Interações a distância: o “campo” interagindo com a vida

Ernane J. X. Costa é chefe do Depto. de Ciências Básicas da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos-USP

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Ernane José Xavier – Foto: Cecília Bastos/USP Imagens

Desde o surgimento da razão, o homem que pensa tem se orientado a uma noção mais apta a qualificar as relações entre o que se observa na natureza de forma intuitiva e direta e o que se pressupõe existir para além da capacidade de percepção por nossos sentidos. É difícil conceber e, sobretudo, definir o que não pode ser tocado pelos nossos sentidos. Além do mais, o homem e seu ambiente formam uma unidade e muitas vezes a ontologia não é pensada, mas vivida.  É neste terreno que se situa a interação a distância. Tentar entender o que não é tocado por nossos sentidos foi criticamente imperdoável pelas sociedades mais antigas, como, por exemplo, a acusação impetrada ao grego Anaxágoras por ter tentado compreender a natureza dos mistérios divinos, que, dentre outras coisas, incluía a ação a distância dos magnetos.

A descrença latente nas explicações divinas dadas aos fenômenos físicos, como o eletromagnetismo, levou o pensador das primeiras comunidades humanas a produzir suposições independentes. Esse movimento, com o passar dos anos, culminou no fornecimento inexpugnável de argumentos convincentes de que a natureza pode ser explicada para além do que nossos sentidos possam tocar. Neste contexto, através de diversos caminhos históricos, surgem as explicações para a força entre magnetos que culmina na teoria eletromagnética tal qual a conhecemos e que ainda está sujeita a modificações.

De forma leiga diz-se que entre dois magnetos surge um “campo” magnético com linhas de campos padronizadas por definição. Embora nossos sentidos não toquem essas linhas de campo, a intuição matemática humana pode codificar, sob a forma de símbolos logicamente encadeados, essas linhas e sua forma de interação com a matéria concreta à nossa volta.

Tentar entender o que não é tocado por nossos sentidos foi criticamente imperdoável pelas sociedades mais antigas.

Para além de discutir o caráter filosófico da existência do “campo”, o fato é que esse mesmo “campo” permeia tudo e todos até mesmo durante nossas atividades corriqueiras diárias. Enquanto escrevo estas linhas o “campo” eletromagnético permeia toda a extensão do meu ambiente e também o ambiente do leitor deste modesto artigo.

Dificilmente nos enganaremos se afirmarmos que os cientistas e pensadores do século XX conseguiram destruir as antigas certezas reformulando novas perguntas, algumas com respostas quase convincentes, como as atuais explicações que temos da interação do campo eletromagnético com a matéria viva. Um leigo pode, com toda razão, questionar se ondas eletromagnéticas emitidas durante uma simples ligação de seu aparelho celular interage com seu corpo e, se realmente interage, como a interação se dá e, ainda mais, se isso é prejudicial à  sua saúde.  A resposta, em parte, pode ser extraída de dois artigos: um, publicado em 2008 (https://doi.org/10.1080/15368370802344037) no Journal of Electromagnetic Biology and Medicine (volume 27 issue 3 página 215) e outro publicado em 2005 (https://doi.org/10.1109/MAP.2005.1487813) no IEEE Transactions volume 47 (2) página 137. Esses dois artigos científicos deixam bons questionamentos sobre a questão.  A outra questão antagônica a essa última é: seria o “campo” benéfico para sistemas biológicos? E a resposta também pode ser encontrada em diversos artigos científicos que demonstram que o campo eletromagnético aumenta a qualidade de produtos alimentícios (caso estudado na Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos-FZEA da USP) e melhora a ação de bactérias em biorreatores (outro caso bem estudado aqui na FZEA), dentre outros.

É fato que o campo magnético oriundo do geomagnetismo terrestre, da ordem de grandeza de 25 a 70 μT, atua em alguns seres vivos do planeta e esse fato por si só já demonstra a importância de tal fenômeno para a ciência, no que diz respeito à sua ação em sistemas biológicos.

Numa visão simples, um campo magnético é uma região do espaço onde uma carga elétrica (q) que se movimenta a uma velocidade (v) sofre os efeitos de uma força (F) chamada de força magnética, que é perpendicular e proporcional tanto à velocidade como ao campo. A fonte do campo magnético é o movimento de cargas elétricas no interior da estrutura atômica de ímãs permanentes ou pelas cargas elétricas livres que percorrem um fio condutor. A interação  magnética é governada por equações matemáticas conhecidas como equações de Maxwell. Os campos magnéticos podem ser produzidos por ímãs permanentes ou pela passagem de uma corrente elétrica em uma bobina.

A pesquisa científica envolvendo a ação do campo magnético em alimentos é ainda escassa, mas, conforme já relatado, pode abordar três aspectos: (1) a qualidade do produto; (2) a influência no processo produtivo; e (3) a forma como o processo e a qualidade interagem após a ação do campo magnético. Assim, no primeiro enfoque as questões científicas surgem das variáveis físico-químicas, enzimáticas, microbiológicas, nutricionais e sensoriais do produto; no segundo enfoque avaliam-se os aspectos do processo nos rendimentos, aceleração de reações, melhora na operabilidade, redução de custos; e, no terceiro, tem-se procurando a melhor combinação de condições operacionais para a melhora da qualidade do produto durante o seu processo. No Laboratório de Física Aplicada e Computacional (Lafac) da FZEA a combinação dos campos magnéticos com o processo de refrigeração ou congelamento em produtos frescos ou processados tem sido estudada e os resultados preliminares são muito promissores.

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