Novos rumos de “Revisão nas falas?”

Mário Fanucchi é professor aposentado da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP

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Foto: Cecília Bastos/USP Imagens
Se há um período do ano que muitos  consideram especial, por que não seguir a maioria e admitir que o ano só começa depois do Carnaval?

Em relação à nossa tarefa neste espaço, esperar até que chegue 2018 (Calendário de Momo) vem a calhar…  Já apresentamos um resumo do nosso  projeto e aguardamos as indispensáveis adesões para prosseguir. Notem que falo no plural porque alguns leitores se interessaram em colaborar, prometendo anotar todo tipo de erro que flagrarem na mídia eletrônica, como venho fazendo. Agradeço desde já… mas lembro que, não devemos ficar inativos, mesmo em tempo de festa, tapando os ouvidos para os habituais desrespeitos ao nosso idioma.

Nos cinco capítulos já publicados, surgiram exemplos com diferentes graus de gravidade, de modo que resolvi classificá-los, levando em conta a frequência com que aparecem e seu tempo de sobrevivência. É o caso daquele vício que induz a pessoa a formular frases como esta: As mulheres, elas precisam… – quando seria suficiente (e correto) dizer: As mulheres precisam… O pior de tudo é que a prática se espalhou de tal maneira que já é de uso corrente e, com certeza, levará muito tempo para ser esquecida. Trata-se, portanto, de algo que merece condenação em grau máximo. Surgem, depois, erros de concordância: “Ele foi um dos que compareceu …”, “Houveram casos…”. Confusão quanto ao significado  das palavras: aonde, onde, o moral, a moral -como se fossem equivalentes. Cometer descuidos que resultam em pleonasmos e cacófatos: “Ao entrar dentro da piscina…”, “a nadadora conseguiu a melhor marca dela…”. Conjugar verbos no infinitivo sem o “r” final : levá, fazê, ri . Usar, livremente, contrações que produzem sons estranhos: prum (para um), prela (para ela) preles (para eles) etc., que são inadequadas em qualquer declaração que exija clareza. É comum, também, a pessoa dizer : “Cheguei na casa do meu amigo e bati na porta – ao invés de  “bati à porta”… A variedade de erros é grande e o efeito negativo do que é dito persiste e se multiplica espantosamente.

Enfim, só nessa demonstração, que exemplifica erros comuns, tanto nas conversas do cotidiano como os cometidos ao microfone, é fácil perceber com que facilidade eles se insinuam nos diálogos mais importantes, registrados e difundidos por emissoras de rádio e tevê, numa quantidade que causa danos ao ouvinte inocente, mas, também, à linguagem do País. E mais: levando-se em conta o coeficiente dos ouvintes  na mídia eletrônica, comparado ao que representa, por exemplo, o número de leitores dos jornais diários, mesmo que acrescido dos usuários das edições digitais, temos um quadro completo para justificar uma reflexão sobre a conveniência da Revisão nas Falas. É bom lembrar, também, que todas as estruturas de radiojornalismo e, muito mais tarde, também as de telejornalismo, não só no Brasil, mas em todo o mundo, se desenvolveram  baseadas em dois pilares: bem-informar e criar os meios para isso – um dos quais, a nosso ver, é a correção, tanto no falar quanto no escrever.

Em relação à nossa tarefa neste espaço, esperar  até que chegue 2018 (Calendário de Momo) vem a calhar… Já apresentamos um resumo do nosso  projeto e aguardamos as indispensáveis adesões para prosseguir.

Enfim, aí está o resumo de tudo que foi possível demonstrar até agora.  E estes são os planos daqui para a frente:

1 – Abertura da segunda fase com uma consulta àqueles que nos acompanham desde o primeiro capítulo, bem como estimulá-los a dar continuidade a suas críticas e sugestões.

2 – A colocação dos profissionais no centro das questões levantadas  não é um simples convite, mas um apelo: já é hora de se pensar na revisão (ou pós-revisão, como já foi batizada), com o mesmo rigor  da revisão de textos. E isso só será possível com a cooperação dos profissionais da revisão tradicional, dos redatores, locutores, apresentadores e repórteres – todos de forma voluntária – indicados por seus respectivos supervisores nos núcleos de trabalho das emissoras que aderirem à ideia.

3 – Realização de testes, com a colaboração das emissoras participantes.

4 – Relatório final.

Enquanto digito estas palavras, imagino quantas impropriedades e erros gramaticais estão sendo cometidos, via rádio e tevê, por este Brasil afora, testemunhados por um número incalculável de pessoas. Seu efeito multiplicador não pode ser negado e exige providências. Vamos adotá-las?

Até breve.

 

Comentário: Há dois ou três dias, assisti na tevê a uma demonstração alentadora, um apresentador da previsão do tempo desculpou-se, humildemente, pelo erro cometido no boletim anterior, ao definir um código de meteorologia. Foi uma típica Pós-Revisão na Fala!

 

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