Massaud Moisés só nos traz gratas recordações

Francisco Maciel Silveira é professor titular de Literatura Portuguesa da FFLCH-USP

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Francisco Maciel Silveira – Foto: Arquivo pessoal

 

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Primeira: quando fui me candidatar a uma vaga no mestrado, ele atendeu-me em seu carro no estacionamento do antigo barracão das Letras, à noite.

Segunda: com ele aprendi a pensar com a própria cabeça, ensinava-nos que era preciso primeiro ler o texto literário para depois ir à bibliografia a ele dedicada, para discutirmos a validade dos preceitos exarados.

Esse exercício ele aplicava às próprias obras, fazendo-nos discuti-las à procura de argumentos fracos, duvidosos, fazendo-nos, pois, discutir com o Mestre, ensinando-nos que não há palavra definitiva em matéria de literatura.

Com ele também aprendi a utilizar seminários em grupo. Dizia-me que, com a técnica, os alunos aprenderiam a discutir com a bibliografia, assim como nós fazíamos.

Coração generoso, incentivava-me na progressão da carreira acadêmica, degrau a degrau: mestrado, doutoramento, livre-docência, titularidade.

Incentivava-me também na produção ensaística, para a qual contribuí nos livros que organizava, seja em teoria literária, seja nas literaturas luso-brasileiras.

Por quase 15 anos, exerci as funções de vice-coordenador da graduação e pós, brincava sempre com ele, encarregado que era de adquirir material para a Literatura Portuguesa, com cheques que ele assinava em branco, dizendo-lhe que aquela liberalidade eu não faria nem para minha esposa. Confiava em mim, dizia-me que a Literatura Portuguesa cairia nas minhas mãos (ainda bem que seu prognóstico não se fez realidade).

Dirigiu as Faculdades de Filosofia, Ciências e Letras de Marília e de Assis, institutos isolados do ensino superior do Estado de São Paulo, mais tarde incorporados à Unesp. Dirigiu ainda o Centro de Estudos Portugueses da Universidade de São Paulo (1956-1957, 1968-1986).

Sua bibliografia em termos de teoria literária e literaturas luso-brasileiras foi imensa. Vale lembrar apenas alguns títulos, para não nos alongarmos demasiadamente. Começo pela Editora Cultrix, quase sua segunda casa, onde publicou A Criação Literária, dedicada aos fundamentos teóricos, ao estudo da poesia, da prosa e das manifestações híbridas, obra que se consagrou como a mais adequada e fidedigna introdução à Teoria da Literatura, de que dispõe, particularmente, o estudioso ou o estudante de Letras; Literatura: mundo e forma, a discutir a crítica literária (ou artística?); O conto português, uma antologia da forma, que percorre diacronicamente a periodologia literária portuguesa. Assinalem-se ainda o Dicionário de Termos LiteráriosA Literatura Brasileira através dos Textos, além de A Literatura Portuguesa e A Literatura Portuguesa através dos Textos, os dois últimos estão por alcançar a casa da trigésima edição revista e aumentada. Organizou ainda, pela mesma editora, A Literatura Portuguesa Moderna.

Pela editora Atlas, organizou A Literatura Portuguesa em Perspectiva, em quatro volumes. Pela Global, os volumes acerca da Poesia Clássica e da Literatura Barroca.

De suas constantes idas e vindas a Portugal, devo registrar As Estéticas Literárias em Portugal, pela editora lisboeta Caminho, a tratar da doutrinação estética, perspectiva crítica sumamente relevante no processo ensino-aprendizagem.

Outro Flaubert no culto da forma precisa, não esqueceria um Guia Prático de Redação.

Last but not least, ressalte-se que foi professor visitante nas universidades norte-americanas de Wisconsin (1962-1963), Indiana (1967-1968), Texas (1971), Califórnia (1982), Vanderbilt (1970-1987) e na Universidade de Santiago de Compostela (2001).

Por fim, registre-se também que foi um dos primeiros estudiosos brasileiros a trabalhar com a obra de Fernando Pessoa, deixando-nos Fernando Pessoa: O Espelho e a EsfingeO Guardador de Rebanhos e Outros Poemas, O Banqueiro Anarquista e Outras Prosas, ainda pela Cultrix.

Em 1995, aposentou-se aos 67 anos, dedicando sua vida inteira a ensinar-nos a aprender.

Não daria para listar aqui os artigos, assinados pelo Mestre, espalhados em periódicos, revistas e jornais ao redor do mundo, muito menos a correspondência travada entre ele e escritores ou críticos brasileiros e de muitas outras nacionalidades, que está sendo compilada por Maria Antonieta Moisés, sua dedicada segunda esposa.

Devo lembrar ainda que Massaud Moisés foi membro da Academia Paulista de Letras, desde 16 de março de 2000, na qual ocupava a cadeira de número 17, fundada por Sílvio de Almeida e cujos antecessores foram o reverendo Otoniel Mota, Afrânio do Amaral, Ernâni Silva Bruno e Marcos Rey.

Que dizer mais de quem foi meu Mestre, meu amigo e cuja lembrança me será sempre eterna?

Mestre, saudade sempre da Literatura Portuguesa DLCV–FFLCH–USP.

Que mais dizer? Sem correr o risco de chover no molhado, apenas: SAUDADE, palavra tão nossa…

 

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