Invasão no paraíso e traição ecológica

Alexandre A. Oliveira – IB

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Alexandre A. Oliveira é professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências (IB-USP) - Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

Alexandre A. Oliveira é professor do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências (IB-USP) – Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

 

Making a bad situation worse…” é o início do título de um artigo que publiquei recentemente com uma aluna de mestrado [1]. Chegamos a cogitar um título iniciando com algo como “Antes só, do que mal acompanhado…”, mas ao final optamos pelo “Piorando uma situação ruim” para descrever o que encontramos em Fernando de Noronha.

Esse arquipélago a cerca de 550 km da costa de Recife, com belezas cênicas que nos fazem perder o fôlego, tem grande parte da sua vegetação natural alterada pela ação do homem. Por sinal, um padrão para muitas ilhas oceânicas, pontos de parada para as grandes navegações do séculos XV e XVI.

Os navegadores buscavam água doce, lenha e outros recursos para continuar suas viagens, deixando as ilhas devastadas.  Além disso, Fernando de Noronha serviu como presídio por quase 200 anos e foi base militar estadunidense na Segunda Guerra. Queimou-se grande parte da vegetação nativa para auxiliar o monitoramento dos presos e a visualização da chegada de inimigos. Mas o inimigo já estava presente.

Os colonizadores que se estabeleceram na ilha trouxeram consigo animais domésticos e plantas para subsistência, o que, por um lado, diminuiu a pressão pelos recursos naturais nativos. Nesse processo, introduziram um arbusto chamado leucena (Leucaena leucocephala) com a finalidade de alimentar animais e produzir lenha.

Leucena é uma planta originária do México e Norte da América Central, que fixa nitrogênio e cresce muito rápido, podendo alcançar porte de árvore com mais de 10 m de altura, mesmo em solos muito pobres. Está na lista dos 100 organismos mais invasivos do mundo e é uma das plantas mais problemáticas em ilhas oceânicas tropicais [2].

Os navegadores buscavam água doce, lenha e outros recursos para continuar suas viagens, deixando as ilhas devastadas.  Além disso, Fernando de Noronha serviu como presídio por quase 200 anos e foi base militar estadunidense na Segunda Guerra.

Apesar das evidências existentes de alguns mecanismos que tornam uma espécie mais invasiva ou um ambiente mais propício à invasão biológica, ainda não entendemos completamente como se dá esse processo e suas consequências. Sabemos que a invasão é a maior causa de extinções de espécies nativas em ilhas oceânicas.

Em geral, ilhas oceânicas têm baixa biodiversidade, pois dependem de eventos raros de dispersão a longa distância para serem colonizadas. Em sua história evolutiva as espécies insulares interagem com poucos organismos, o que as torna mais frágeis ao contato com a invasora. Este fato, associado a ambientes com longo histórico de perturbação antrópica, está entre as principais causas da susceptibilidade à invasão biológica de ilhas oceânicas.

Leucena encontrou na ilha um ambiente propício para se desenvolver. Hoje é a planta mais comum, encontrada em mais de 60% da área vegetada e dominante em 1/5 desta área. Onde ela ocorre, a diversidade das espécies nativas é cerca de 4 vezes menor e sua ocorrência na ilha só tem expandido. Entretanto, uma espécie nativa, Capparis flexuosa, conhecida popularmente como feijão-bravo, é frequentemente encontrada em companhia da leucena. Aparentemente é a única planta nativa que suporta a presença da invasora.

Para entender os mecanismos pelos quais a leucena alcançou tal sucesso na ilha conduzimos vários experimentos, em campo e em casa de vegetação, para verificar o efeito da leucena e da presença do feijão-bravo em uma outra espécie nativa, o mulungu (Erythrina velutina).  O mulungu está entre as espécies mais comuns nas florestas originais da ilha, ocorrendo naturalmente com o feijão-bravo. Investigamos nesses experimentos o principal mecanismo descrito em literatura para o sucesso de leucena como invasora.

Basicamente, produzir substâncias que impedem a germinação e o crescimento de outras plantas ao redor, chamado de alelopatia. Verificamos que a leucena não impede a germinação do mulungu, pelo contrário, pode até facilitar a sua germinação. Entretanto, após a germinação os mulungus morrem muito mais e crescem pouco quando em companhia da invasora. Os mulungus na presença apenas do nativo feijão-bravo têm um desempenho tão bom ou melhor do que quando crescem sozinhos.

Leucena é uma planta originária do México e Norte da América Central que fixa nitrogênio e cresce muito rápido, podendo alcançar porte de árvore com mais de 10 m de altura, mesmo em solos muito pobres. Está na lista dos 100 organismos mais invasivos do mundo e é uma das plantas mais problemáticas em ilhas oceânicas tropicais.

Até aqui tudo como o esperado, a espécie nativa crescendo normalmente na presença de outras nativas e se dando mal na presença da invasora. O resultado mais espantoso foi que o mulungu, quando na presença de ambas as espécies, a nativa feijão-bravo e a invasora leucena, se deu muito mal, muito pior do que na presença apenas da invasora. Para o mulungu, a presença de leucena aumenta a taxa de mortalidade em quatro vezes, enquanto a presença de leucena associada ao feijão-bravo aumenta mais de sete vezes essa taxa de mortalidade. O feijão-bravo sozinho não altera a taxa de mortalidade do mulungu.

Resumindo, encontramos que a interação neutra a positiva entre duas espécies nativas muda para fortemente negativa na presença de uma invasora. O processo pelo qual uma terceira espécie interfere na interação de um outro par de espécies é chamada de interação indireta. Normalmente essas interações envolvem uma espécie que compete com o inimigo natural de outra, que acaba se beneficiando. Algo como “o inimigo do meu inimigo é meu amigo”. O processo “meu amigo perto do inimigo é meu inimigo” jamais havia sido descrito na literatura. Encontramos a traição nas interações biológicas!

Parte dos atores dessa história pode ser encontrada no campus da USP. Nesses dias de primavera, é possível encontrar dois mulungus em flor, a própria Erythrina velutina e o suinã (Erythrina speciosa); a leucena também está presente em muitas áreas no campus, florescendo e frutificando em todas as épocas do ano. O feijão-bravo e minha aluna, não. Ela, que já trabalhava para o ICMBio, é hoje gestora do Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha, onde, espero, consiga implantar o manejo da leucena e controlar a sua invasão no paraíso.

[1] artigo:

Thayná Jeremias Mello, Alexandre Adalardo de Oliveira, 2016.

Making a bad situation worse: an invasive species altering the balance of interactions between local species. http://journals.plos.org/plosone/article?id=10.13712Fjournal.pone.0152070PloS ONE 11(3): e0152070.

 

[2] Lista de espécies invasoras:

http://www.iucngisd.org/gisd/speciesname/Leucaena+leucocephala