiu impedir a participação de toda a delegação russa, mas provocou baixas consideráveis em modalidades que tradicionalmente se conhecem à força das substâncias mágicas para aumento de rendimento.

E mandou um recado aos olímpicos de alma ou ocasião que não baixará a guarda enquanto estiver à frente do COI. Efetivamente, entendeu que os tempos são outros e é mais do que hora de o Olimpismo fazer a leitura do mundo contemporâneo.

E foi além. Mostrando que política e esporte efetivamente fazem parte de um mesmo pacote, adotou uma clara estratégia de fazer o COI sair do pedestal de uma neutralidade falaciosa e marcar presença em um mundo em conflito.

Nunca antes na sua história o principal mandatário do Movimento Olímpico (Thomas Bach) se posicionou tão abertamente, tão enfaticamente, em relação às questões gerais da política internacional.

Pela primeira vez na história, quebrando a lógica de participação por Estados Nacionais, foram aceitos atletas com índice olímpico para participar da competição. Se no passado esse tipo de participação garantia os mecanismos de poder dos Comitês Olímpicos Nacionais e das próprias Federações Internacionais, há algumas décadas essa lógica retirou o protagonismo e o brilho dos atletas para depositá-lo em dirigentes que pouca ou nenhuma relação tiveram ou têm com o esporte. Esse esvaziamento colocou e coloca em risco a razão de ser dos jogos olímpicos, do próprio espírito olímpico e dos vultosos negócios gerados por eles.

Em seu discurso na cerimônia de abertura, mostrou isso. Engajado, antenado nos deslocamentos produzidos pelos conflitos internacionais, não se esquivou. Premiou um projeto na África que cuida de jovens e crianças, vítimas da violência da guerra. Permitiu que pela primeira vez, desde a organização dos jogos olímpicos por representações nacionais, atletas pudessem competir sem bandeiras de suas nações de origem ou acolhimento. Foi diplomático diante dos problemas de organização afirmando sempre que a competição seria um sucesso e que o Brasil faria uma grande festa, escapando da postura eurocêntrica que sempre caracterizou esses mandatários.

Enfim, o espírito olímpico se materializou no Rio, como não se via há muito tempo. E talvez isso esteja produzindo no público o comportamento desejado, mas não ensinado. Torcedores nos locais de competições fazem uma festa à parte, empurrando não apenas os brasileiros, mas também os mais pobres ou com menos condições de vitória. Clara está a projeção de outras competições que perdemos de lavada, mas soubemos dar o troco.

Mas não se enganem. Se na TV o que vemos são arenas bem construídas e somos recepcionados por voluntários simpáticos e bem treinados, nos muitos quilômetros percorridos pela cidade a bordo de ônibus, BRT ou metrô é o mesmo Rio sem olimpíada. Os muitos quilômetros dentro de um trem da Central do Brasil, vindo de Deodoro até o centro, mostram que nossos problemas ainda habitam a cidade olímpica. E não há espírito que dê conta disso. É preciso trabalho, políticas públicas e disposição de governantes para que essa medalha fique na cidade que já foi maravilhosa.

 

 

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