Ivald Granato, 50 anos de provocações

Alecsandra Matias de Oliveira – ECA

Por - Editorias: Artigos
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Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais pela ECA, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artesda ECA-USP - Foto: Divulgação

Alecsandra Matias de Oliveira é doutora em Artes Visuais pela ECA, membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte (ABCA) e pesquisadora do Centro Mario Schenberg de Documentação da Pesquisa em Artes da ECA-USP – Foto: Divulgação

Em 2002, o Museu de Arte Contemporânea da Universidade de São Paulo promoveu uma série de encontros com artistas. O objetivo era pensar, avaliar e inserir novas obras à Coleção.

As primeiras reuniões foram realizadas com a participação de artistas que representavam uma fatia do acervo dedicada às décadas de 1960, 1970 e, por extensão, até certo ponto os anos de 1980.

Eram artistas com trajetórias sólidas, extremamente ativos e com novos trabalhos nas décadas posteriores que não estavam ali presentes.

Quem eram esses artistas? Nada demais. Só alguns dos nomes mais importantes da recente história da arte brasileira: Antônio Henrique do Amaral, Arcangelo Ianelli, Caciporé Torres, Cláudio Tozzi, Cleber Machado, Guto Lacaz, José Roberto Aguilar, Luiz Paulo Baravelli, Maria Bonomi, Sonia von Brusky e Tomoshige Kusuno.

Um dos mais entusiasmados e inquietos era Ivald Granato. Quando chegava aos encontros, realmente, dominava o ambiente – o inesperado era sempre uma possibilidade.

Depois de três anos, muitas visitas aos ateliês, discussões acirradas, levantamento de materiais e brincadeiras entre esses artistas e amigos surgiu a exposição Nave dos Insensatos, organizada por Elza Ajzenberg, no MAC USP.

O nome da mostra referia-se à expressão criada pelo pintor holandês Hieronymus Bosch, no século XV, e foi encarada com humor e irreverência pelos artistas – Granato era um dos mais aguerridos defensores do título.

O mote da exposição era marcadamente a contestação política somada às ousadas linguagens adotadas por esses artistas.

A experiência de Nave dos Insensatos expôs o percurso de Ivald Granato atráves das obras pertencentes ao MAC USP, acrescidas de outras recentes produções selecionadas em seu ateliê.

Nessa mostra, o artista multimídia que começou a pintar cedo sob a influência de pintores cubistas e que cursou a Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), na década de 1960, resgatou suas antigas provocações e acentuou novas.

O desenho “Sem título”, 1974, pertencente ao MAC USP – e obra exposta em destaque na Nave dos Insensatos, foi realizado concomitantemente a vários projetos de performance e ações do artista.

Nessa obra, Granato trabalhou com traços ágeis de diversas cores. As linhas caóticas apontam para a violência gestual da composição, ou seja, para o ato da criação artística.

Na verdade, Granato diz em alguns depoimentos que “o desenho é um acontecimento”, assim como a performance teria “o encanto de acontecer, acabar e sumir”.

Entre os anos de 1970 e 1980, o artista realizou várias performances, muitas delas registradas em fotografias e vídeos, como seu próprio casamento, em 1970. Em 1974, participou da performance intitulada de Manifestação Veloz Man.

No ano seguinte, sugeriu Proposicion n.º 1 a Amsterdã.  Em 1976, atuou na performance No of Massage Vomite, no Teatro da Fundação São Caetano, e em O Urubu Eletrônico, atração no Theatro Municipal de São Paulo.

Em outubro de 1978, Granato incorporou Ciccillo Matarazzo e convidou 30 artistas para o evento Ciccillo Matarazzo em Mitos Vadios, do qual participaram Hélio Oiticica, Artur Barrio, Regina Vater, entre outros.

A experiência de Nave dos Insensatos expôs o percurso de Ivald Granato atráves das obras pertencentes ao MAC USP, acrescidas de outras recentes produções selecionadas em seu ateliê

Reconhecido por ser pioneiro da arte performática e por sua irreverência, marcou gerações de novos artistas. Foi parceiro de Hélio Oiticica, Lygia Pape e Ron Wood (guitarrista dos Rolling Stones).

Na última passagem da banda pelo Brasil, Granato e Wood foram até o Beco do Batman, na Vila Madalena, gravar um documentário sobre a turnê pela América Latina para a BBC. Essa camaradagem reflete-se em suas obras. Alguns dos seus amigos participaram de suas ações performáticas e produções artísticas.

Suas performances também são exemplos da fusão de pinturas, música e teatro. O produto de cada performance (a roupa, a fotografia, o cartaz, enfim qualquer suporte que tenha sido empregado na ação), transformava-se em pintura e em objeto artístico. Ele assumia sua condição de pintor, a performance era a decorrência do seu fazer artístico.

Nos últimos anos, Granato se dedicou mais à pintura e a organizar sua própria obra. Também, era confessamente metódico, mas, segundo ele mesmo, não era chato. Acordava às 6 horas da manhã e trabalhava em seu ateliê com organização – não como se fosse uma obrigação ou uma fábrica, porém com o espírito livre e despretensioso. Essa liberdade criativa não o impedia de calcular cada gesto, mesmo que fosse visceral.

Reconhecido por ser pioneiro da arte performática e por sua irreverência, marcou gerações de novos artistas. Foi parceiro de Hélio Oiticica, Lygia Pape e Ron Wood (guitarrista dos Rolling Stones)

Foram 50 anos de provocações que graças às ações de Nave dos Insensatos estão representados no acervo MAC USP. Essas cinco décadas de produção também estão expostas hoje na mostra Ivald Granato: Registro-Arte-Performance, inaugurada neste mês na Caixa Cultural de Brasília e em cartaz até setembro.

A retrospectiva composta por fotografias, vídeos, roupas, cartazes e outras peças  evoca, sobretudo, as décadas de 1970 e 1980, enfatizando um contexto marcado pela contestação, pela experimentação e pela necessidade de livre expressão.

Na retrospectiva, os registros das performances buscam um resgate das ideias de Granato, concebidas a partir da arte pop, do minimalismo e da arte conceitual que  integraram a cena cultural brasileira.

Ao longo da mostra, as performances de Granato não foram esquecidas. Elas surgem em destaque. Entre elas, Ciccilo Matarazzo em Mitos Vadios, realizada na Rua Augusta, em 1978. De sua obra recente, a exibição reúne trabalhos como Em Algum Lugar do Mundo às Catorze Horas, 2014 e Quando Cortei meu Cérebro, 2015.

 

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